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Título: Ensaio sobre o amor

Autor : Bernardo Veiga de Oliveira Alves



Escrito por Bernardo Veiga às 19h07
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ÍNDICE

 

                                                                                                      

Prefácio

Resumo

 

Livro Primeiro – Do reto fim do amor

I. Introdução

II. Da natureza do amor

III. Da necessidade do amor e do confuso pensamento do amante

IV. Do amor ideal

V. Do amor humano e da atração pelo belo e bom

VI. Da apresentação da atração e da sua primeira forma

VII. Da segunda forma de atração

VIII. Da terceira forma de atração e seus eventuais problemas

IX. Da forma vil da atração

X. Da vã curiosidade dos admiradores

XI. Da covardia dos admiradores ocultos e da defesa contra um falso amor arquétipo

XII. Da primeira forma de atração da substância para os acidentes

XIII. Desta segunda forma de atração

XIV. Dessa terceira e última forma de atração

 

Livro Segundo – Do comportamento dos amantes

I. Introdução

II. Da beleza dos amantes pelo ornamento natural

III. Da beleza dos amantes pela arte

IV. Da beleza dos amantes pela Beleza

V. Do reto trato entre os amantes

VI. Do desejo do amante à proximidade de Deus ao amado

VII. Do imprescindível bem: a Paz

VIII. Da necessidade da virtude entre os cônjuges

IX. Do amor como um excesso da amizade

X. Do reto desejo pelo excelente

XI. Do manter ou não a amizade caso fracasse o relacionamento

XII. Da revelação da atração pelo contato

XIII. Da possibilidade de não se casar com a posse de tal vocação

 

Livro Terceiro – Da psicologia dos amantes

I. Introdução

II. Do amante autista

III. Do comportamento ciumento

IV. Da infidelidade do amante

V. Do amante leitor

VI. Da psicologia do amante poeta

VII. Da psicologia do amante filósofo

 

Livro Quarto – Do uso da arte pelos amantes

I. Introdução

II. Do critério para a superioridade artística

III. Do qualitativo poético

IV. Do fim poético

V. Das formas para expressar a poesia

VI. Da leitura, dos clássicos e dos autores

VII. Da utilidade da filosofia para o poeta

VIII. Da outra função filosófica e da melhor definição poética

IX. Da verdade entre os contrários

X. Do mito de Eros

XI. Da necessária forma para a poesia

XII. Da melhor forma poética

XIII. Do contato pela arte antes do namoro

XIV. Do resultado da arte

XV. Do contato pela arte durante e depois do namoro

 

Livro Quinto – Questão helênica

I. Introdução

II. Da apresentação do diálogo

III. Diálogo

IV. Da culpa da aflição do amante

V. Da finalidade do belo criado

VI. Da mortificação do amante

VII. Do infeliz efeito do orgulho

VIII. Da causa do amor por uma só beleza

 

Livro Sexto – Do amor divino  

I. Introdução

II. Da presciência e das conseqüências da liberdade

III. Da dignidade humana e da causa última do amor divino

IV. Do Início ao tempo da Salvação

V. Da soberania do Amor sobre a Justiça

VI. Do amor pela humildade de Jesus Cristo



Escrito por Bernardo Veiga às 19h07
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Prefácio

 

 

            Em tudo deve o amor seguir seus meios, e em tudo conduzido e bem guiado. –Mas, muitos, são levados por extremos opostos. Uns se entristecem pela ausência do bem amado. Choram pelos cantos, mostram sinais depressivos e até desejam a perda de si próprios. Outros se alegram exageradamente com o bem alcançado. Acreditam que há um único e verdadeiro amor e nele são conduzidos até o final desse bem ou de si próprios. Seus corações são cegos pelo amor de um bem que passa – ou nem isso! – e neles depositam todas as suas esperanças.

            O presente livro não tem outro fim senão mostrar ao amante a razão de um verdadeiro amor e, com isso, procurar curar as doenças anímicas, muito mais graves que as do corpo. Pois, a principal função é confortar a tristeza dos amantes solitários e alertar os amantes já unidos. 

 

            Embora seja possível defender um amor puro e natural, sem qualquer auxílio da Revelação de Cristo, todo o livro está permeado pela graça a qual são chamados o casal ou os simples enamorados.

           

 

Agradecimento

 

 

 

A Dante Alighieri

 

“(...) O longo amor

que à Esperança votei, e me guiou

até colher do sacrifício a flor,

a vir falar-te aqui me impulsionou”

(Paraíso, XXV, 82-85)



Escrito por Bernardo Veiga às 19h06
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Resumo

 

 

            O ensaio sobre o amor fora dividido em seis livros para a melhor compreensão do tema, sistematizando-o. O primeiro tratará da natureza e o fim pelo qual o reto amor é movido, os seus eventuais contratempos, a hierarquia dos níveis da atração, tanto da ordem crescente como decrescente do amor e do seu contrário: a vileza do amante e a covardia dos admiradores ocultos. Esta é a base de todo o pensamento que será abordado nos outros cinco livros, por isso é necessária uma melhor atenção, devido a sua importância e utilidade para as próximas conclusões.

            O segundo analisará o comportamento dos amantes tanto quando são envolvidos pela arte, pela proximidade da Beleza divina, quanto pela harmonia do amado, pois a compreensão das belezas particulares ficaria comprometida sem o bom entendimento do sumo Belo. Será vista a importância do relacionamento pacífico, da virtude entre os cônjuges, do enaltecimento do amor pela amizade e da forma com a qual é passível a manifestação pelo contato, visto que não há amor humano duradouro sem alguma forma de contato entre os amantes.

            O terceiro investigará casos particulares nos diversos comportamentos habituais dos amantes. Entre eles: o amante autista, ciumento, infiel, leitor, poeta e filósofo. É necessário esse livro para compreender como são aplicadas as regras vistas nos dois livros anteriores. O quarto visa a melhor compreensão do que fora exposto no livro anterior. Desenvolve o tema da melhor forma pela qual é necessária a comunicação do amante para o amado, se for do seu desejo. Estuda a natureza da poesia e a sua finalidade, suas formas, aquela que melhor serve para o fim desejado e o modo prático do seu uso devido. Explica a necessidade do poeta-filósofo e o porquê da sua utilidade. Aborda a beleza dos contrários, o clássico mito de Eros e, sobretudo, como é feita a sua função na arte. E finalmente as conseqüências do uso da arte antes, durante e depois do namoro.

            No quinto é analisado um caso digno de muito estudo e apreço: a questão helênica. No seu início é exposto um diálogo com o uso de outros textos de notórios escritores com um complemento deste autor, para mostrar ao leitor a história (caso a ignore). E, exibir tudo o que envolve as famigeradas discussões acerca da culpa da aflição e da mortificação do amante, da finalidade do belo criado, do orgulho e do amor indevido.

            No sexto e último livro é exposta a natureza do amor de Deus para conosco, isto é, o mais sublime amor que possui como objeto o ser do homem. Por isso torna-se necessário o estudo da dignidade humana e o amor de Deus pela humanidade. Faz-se obrigatório, para a melhor compreensão, um compêndio sobre a história da redenção e o dilema da liberdade humana, a presciência, a bondade e a justiça divina. E depois, finalizando, é exposta a revelação do Amor na humildade de Cristo.



Escrito por Bernardo Veiga às 19h06
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LIVRO PRIMEIRO

Do reto fim do amor

 

 

 

I. Introdução

 

Os amores inebriam a vida por todos os lados e formas, pois de alguma maneira estão ligados com a atração referente ao belo das criaturas e à essência harmônica dos seres. Quando defende o Filósofo na sua Ética que o homem deseja a felicidade (Ética a Nicômaco), na verdade afirma que deseja o amor, pois não há felicidade sem amor como não há verdadeiro amor sem felicidade. Quem se julga feliz e não ama não é feliz por não ser aquilo que pensa ser e quem nega tal felicidade, porém ama, não é feliz por desconhecer aquilo que na verdade é. O primeiro é infeliz por conhecer uma falsa felicidade e é iludido com finalidades que correspondem à natureza do que o ilude. O segundo age naturalmente, buscando a felicidade, põe os meios, porém desconhece o fim do que faz e a definição do que procura, logo fracassa pela ignorância do objeto e pela incompreensão do que o instiga.

Destarte, os capítulos seguintes conterão a definição dos termos e a forma pela qual investigaremos cada futuro juízo para respeitar toda exposição e a harmonia entre os termos. (Aquele, que for objeto do amor, será chamado de amado mesmo que apresente qualitativo feminino.) E, com isso, visar à criação de um amor ou confortar o amante pelo seu sofrimento.

 

 

II. Da natureza do amor

 

Primeiro, todo ser é bom, pois está escrito que Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom (Gen 1,31). E por outras definições de ordem metafísicas sabemos que os transcendentais compreendem o ser e suas “paixões”, a saber: o uno (intrinsecamente uno) – o verdadeiro, o bem, o belo (a beleza é o esplendor de todos os transcedentais reunidos). (Jacques Maritain - problemas fundamentais da filosofia moral) Vamos agora analisar o que mais nos convém: sobre a bondade e a beleza do amor. Como já argumentou o Teólogo: Nenhuma natureza, absolutamente falando, é um mal. Esse nome não se dá senão a privação do bem, e também quando disse que os males não podem existir sem os bens, porque as naturezas em que subsistem, como naturezas, são boas, pois o mal não tem natureza alguma; a perda do ser é que tomou o nome de mal (Cidade de Deus).

Entende-se que o ato de se apaixonar não é um ato que deva ser repudiado somente por si mesmo, o que seria um absurdo se fosse. Vemos pela própria experiência que ele pode ser apetecível, pois o que é bom e belo assim se comportam. Deste modo deixar-se seduzir pela atração não pode levar a alma diretamente para a condenação, porém isso não absolve todas as suas conseqüências. Percebe-se então que uma ação será réproba pelas suas finalidades ou meios, tanto um como o outro, ou mesmo ambos.



Escrito por Bernardo Veiga às 19h06
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III. Da necessidade do amor

e do confuso pensamento do amante

 

            As paixões, primeiramente, não são necessárias para a salvação da alma, muitas vezes passam mais por obstáculos do que por guias, conseguem também serem instrutoras para a desordem, a confusão e a ignorância. Porém, aquele que é assaltado constantemente pelo pensamento do seu amado pode sentir-se alegre e entusiasmado, antes, muitas vezes pelo orgulho projetado na companhia da sua beleza. Parece muito mais um troféu do que um objeto do amor. No entanto, o amante encontra-se perdido numa enxurrada de pensamentos, causando-lhe prazer, já descrito por Dante ao se lembrar de Beatriz:

 

Pensamento gentil, que vos recorda,

Costuma me assaltar constantemente,

E me fala de Amor tão docilmente

Que ele bom grado o coração concorda.

 

Ademais, como é descrito na Vida Nova o Poeta possui algumas alucinações e sonhos que indicavam uma conversa entre si e o suposto Amor, entre si e uma seqüência de devaneios. Logo, mostra que a poesia pode criar desvarios em prol da beleza e de uma falsa contemplação.

            Portanto, o amado cria no amante um sentimento de desprezo próprio, quando não é correspondido. A mente é atormentada por pensamentos que, como diria São Josemaria, no mínimo faz-se perder tempo (Caminho). O problema se agrava com a duração deste tempo perdido, pois em um outro caso, no amor de Petrarca por Laura, o poeta perdera mais de trinta anos na criação da sua arte para agradá-la e, no entanto, após a sua morte se lamenta como o próprio descreve:

 

            De amor passei vinte e um anos ardendo,

            Feliz no fogo e mui ledo na dor;

            E após a alma subir com meu amor

            Ao céu, passei mais dez anos gemendo.

 

            Sinto-me exausto e nesta hora repreendo

            A vida que passei com tanto error.

            E os meus últimos dias vou depor

            Aos pés de Deus a quem ora me rendo,

 

            Arrependido dos mal gastos anos

            A que devera dar bem melhor uso,

            Que assim tivera a paz, sem desenganos.

 

            Tu que me tens num cárcere recluso,

            Livra-me agora dos eternos danos,

            Que eu conheço o meu mal e não o excuso. (pag153)-poemas de amor-

 

 

IV. Do amor ideal

 

Eis aqui o ideal de todo amor, começando com uma passagem do Apóstolo que melhor nos mostra qual seria a magnanimidade deste amor: A caridade é paciente, a

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caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. (1Cor 13, 4-7) Uma vez que o Amor dos amores – a caridade – é aquele no qual todo amor deve se espelhar, deve ser o objeto de qualquer ato por mais pequeno ou aparentemente desprezível. Se vivêssemos da caridade os amores seriam intocáveis, autênticos e sinceros; e isto agrada a Deus, pois como dizia o salmista: Louvarão ao Senhor, aqueles que O buscarem e O encontrarão em cada ação que visa a caridade como guia. Pois, se a maior prova de amor é dar a vida pelos seus amigos (Jo 15,13), sendo o perder a vida o maior sacrifício na terra, a essência do amor consiste na doação, como fica demonstrado quando foi-nos dada toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores que contêm em si mesmas a sua semente (...) e a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus, a tudo o que se arrasta sobre a terra (Gn 1, 29s). Recebemos não por nosso mérito, mas por amor divino. Ademais, a nossa liberdade é uma das maiores demonstrações do seu amor, pois o verdadeiro amor é livre e fidedigno ao seu amante.

Todo amor conjugal deve ter como fim último de todas as ações a salvação das almas. Ora, o que é necessário senão crer e ser batizado (Mc 16, 16)? Ambos precisam ser batizados, católicos e ter posse do conhecimento doutrinal. Se seus fins visarem ao maior Bem – Deus –, logo essa relação será a mais elevada de todas, pois será fundamentada na loucura de Deus que é mais sábia do que os homens (1Cor 2, 25). Por conseguinte o melhor relacionamento que possa haver é o meio para alcançar o excelentíssimo fim que é Deus.

            Qualquer outra relação que não tenha isso como fim se apoiará em juízos humanos, que naturalmente são imperfeitos e findáveis. É certo, que casamento algum dura para sempre, tanto mundano quanto o santo, porque na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres, nem as mulheres, maridos, mas serão como anjos nos céus (Mc 12, 25). Mas, quanto mais afastado se encontra do excelentíssimo fim, mais fácil poder-se-á ser dissolvido. (Porém o matrimônio válido entre os pagãos pode ser abençoado por Deus, se a ignorância dos cônjuges existir por inocência, embora seja dever de cada um procurar incansavelmente a verdade. E, porém, nunca se sabe até onde se esconde a misericórdia divina, os seus juízos e a sua graça.) Basta por aqui esse estudo sobre o verdadeiro amor matrimonial. Veremos agora as outras formas de como pode manifestar essa atração.

 

 

V. Do amor humano

e da atração pelo belo e bom

 

            Entre humanos, homem e mulher (qualquer outra combinação diferente desta não é a vontade divina, por isso o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher; já não são mais que uma só carne (Gn 2, 24). E contrariar a vontade divina é necessariamente um pecado e nesse caso poderia custar a salvação de ambos), que compartilham uma atração da beleza entre eles e da maneira pessoal como agem e se expressam. Esse amor vem de uma união natural, uma vez que o belo os atraiu e algumas ações no outro que os comprazem. Como amor este não é mau, porque possui um fim bom, que é a união natural, porém não é a excelência, visto que esta fora exposta acima.

            Amar o belo e o bom é inerente à natureza humana, pois indubitavelmente sem beleza não há amor como afirma Agáton que o amor da beleza, é evidente, pois que o

Escrito por Bernardo Veiga às 19h06
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que não é belo não fundamenta para o amor (Banquete-Platão). A negação do amor à bondade é um opróbrio aos bens divinos, pois todo o ser naturalmente é apetecível. Não obstante cada bem merece o seu devido amor, pois é justo amar o quanto é devido a cada coisa, embora saibamos como afirma são Bernardo, que a medida para amar a Deus é amá-lo sem medida – a adoração. Por conseguinte essa atração somente humana é válida porque é natural, sendo, como dizia Dante, nature est art Dei (a natureza é a arte de Deus).

            Cada ser humano nasce com o seu talento, que será cobrado de forma devida porque Deus é justo e não injusta é a sua palavra: Dar-se-á ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem, tirar-se-á mesmo aquilo que julga ter (Mt 25 29). Como devemos analisar essa passagem? Bem, a beleza relativa a cada ser possui como causa última a essência divina, logo é um dom, como todas as outras coisas, afora o seu Criador. Como dom deve nos levar para Deus junto com outros numerosos meios para tal, assim fica evidente que a beleza não é má como dizem alguns poetas:

 

Desgraça que de bela me feriste

e

Beleza pavorosa é harmonia,

 

pois tais poetas são mentirosos e o fazem para, por meio de mentiras, alcançar de forma desfiguradamente harmoniosa o que seria o belo.

            Qual será a utilidade desse belo que chamamos de dom? Antes de responder deve-se saber que o belo é um atributo intrínseco do ser, porém na sua manifestação sensitiva é um acidente, logo como acidente, isto é, metafisicamente inferior ao ser que é belo, a sua importância é menor, pois entre os acidentes e a substância, não há dúvida de que a substância é superior. Então, a cada um foi-nos dada a beleza do ser, pois existimos, e a beleza dos nossos acidentes, enquanto existimos. Por conseguinte a beleza que possuímos é dom tanto no ser como nos acidentes que recebeu a forma da alma, mas a que devemos dar maior valor será a que existe somente como efeito espiritual do Criador. Vemos isso de forma clara quando entendemos que muitos daqueles desprovidos de beleza nos acidentes podem estar no céu, por isso não inibe a fé nem o ato do batismo, pois a substância é superior, ontologicamente, aos acidentes. Fica demonstrado que a beleza acidental é indiferente para a salvação, porém há grande diferença quanto à atração.

 

 

VI. Da apresentação da atração

e da sua primeira forma

 

            Após ter esclarecido e definido a natureza do belo, vamos compreender melhor esse segundo caso – um relacionamento puramente humano. Ele comumente é dividido em três partes e cada uma com a sua peculiaridade. Cada parte faz parte de um processo relacionado ao anterior, com exceção ao primeiro, que sendo a mais simples atração, não possui predecessores.

            A primeira forma de atração visa somente a uma satisfação pessoal egoísta. Ela é superficial e é movida unicamente pela beleza da matéria desejada. O outro é visto somente como objeto das suas satisfações e nada deste vale, se não for agradável a quem o deseja. Não costuma durar muito tempo pela própria natureza humana, que anseia coisas mais constantes e duradouras. Não deve ser chamada de amor como disse Cardênio no Dom Quixote que o amor nunca o é; é sim um apetite, que por se não

Escrito por Bernardo Veiga às 19h05
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endereçar senão ao deleite apenas o obtém, logo diminui e acaba. Quando dura muito se entende o tempo de um a dois meses, porém geralmente dura poucas semanas, ou até dias e, às vezes, somente uma noite. Essa atração se dissolve facilmente, então, há duas soluções: ou acaba-se realmente a relação, ou eleva-se à segunda forma.

 

 

VII. Da segunda forma de atração

 

            Nessa parte ambos são enamorados e se encontram no fervor da paixão. Há trocas de olhares que expressam sentimentos realmente fecundos. Inicialmente ocorre as conhecidas reações dos apaixonados: um otimismo sobre todas as coisas e uma admiração por algumas manifestações sensíveis, como descreve Dante sobre Beatriz às mulheres que encontrara:

 

Nos olhos leva minha amada Amor,

Porque se faz gentil o que ela mira;

Toda a gente, ao passar, p´ra ver se vira,

E em quem saúda ao peito dá tremor,

 

Tal que baixando o rosto é só temor

E todo seu defeito então suspira

Ante ela fogem a soberba e a ira.

Mulheres, ajudai-me em seu louvor.

 

Essa atração é muito mais intensa, porque não se preocupa apenas com a beleza (mas, também, a admira), com atitudes que a definam como pessoa. Um jeito de andar, de falar, o sorriso, os pensamentos, o gosto... Encontra no outro fatores que, na primeira forma, eram completamente aquém. Costuma durar muitos meses, anos, alguns resistem a vários anos. Mas um dia tende a findar, porque a natureza é imperfeita e imperfeitos são os atos e imperfeito é o nosso ser. Depois de anos acaba e só há duas soluções: ou acaba-se definitivamente ou eleva-se ao último e terceiro nível.

 

 

VIII. Da terceira forma de atração

e seus eventuais problemas

 

            Esse nível é desejado intimamente pelos pagãos e apóstatas, pois é a forma mais semelhante à caridade, embora não tenha como fim a contemplação divina. O amante deseja tão veemente o amado que a única maneira de amá-lo totalmente é através do seu ser, isto é, a própria essência. Não há outro relacionamento amoroso mais elevado que este, porque não há qualquer outra coisa mais profunda que o ser. As desavenças, quando ocorrem são, antes de toleradas, contempladas, pois são manifestações exteriores do ser. Pensa o amado: O agir segue o ser, logo se pelo ser começa o seu amor, será pelo agir que se revelará. E quando a dor o assalta por qualquer desventura é confortado como dissera Shakespeare:

 

Mas se então penso em ti nesse ínterim

Restauro toda a pena e a dor tem fim.



Escrito por Bernardo Veiga às 19h05
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Nenhum acidente pode ser imperfeito se o ser – subjetivado pelo amante – é aceito como perfeito. O amor age não para repelir os defeitos, ou amenizá-los, pois normalmente não se ama o ser com as imperfeições, porém é amado por causa delas. Acredita-se que tudo já está no próprio ser, tanto as manifestações – seus acidentes – quanto o que as precedem o que faz ser aquilo que é, o ser. Tais relacionamentos duram até quando o amor durar, como na forma primeira e segunda, porém a peculiaridade neste mostra que o amor não tende a acabar. Este amor só poderá acabar por duas vias: caso o amante esgote o conhecimento do ser do amado, o que é impossível, pois segundo são Tomás o homem nunca esgotará a essência de uma mosca, ou quando outro amor maior, isto é, somente a caridade o atrair mais. Para tal força é devida uma proximidade maior com o seu autor e isso só haverá quando houver a separação das criaturas para a suma contemplação: a visão beatífica.

            A sua aparência é tamanha com os efeitos da caridade que o amante sacrifica-se em prol do amado, e a fortuna, os bens e talvez a própria vida é sacrificada por esse objetivo. Nada mais importa se for necessário cair na miséria, perder a honradez, cair no ridículo como descreve Pausânias quando não se considera vergonhoso que os amantes se escravizem voluntariamente a seus amados. O que mais importa é fazer a vontade do amado, porém nessa parte há a grande diferença entre a relação puramente humana e a caridade. Os seus objetos são muito diferentes em definições ontológicas. Na caridade fazer-se escravo da vontade divina é honrar a sua natureza filial, pois assim disse a Nossa Senhora: Eis aqui, a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 37). Contudo fazer-se escravo de outro da mesma natureza com o único fim de amá-lo por amá-lo é correr um risco da alma como fora dito a Dom Quixote: Nunca nesses apurados lances se lembram de encomendar-se a Deus, como qualquer outro cristão; a que se encomendam é às suas damas, com tanta ânsia e devoção, como se o Deus fossem elas; o que para mim cheira o seu tanto a coisas de pagão. Porque todo amor deve antes de qualquer assentimento ou negação, provir do divino, logo se há um intenso amor que seja antes por Deus, ou para dar graças a Deus.

            Cai em pensamentos mil, pelo amado desejando-o, até de maneira cândida ou pueril, mas é absorvido por loucuras sentimentalistas e ilusões sem fundamento algum. Assim, na descrição de Shakespeare conclama esta alma:

 

Mas, se nesse pensar, que me magoa,

De ti me lembro acaso – o meu destino,

Qual cotovia, alvorada entoa

Da negra terra aos longes céu um hino.

 

E na riqueza desse amor que evoco,

Já minha sorte com a dos reis não troco.

 

O amante necessita estar atento para ponderar os seus objetos e dar a cada um o que é devido, dar a Deus o que é de Deus (Mc 12, 17) e ao amado o que é do amado.

O mais harmonioso desta forma está em cativar o outro. No livro do Antoine de Saint-exupéry¸ O Pequeno Príncipe, é onde melhor está explicado este ato. Cativar é, segundo as próprias palavras da raposa, criar laços, e assim continua a sua fala com o pequeno príncipe: Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Será para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo. Ao compreender estas palavras o principezinho fala às

Escrito por Bernardo Veiga às 19h05
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rosas sobre a sua rosa especial que ele a tinha cativado: Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu a tornei amiga. Agora ela é única no mundo (e as rosas ficaram desapontadas). Sois belas, mas vazias – continuou ele. – Não se pode morrer por vós. Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela quem eu reguei. Foi ela quem pus sob a redoma. Foi ela quem abriguei com o pára-vente. Foi nela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi ela quem escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. Já que ela é a minha rosa. Portanto, ao cativar o amado, o amante torna-o especial relativamente a si mesmo.

Caso haja reciprocidade é aconselhável, se for possível moralmente, casar-se pelo sacramento até que a morte os separe, pois, como termina a raposa, Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. A excelência do matrimônio está em cativar o amado e atingir a terceira forma de atração.

 

 

IX. Da forma vil da atração

 

A respeito das boas, neutras e as que beiram às más formas de atração, já fora exposto o suficiente, agora, deve-se esclarecer aquelas que se iniciam por princípios vis ou possuem tais características tanto nos meios quanto nos fins. É uma forma de atração, porém desordenadamente, pois no amor a desordem deturpa qualquer manifestação benigna que aparentemente passa por um bom propósito.

Numerosas são as paixões movidas pela cupidez e pela vaidade. São todas pervertidas até onde for tentada a mente humana, isto é, no precipício que separa a salvação e a perdição; depende unicamente, para a libertação desse pecado, da graça divina aliada a uma alma mortificada, como assim procede às grandes tentações.

O amor que move o amante é a si próprio, nada além de si ou das coisas que lhe pertence – a aparência, a imagem, a honra... – Tem por amor um desejo de ter o outro para si, enquanto as suas paixões mais pérfidas forem saciadas. A beleza do amado é uma medalha que conseguira perante uma belicosa batalha a qual saiu vitorioso. Qualquer opinião é onipotente para a sua última decisão. Pois, o efeito sem a causa não existe, como demonstra o Filósofo no livro do ser, visto que a vaidade move o apreço por si mesmo na opinião alheia. Ademais, nem haveria amor pela própria essência, porque o amor é avesso à natureza do orgulho, portanto diremos que é só atração.

 

 

X. Da vã curiosidade dos admiradores

 

            O tormento vem do orgulho e, no entanto, pensa o amante que é devido à atração. Seu comportamento é depressivo, sem um mínimo de esperança em qualquer coisa que possa parecer frutuosa. Esquece a filiação divina e se agarra nos juízos bisbilhoteiros sobre a aparente causa do seu tormento. Surge logo a aflição, não pelo conhecimento em si, mas pelo meio da aquisição. Geralmente é por meio ilícito, por conseguinte, pecaminoso. A dor da curiosidade vem antes pelo orgulho de conhecer a desgraça realizada, quando for levado pelas vãs curiosidades, do que por um sofrimento de um suposto amor.



Escrito por Bernardo Veiga às 19h05
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XI. Da covardia dos admiradores ocultos

e da defesa contra um falso amor arquétipo

 

            Segue-se assim, que tudo quanto gira doloroso ao amante é obra do maligno através da soberba, revelada pelo orgulho. Há entre esses casos um caso peculiar, muito usado pelos ditos admiradores ocultos. Estes são os que temem a sua imagem, se escondem pela dignidade de bons literatos, dominantes da alta escrita e, não obstante, caem na vaidade. São atormentados pela mesma, porque nunca revelam as suas verdadeiras faces; mas se assim não procedem, eis um mérito, pequenino, porém há, como de quem fere voluntariamente outrem e clama por ajuda.

            Eis o pior de todos os admiradores, quem finge amar um único ser, com juras de amor eterno, desejo cândido, ardor sincero... Porém esconde seu orgulho na covardia, menospreza todas as outras possibilidades amorosas em prol de uma, mas na verdade diz amar secretamente esta, a fim de nunca se revelar para nenhuma. Não confessa o amor à primeira por julgar que o devaneio platônico merece a contemplação da forma que é e, também, no entanto, ignora as outras por falsa fidelidade a essa atração em que se resguarda de toda a opinião e insulto. Pois, como já fora dito, não pode haver os acidentes sem a substância, logo ocultar-se o priva de qualquer qualidade ou relação atribuída por outrem. A solução deste caso é aparentemente simples. Ora, se o problema consiste no ato de ocultar-se, que seja descoberto o oculto e, não mais se esconda na poesia ou outro tipo de arte, visto que o mestre dos sonetos – Camões – assim nô-lo afirma:

 

Nunca em amor danou atrevimento;

Favorece a Fortuna a ousadia

Porque sempre a encolhida covardia

De pedra serve ao livre pensamento.

 

Quem se eleva ao sublime Firmamento,

A estrela nele encontra que lhe é guia;

Que o bem que encerra em si a fantasia

São umas ilusões que leva o vento.

 

Abrir-se devem passos à ventura;

Sem si próprio ninguém será ditoso;

Os princípios somente a sorte os move.

 

Atrever-se é valor e não loucura;

Perderá por covarde o venturoso

Que vos vê, se os temores não remove.

 

Se o argumento de quem fia-se na arte for a procura do amor arquétipo, fora exposto o contra-argumento neste soneto. Não obstante, poderia alguém usar da própria poesia para a sua apologia, dizendo que a dor do platonismo é parte inerente ao amor. E, o ato de contemplá-la intensifica com o pranto do saudosismo, levando a um desespero amoroso como nestes quartetos shakespearianos:

 

Quando às sessões do mudo pensamento

Convoco as remembranças do passado,

Sentindo a ausência do que amei lamento



Escrito por Bernardo Veiga às 19h04
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Com velhos ais, de novo, o tempo amado

 

E, avesso ao pranto, os olhos meus inundo

Por amigos que esconde a noite avara:

Penas de amor que já paguei refundo;

Choro o perder de tanta imagem cara.

 

E me infligindo uma aflição sofrida

De pesar em pesar repeso agora

O balanço da dor adormecida

Como se o saldo não saldado fora.

 

Este parece ser um bom argumento humanamente falando, porém não fomos criados para a realidade humana, pois, segundo o Teólogo: Fizestes, Senhor, para ti e o nosso coração vive inquieto enquanto não descansar em ti. A inquietude é fruto de um amor não reto e gerado pela confusão entre o objeto divino e humano. E, dessas duas realidades no In Canticum sermones são Bernardo dizia que só há uma realidade complexa, em que se funde o elemento divino e humano. Nada além da realidade humana não é visto por Deus e nela tão-só ama-se e amargura-se pela tentação do orgulho.          

Portanto é necessário saber que a admiração oculta não é boa pelas suas conseqüências: acovarda o amante, cria uma fuga da realidade – tanto humana quanto divina –, aumenta a passionalidade e corrói a fé, quando é levado pelo tormento que, como fora visto, é nocivo à nossa natureza.

 

 

XII. Da primeira forma de atração

da substância para os acidentes

 

            Analisaremos agora o processo inverso da atração vista anteriormente, o processo iniciado pelos acidentes com o término na substância. Iremos da substância para os acidentes, respeitando uma ordem decrescente que tende para a ausência total do amor.

            A primeira forma está muitas vezes ligada a um estado que comumente é chamado de amor à primeira vista. Um amante e fiel ao amor humano poderia repetir o canto primeiro da Divina Comédia, alterando a parte dolorosa da alma contra a caridade pela solidão e o desespero que sente os amantes nessa primeira forma:

 

A meio do caminho desta vida

Achei-me a errar por uma selva escura,

Longe da boa via, então perdida.

 

Ah! Mostrar qual a vi é empresa dura,

essa selva selvagem, densa e forte

Que ao relembrá-la a mente se tortura!

 

Ela era amarga, quase como a morte!

Para falar do bem que ali achei,

De outras coisas direi, de vária sorte,



Escrito por Bernardo Veiga às 19h04
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Que se passaram. Como entrei, não sei;

Era cheio de sono aquele instante

Em que da estrada real me desviei.

 

Assim se encontra a alma na plena ânsia de uma companhia, por uma espécie de carência sentimental. Inebriada da dor humana sente que somente um amor visível e criado, saciará a sua fome. Logo quem ela vê e possui uns mínimos atributos acidentais, ama-a por todo o seu ser, porque quem se manteve na infelicidade contenta-se com qualquer mínima ditosa sorte. Quem nasceu em grande ou média luz possui uma tendência a não se vislumbrar com qualquer outra luz, nova ou não. A recíproca se comporta exatamente ao contrário, pois quem nasceu na escuridão tender-se-á a tomar espanto por qualquer raio de luz, por menor que se apresente. A solidão fará com que o poeta crie seres divinizados, musas, perfeições que se personificam humanas. Como várias vezes é descrita Beatriz nas canções dantescas:

 

Só Piedade defende nossa parte,

Que fala Deus, pensando em minha amada

Diletos meus, sofrei agora em paz

Que o vosso enleio esteja, como quero

Onde alguém, vive que perdê-la teme

E que dirá no inferno: ‘Oh mal nascidos,

Eu vi a esperança dos aventurados’

 

(...) Dela pergunta o Amor: Coisa mortal

Como pode ser tão ornada e pura?

 

A musa se apresenta tão perfeita, não porque seja, mas somente pela solidão do poeta que chama de ouro o que verdadeiramente é cobre. Assim segundo diz Machiavelli: Os fantasmas assustam mais de longe que de perto. A intensidade das paixões é forjada de acordo com a distância. A proximidade inibe o amor arquétipo e todas as fantasias. Portanto esse primeiro grau – o que ama a essência – ama na realidade uma falsa essência, uma miraculosa e fantástica, desprovida de qualquer indício da natureza devida ao ser de um humano.

 

 

XIII. Desta segunda forma de atração

 

            Depois de analisar-mos essa forma veremos que há uma relação com a do admirador oculto. Os processos são os mesmos e também se assemelham os contratempos. Não obstante, no caso do admirador oculto não há uma vontade de expor a sua imagem perante o amado, pois se o fizesse já não seria mais oculto e o seu amor assumiria uma nova natureza.

            No caso que vimos anteriormente há uma preocupação por parte do amante de conhecer o amado. Este saber seria um bem necessário para uma amizade. (Perceba que aqui há uma coragem, o que aumenta um pouco a dignidade da ação). A amizade ou o início desta mostrará conhecimentos que negarão toda aquela construção harmoniosa e previamente criada para satisfazer a utopia do amante. Do que parecia totalmente atualizado, agora se vê potências em várias partes, o que era um anjo, passou a ser humano – igual a muitos outros. No entanto, aquele amor pela substância era tão forte que os acidentes são ainda amados. Encontram-se gestos, olhares, e outras formas como

Escrito por Bernardo Veiga às 19h04
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a matéria se mostra e tudo isso mantém o que pode ser chamado: Amor intersubstancial e material. Não se sabe se ele está dentro da matéria ou fora desta, pois ainda conserva características do amor à essência.

 

 

XIV. Dessa terceira e última forma de atração

 

            A terceira e última forma é o amor somente pela matéria e nada mais. É necessário as duas formas anteriores, pois não deve ser confundida com a primeira forma de atração – dos acidentes para a substância.

            Esta elimina qualquer semelhança de possuir um efeito bom. O amante já não ama o amado, tudo não mais vale a pena, cai-se em decepção profunda sobre a própria vida, mas, sobretudo, acerca do amor. (O que digo por desilusões do amor deve ser entendido como aquilo que faz do amante um não-amante, chegando até extremos distorcidos pelo seu orgulho). Camões ver-se-á indignado contra estes que, pelo desgraçado fado, insultam o Amor: 

 

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,

Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,

Sem falta lhe terá bem merecido

Que lhe seja cruel, ou rigoroso.

 

            O que antes era uma filha de Mnemósine que se passaria por Cho em Homero, por Tália e Unânia em Sófocles e Shakespeare, por Terpsícore em Bach... Na verdade, nem ao menos respeitava a dignidade humana. O anjo fez-se caído e nada mais de celeste lhe pertence. Nesta forma particular a dor é máxima, dentro do que pode sofrer uma alma pelas desilusões do amor humano. Amar a substância por completo é amar o belo, o bom, o uno e o verdadeiro. Quando se ama o ser não há motivo para sofrer desagravo, porque não há o que sentir senão o que foi dito acima. Ora, ninguém que ama a bondade sente-se infeliz e igualmente para a verdade, a beleza e a unidade. Portanto quem se sente infeliz é devido unicamente à matéria, porém nela também há potências apetecíveis. Digo isto para justificar que amar quem não compartilha com os mesmos gostos e ações é um ato difícil. Pois os opostos só se atraem caso possuam objetivos comuns, não se tornando tão contraditórios, embora sendo um homem e uma mulher, ambos representam a mesma natureza.

Deve-se compreender que o amante desperta um grande ódio provindo do seu amor. O amor torna-se ódio por conveniência da sua fraca vontade. Assim dizemos que só houve tal desgraça, porque venerar uma deusa é tão fácil quanto odiar um pagão, ainda que ambos sejam pecados graves, não deixam de manter as suas naturais disposições para serem praticadas. Em casos gerais não resta mais a estudar, segundo o que nos convém. Fora exposto somente o necessário quanto ao relacionamento entre um casal e as paixões de cada caso.



Escrito por Bernardo Veiga às 19h04
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LIVRO SEGUNDO

Do comportamento dos amantes

 

 

 

I. Introdução

 

            Veremos, agora, como deve se comportar os amantes entre si. O que precisa prevalecer é o amor, porque quando nada pode ser desejado, o desejo desaparece, pois as paixões não podem sobreviver ao desaparecimento dos seus objetos. Sabemos que por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade (o amor) – as três. Porém, a maior delas é a caridade (o amor) (1Cor 13, 13). Portanto o amor é necessário antes de qualquer relacionamento, ou, do contrário será amizade e amizade alguma os torna enamorados se não houver amor.

            No platonismo vemos que o amor é a visão do belo excitada pela paixão. A beleza move o amor como a causa ao efeito. Ora, se procuramos o amor, antes de tudo devemos procurar a beleza, sendo, pois, necessário encontrar primeiro o livro e depois a leitura. Mas o que então é a beleza? A beleza é objetivamente um dos atributos do ser, porém a nós isso de nada é útil, visto que somos incapazes de compreender as coisas pelas próprias essências. Nós trazemos – cogn-cere – pelos seus acidentes, segundo os nossos sentidos. Para analisar a beleza devemos estudá-la nas suas manifestações acidentais.

            A beleza dos acidentes é objetivamente uma harmonia da matéria, enquanto subjetivamente varia pela educação, tendências e disposições naturais. O que é belo a um, pode não ser belo a outro subjetivamente, embora por existir tudo é intrinsecamente belo. O amante é movido pelo amor e este pelo belo e este pelo motor de todas as coisas, Deus. Logo, todo amor deve existir em unidade com a vontade divina, para crescer em beleza.

           

 

II. Da beleza dos amantes

pelo ornamento natural

 

Os amantes devem ser belos, porém nem todos os amantes exibem uma clara beleza, o que mostra que cada um necessitará de ornamentos que exaltem as suas belezas. Não obstante é perigoso tornar-se belo e cair na vaidade ou despertar a libido alheia, é preciso ponderar essas ações para não corromper o que é agradável a Deus. Ornar-se é necessário para uma durabilidade do relacionamento.

 

 

III. Da beleza dos amantes

pela arte

 

Mas, e quem for desprovido de beleza? Ou aqueles que pelos anos perdem esta harmonia como afirmam esses quartetos shakespearianos:

 

Quando no assédio de quarenta invernos



Escrito por Bernardo Veiga às 19h04
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Se cavarem as linhas de teu rosto,

Da juventude os galões supernos

Pobres andrajos se tiverem posto,

 

Se então te perguntarem pelo fausto

De teus dias de glória e de beleza,

Dizer que tudo jaz no olhar exausto,

Opróbrio fora, encômio sem grandeza.

 

Nesses casos é preciso retirar de outro lugar essa beleza e de onde provir será superior ou inferior à beleza que vimos anteriormente. Procura-se na arte e nela veremos o que procuramos, o que possibilita alguma forma de amor, não pelo belo do amado, mas pelo da arte. Por desvio da atração simples, que é devido a uma perturbação dos nossos sentidos, melhorando a alma em pequenas partes inferiores, na concepção mais imperfeita se em relação ao belo do amado, encontramos a arte. Como dissera Platão na República acerca do poeta e da arte que revelam e alimentam este elemento inferior de nossa alma e, corroborando-o, arruína o elemento capaz de racionar. Amar pela arte não é raro, porém como já fora dito, ninguém pode ser essencialmente desarmonioso ou exultante em fealdade, mesmo que assim se pareça sua matéria sem unidade na diversidade.

Criam-se as fantasias de um amor endeusado, sem fugir da sua própria natureza, quando de infindas maneiras dizem:

 

Amor é brando, é doce e é piedoso.

Ou que

... é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;

 

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

 

É para retratar com arte o que há de divino e misterioso no amor. Ora, o que mais pode atrair senão o que é relativo à divindade, embora se saiba que do humano nada além de imperfeito será criado afora em Cristo, que é Deus.

            Os meios da arte poderão ser vis, pela mentira e outros artifícios, como disse Lísias no seu discurso: quem ama louvará sempre as tuas palavras e teus atos sem se preocupar com a verdade e com o bem, de medo de te perder ou pela simples cegueira que é própria da paixão. O amor vive pela beleza como o justificado pela fé (Rm 3,28). A arte tentará enganar o amor pondo o seu belo à vista, contudo este é artificial – da arte – e o do amado natural – da natureza. O natural sempre será superior por mais harmonioso que pareça o primeiro, pois fora o segundo criado por Deus e aquele pelos homens, e nunca a criatura alcançará o Criador na sua criação, ontologicamente.

 

 

IV. Da beleza dos amantes

pela Beleza



Escrito por Bernardo Veiga às 19h04
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O contentamento com a beleza natural e/ou a artificial é para muitos, mas nem todos, visto que a causa das pessoas serem artistas não são as suas deformidades na matéria e a recíproca, outrossim, é verdadeira.

            Caso não for vocação de tais a religiosidade existem duas soluções: Ou manter-se solteiro como o Apóstolo aconselha: Penso que seria bom homem algum tocar mulher alguma. (...) Pois quereria que todos fossem como eu (1Cor 7, 1.7); Ou procurar no cônjuge um espelho da luz divina, amar não pelo belo dos homens, tanto natural quanto artificial, mas pela suma Beleza e na esperança de contemplá-la. Tudo não passará de uma via-sacra em que Deus será o fim último, devido às mortificações e penitências, pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê (1Jo 4,20)?! Não obstante há alguns empecilhos para esta segunda. Primeiro; ela deverá ser realizada somente para conter o perigo da incontinência, como fala o Apóstolo aos coríntios; caso, pela graça divina, não for necessário esse matrimônio, que permaneça solteiro como assim nasceu e passará ao estado dos novíssimos, mas cada um tem de Deus um dom particular: uns este, outros aquele, portanto se não podem guardar a continência casem-se. É melhor casar do que abrasar-se (1Cor 7, 7.9).

            Deve-se entender que esta solução deverá ser usada só nesses casos extremos em que não haveria beleza, ou caso houvesse pouca por parte dos cônjuges e eles, sem serem artistas – sem aptidão para nenhuma arte –, precisassem manter a castidade para salvar as suas almas.  

            Destarte, é mais nobre absolutamente o caminho próprio de Cristo, a condição celibatária, por isso que comentam os discípulos: ‘Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!’ (Mt 19, 10) A seguir confirma Jesus: Respondeu ele: ‘Nem todos são capazes de compreender o sentido desta palavra, mas somente aqueles a quem foi dado. Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor ao reino dos céus.’ (Mt 19, 11s) Na verdade aqueles que o paganismo considera como infelizes e fracassados amorosamente, na verdade são os que desfrutam diretamente do amor divino, passando por caminhos mais excelentes, correspondendo às suas respectivas vocações.

 

 

V. Do reto trato entre os amantes

 

            Como deve ser o trato entre os amantes? Dante descrevia o amor como a gentileza quando dizia:

 

Porque a morte vilã, causando horror

Pôs em peito gentil seu trabalho,

ou

Tu deves, doravante ser gentil,

Pois que tu minha amada possuíste,

ou

Tão honesta e gentil, ao nos saudar,

ou

E é nos seus atos todos tão gentil

ou

Convoco, gentis damas, de bom grado,



Escrito por Bernardo Veiga às 19h03
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Falar não quero a outrem

Senão a coração gentil de dama...

 

A gentileza assemelha-se muito à caridade, o que nos mostra que o poeta não foge da verdade quando diz que o amor é gentil ou que assim procede quem o está possesso. Entende-se que a gentileza é a transposição do objeto da caridade – Deus – para um humano – o amado. Como aconselha o apóstolo aos maridos, embora a gentileza seja dever de ambos os cônjuges: Maridos, amais as vossas mulheres e não as trateis com aspereza (Ef 5, 25). Ora, poderíamos dizer que a aspereza é o contrário da gentileza, como o grave é do agudo e o feio do belo, portanto, se não se deve tratar com aspereza, deve-se tratar com a gentileza devida ao outro. (Porém deve-se tomar cuidado, pois a gentileza exagerada poderia resultar na negação do compromisso da caridade, amando mais a criatura do que o Criador).

            O que consiste o ato de ser gentil? Ser gentil é agir com gentileza, porque o agir segue o ser. Então, deve-se esquecer de si próprio, pois assim é devido, elevar-se na humildade com atos justos, conhecer o amado com sutileza, desejar todos os bens – inclusive a salvação – e espelhar-se em Deus na bondade e fidelidade.

 

 

VI. Do desejo do amante

da proximidade de Deus ao amado

 

            Deve-se orientar o amado para o plano divino, porque o bem mais importante é a salvação e quem assim não pensasse seria néscio ou egoísta. Se agir como tal, precisa de ajuda de um diretor espiritual, para que o oriente e retifique as suas intenções. Se a ignorância pesar, deve ser remediada com a sabedoria de livros indicados por bons conselheiros, mormente o diretor. Se o egoísmo pesar será devido a uma eventual ignorância – sabedoria sem virtude não é sabedoria, como dizia Sócrates – ou uma falta da disposição da vontade. Precisará que seja feita oração pela alma se for este o seu problema – nos casos de vontade somente a graça divina pode resolver.

            Desejar a proximidade de Deus no amado é ponderar todas as forças para evitar que peque mortalmente. Primeiramente, deve-se evitar atos que possam condenar a ambos, ou que precise destes para serem condenados, como a luxúria ou ir contra a castidade (Lembrando que é possível viver a castidade tanto fora como dentro do matrimônio; fora: total abstenção do ato sexual ou ações derivadas que excitem outrem; e dentro: no comedimento necessário, sem uma visão hedonista, mas de amor recíproco). Depois se deve certificar que não há descaso com os três primeiros mandamentos: Amar a deus sobre todas as coisas, Não tomar seu santo nome em vão, Guardar domingos e dias santos de preceito. São os que ofendem a Deus diretamente. Particularmente, em seguida deve-se observar o sexto – como fora exposto – e o quarto, porque se não são mais que uma só carne, logo possuem a mesma origem, devendo amar os pais dos cônjuges como se fossem seus. Após isso, observar os outros que não foram ditos aqui por não serem imprescindíveis para o nosso estudo.

 

 

VII. Do imprescindível bem: a Paz

 

            Como definiu Dante, que o Bem – à sociedade – mais precioso é o de viver em paz, devemos entender que a família é uma sociedade na medida em que participa de uma maior – a do Estado –, quando defende com dignidade a própria hierarquia

Escrito por Bernardo Veiga às 19h03
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familiar. Da mesma forma que fora exposto no livro Da monarquia, irei usar dos seus argumentos para a aplicação direta à família e transcrever uma parte do seu texto. Antes de tudo devemos entender que a paz é um profundo desejo de Deus e de todos aqueles que profetizam em seu nome. Por isso, o que as vozes celestes anunciaram aos pastores não foi nem riqueza, nem prazeres, nem honras, nem uma longa vida, nem a saúde, nem a força, nem a beleza, mas a paz. A milícia celeste canta: ‘Glória a Deus nas alturas e paz aos homens de boa vontade’. Eis ainda a razão pela qual o salvador dos homens saudava com estas palavras: ‘Que a paz esteja convosco’. Era conveniente, como efeito, que o soberano Salvador exprimisse a soberana saudação. Seus discípulos quiseram conservar o mesmo uso e, todos podem verificar, Paulo também saudava assim nas epístolas. Parece já o bastante, para compreender que a paz, além de ser necessária, deverá ser o sustentáculo de uma família, como se a própria essência fosse aviltada, caso a paz fosse sobrepujada.

            Mas qual é a finalidade da paz? Entende-se que a paz não deve ser um fim em si mesma, um bem honesto. Na verdade poderá ser, porém não estamos procurando a extrema perfeição das imperfeições humanas, contudo veemente queremos o bem mais perfeito para todos, como disse o Redentor: Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus (Mc 5, 9). Ser filho de Deus é dar a dignidade máxima à natureza sem adquirir mérito algum, porém, tão-somente é devido à essência divina – causa última da existência da nossa essência.

            O que se entende por paz? É importante definir os termos para não cair no problema de linguagem citado por Wittgenstein nas Investigações filosóficas, pois senão iremos reconduzir as palavras do seu emprego metafísico de volta ao seu emprego cotidiano. Paz não quer dizer a ausência de lutas, mas a finalidade de toda luta justa. Corresponde ao período de uma concórdia em que todos precisam visar como fim último ao mesmo bem e estabelecer os meios possíveis e justos. Isso não quer dizer que todas as guerras sejam más, pois Israel fora abençoado por Deus quando vencera Jericó, Jerusalém, Hebron, Laquis, Eglon, Gaser, Dabir... O que é consentido por Deus não deve ser tido como um mal e não passível de análise. As guerras são necessárias quando afetam o bem maior – Deus – e quando, por razão que desconhecemos, incitar Deus por motivos sobrenaturais.

            Toda família deve ser pacífica justamente por causa da vontade divina. Como foi dito no sermão da montanha, a virtude do indivíduo deve ser passada para a sociedade ou a família na medida em que são representadas por estes. A paz deve ser guiada pela caridade, sabendo que a correção fraterna poderá evitar muitas futuras desavenças. Para agraciar um amado iracundo é necessária tão-só tal correção com amabilidade, pois como já dizia são João da Cruz: Onde não há amor, plante amor e colherá amor.

            Assim, fora dito na encíclica de João XXIII Pacem in terris: a paz é a ordem fundada na verdade, construída segundo a justiça, alimentada e consumada na caridade, realizada sob os auspícios da liberdade. Portanto, As discussões entre os cônjuges não devem ter por fim a si mesmas, mas, respeitosamente, a busca da verdade. Esta é uma espécie de belo, sendo a beleza a forma sensível em que se manifesta a verdade, quanto mais conhecimento da verdade, mais haverá atração entre eles. A verdade que digo é o conhecimento de cunho filosófico, que aumentará na beleza, uma vez que devemos ser sábios na proporção em que podemos. Quando, outrossim, cito a verdade é por justamente ser necessária, pois quando nos disse que é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6) foi para compreendermos que só pela verdade que alcançaremos o Bem supremo. Ninguém chega a tal se não passar pelo caminho, porque quem deseja os fins sem os meios deseja uma utopia. Portanto é pela verdade, pela vida em Jesus Cristo que encontraremos o caminho para esse Bem. Por conseguinte a paz é

Escrito por Bernardo Veiga às 19h03
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necessária para concretizar o que é preciso para o crescimento dos cônjuges. Fará com que se aproximem mais do Bem e com isso precisarão dos meios e recorrerão ao caminho, tornando um ciclo vicioso arraigado no fim último, a salvação das almas e o amor a Deus.

 

 

VIII. Da necessidade da virtude entre os cônjuges

 

            Os opostos naturalmente tendem a moldar a personalidade para o seu contrário. Isso será melhor representado se entendêssemos o caráter ou a condição de virtude como um pêndulo. Do lado esquerdo e direito será indicado pela escassez ou exacerbação de uma atitude. O meio será a ação direcionada para o seu objeto oportuno, para a finalidade de um bem, como corrobora o Filósofo na Ética: Por exemplo, pode-se sentir tanto medo, a confiança, o apetite, a cólera, a compaixão, e de uma forma geral o prazer e o sofrimento, em excesso ou em grau insuficiente; e em ambos os casos; isso é um mal. Mas senti-los no momento certo, em relação aos objetos e às pessoas certas, e pelo motivo e de maneira certa, nisso consistem o meio-termo e a excelência característica de virtude.

            O virtuoso possui uma capacidade de aproximar o vício de outrem à virtude, porque visa a um bem e o que é bem é desejoso. Percebe-se isso quando se nota as duas maneiras para crescer no desejo da virtude. A primeira é uma aversão ao vício pela nossa natureza que, segundo o Teólogo, tem, como ser, seu modo, espécie e certa paz própria e, por isso é boa. A segunda maneira é uma força que nos induz a procurar o bem relativo às coisas, enquanto criaturas, para alcançarmos o sumo Bem, desejo destes. Logo se deseja a virtude por uma aversão ao mal ou por uma indução ao bem.

            O virtuoso para um viciado parecerá vicioso, como o vicioso parecerá – e será – para o virtuoso, mas deve-se entender que a virtude é a excelência, logo devemos considerar o parecer do virtuoso o verdadeiro. Assim, entre um vicioso e um virtuoso sempre haverá contrários. Agora, exposto isso, precisamos examinar se é necessário buscar a virtude para os cônjuges ou se é útil.

            Dentre os viciosos de mesma escassez ou exacerbação o tratamento entre eles será volúvel e determinado pelas vicissitudes de seus vícios. Ficando evidente que os viciosos tendem à inconstância, não pela natureza que possuem, mas pela vontade que opta dos defeitos neles próprios. Se houver um casal nestes termos, poderá haver um relacionamento, porém irá findar caso não apareça um ajuda extrínseca às suas vontades para resgatá-las da eminência de terminar relacionamento. Entre um viciado pela escassez e outro pela exacerbação poderá haver um grande afeto entre eles caso haja um complemento entre o caráter. Pois, na medida em que convivem um com o outro as suas personalidades se alteram em alguns pormenores, porém não totalmente, o que mostra que ambos com as próprias forças não conseguirão possuir a virtude. E só há uma fuga do próprio vício devido ao reconhecimento de que é um mal. Por assim se apresentar, deverá ser extirpado, não por desejar o bem de ser virtuoso, mas por não desejar o ser de viciado. (Ignoramos, aqui,  a possibilidade da intervenção pela graça divina.)

            Quem é plenamente virtuoso, dentro das restrições humanas, tende a manter-se na virtude, pois a inconstância é um vício e não será encontrado em tal pessoa. Se um dos cônjuges for virtuoso e o outro vicioso,            quem for vicioso tenderá a tornar-se virtuoso, porque esse será pelo bem e pela aversão ao mal do seu vício. O contrário não será verdadeiro pelo que fora exposto acima. Portanto haverá harmonia, porque o virtuoso, sobretudo é prudente, o que nos faz imagem à divindade. Logo, quanto mais virtuosos forem os cônjuges, mais à imagem divina se parecerão, sendo um bem

Escrito por Bernardo Veiga às 19h03
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imutável, o relacionamento durará até quando perdurar o que o faz durar, a virtude. Assim para a boa ordem e a excelência de um relacionamento, é necessária a virtude entre os cônjuges.

 

 

IX. Do amor como um excesso da amizade

 

            Como devem agir os amantes quando o amor, segundo o Filósofo, se baseia no excesso de uma amizade precedente? Bem, qualquer amor que não tem por fim ou meio alguma desordem – o pecado – deve ser tido como bom, logo o que não for um mal deve ser desejado porque é um bem, sendo este – defendido por aquele, no princípio da Ética – aquilo pelo qual as coisas tendem.

            Devemos definir o que é amizade para compreender o que seria o seu excesso e como deveriam agir os amantes. A amizade é uma espécie de amor para com um amigo, pois não consideraremos a nomeada amizade de utilidade, embora seja abordada na Ética a Nicômaco. Se participa dos atributos do amor, portanto não há porque justificar a possibilidade de existir ou de não ser excesso deste. Mas entenda que não necessariamente o excesso é algo ruim, apenas é, quando provocar alguma desordem ou aflição. O excesso tornará ruim relativamente ao objeto. O excesso de um mal é um mal e o excesso de um bem, se não provocar um mal é um bem. Entenda que nunca haverá excesso para o amor se houver ordem e uma convergência deste para o objeto de Deus, pois não há excesso em dar glória a Deus ou amar ordenadamente, como dizia santo Agostinho que a virtude consiste na ordem do amor. O excesso de agir bem é a bondade e o de agir devido é a justiça, logo se dissermos que tais excessos são males, diremos que Deus é um mal, uma vez que é a Bondade e a Justiça, o que evidentemente é um absurdo. Portanto nem todo excesso é um mal.

            Entenderemos que se o excesso de amizade origina um amor, isto é, um bem, esse só será um bem se o meio para alcançar o segundo corresponder a um bem. Se, e somente se, ambos, meio e fim, se apresentarem como bem, logo o excesso da amizade será algo digno de ser desejado se visar o amor citado.

            Se falamos do excesso de algo, antes deve-se considerar que já houvera um princípio que não fora excesso e neste não haveria esse amor. Precisamos entender como é devido comportar os amantes para iniciar a amizade com a finalidade de tê-la em excesso. Primeiro: estabelecer alguma forma de contado que faça percebível a existência. Considere nessa primeira parte que seja necessária a perda do orgulho e o ganho da intrepidez, o que afasta cada vez mais esse tipo de amor com aquele acerca da admiração oculta, arraigado no acanhamento e na vaidade. Segundo: adquirir um mínimo de conhecimento para o qual o outro se interesse, se dedique ou se apraza. Deve, pois, lembrar em outros encontros amigáveis alguns detalhes – não todos – ditos ou comentados em momentos precedentes. Um verdadeiro amigo gosta não necessariamente do objeto que faz o despertar atrativo do outro, porém gosta do que move o desejo, a procura, a alegria se houver boas potencialidades para tal ser algo apetecível como um bem. Terceiro e por último: Desejá-lo bem como se dependesse a salvação de ambos – como realmente é. Deve mostrá-lo os bens, pois o bem tende a divergir, todavia não há bem maior e precioso a todos que o bem em excelência, a própria divindade. Pela Tradição é chamado mais comumente de apostolado, isto é, a expansão do sumo Bem por meio humano e de ordem sobrenatural, porque em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; todos fomos impregnados do mesmo Espírito (1Cor 12, 13). Quem nega a vocação de apóstolo, se fora batizado, nega o fim de toda a natureza: imitar a

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divindade de Cristo, para dizer verdadeiramente que vivo autem, iam non ego, vivit vero in me Christus.

            Eis o que é devido a toda amizade: Contado, conhecimento e o desejo do bem. Contato para ganhar intimidade; conhecimento, resultando desta, a fim de aumentá-la, para ganhar confiança suficiente e, então, fazê-la uso para o apostolado – desejo inato de todas as almas. Se entre os três houver aquele que se destaque em necessidade, deverá entender-se que dentre os outros é o mais importante. Ora, o que há de mais importante do que o apostolado e a salvação das almas? Portanto o que não for meio para tal fim deve ser desprezado e tido como vil. A intimidade deverá existir para enraizar o apostolado e zelar pela salvação do outro, e nada mais. Portanto uma amizade sem apostolado seria uma amizade de utilidade na qual sobrevivesse com o comércio de consolações, experiências e dores, manipulado egocentricamente pela razão de receber o que o paganismo mais anseia: alegrias para as suas depressões constantes. Por conseguinte se desejarmos a amizade em excelência, logo deveremos desejar os meios, sendo o mais nobre dentre eles o apostolado.

 

 

X. Do reto desejo pelo excelente

 

            Do excesso de uma amizade fútil haverá um relacionamento fútil, do excesso de uma amizade excelente um relacionamento excelente. Não será justificado o porquê de devermos desejar o excelente ou melhor, porque a própria discussão não carece de demonstrações. Antes, discutirei o porquê do excelente ser o melhor e, sendo, como deve ser apetecido. Diz-se de excelente aquilo que é muitíssimo bom. Ora, após a Criação, a queda dos anjos e da humanidade, já houvera uma hierarquização do que era bom. Pois, antes só Deus era bom e não houvera nada para efeito de comparação, visto quando diz no princípio, Deus criou os céus e a terra, quer dizer que antes desse princípio só houvera Deus, sendo o princípio imutável e atemporal.

            Se podemos dizer que há uma hierarquização do que é bom e que o boníssimo seria Deus, quanto melhor for, isto é, crescer em bondade, logo se assemelhará com a pessoa divina, fazendo do que é muito bom – excelente – dever ser apetecido. Tudo o que é bom deve ser apetecido, pois Deus é a Bondade, o que justifica a sua misericórdia na pessoa do Verbo, Nosso Senhor Jesus Cristo. Desejar o que é bom só é devido por Deus, uma vez que é em Deus o fim último de todo desejo da bondade consciente ou inconscientemente.

            A medida para desejar o que é bom pode ser tida como em excesso, como dizia Cervantes que o bom nunca é demasiado, pois a bondade induz a virtude e cada uma desta induz a uma outra. Para desejar o que é bom deve ser virtuoso, porém para tal deve antes desejar a virtude, isto é, algo realmente bom. Chamaríamos de um ciclo em que na procura da bondade precisa-se da virtude e nesta necessita-se da bondade para a indução.

            Portanto deve-se desejar o que é excelente porque é bom e esse é naturalmente apetecível pela Bondade divina. Para isso é preciso ser virtuoso, pois ninguém que procure o que é bom possa fazê-lo sem a virtude.

 

 

XI. De manter ou não a amizade

caso fracasse o relacionamento



Escrito por Bernardo Veiga às 19h02
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A amizade só deverá existir como meio para seguir o que propomos, porém se se manter como fim, não será necessário para as nossas investigações, logo não deverá ser estudada.

            Como meio, a usaremos de modo exclusivamente pragmático, pois a sua inutilidade não nos servirá, nem de forma deleitável ou até mesmo honesta. Desejamos os efeito práticos e objetivos, nada além disso, isto é, se não houver um amor não deverá haver nenhum resquício de amizade. Provamos isto assim: se A é o nosso fim e B é um dos meios lícitos para A, logo por B chegaremos a A, porém se B for inerte não chegaremos a A por meio de B. Mas se B for passível para um outro meio que possa ser um bem legítimo, que seja usado, contudo para esse, não para o nosso fim em estudo.

            Vemos de melhor forma nesta carta de amor, de um amante ao amado, que justifica o repúdio à amizade caso não haja desejo da parte do amado. Mesmo empregando alguns sofismas é muito convincente para um amado de baixo entendimento: “É bem verdade que os sentidos nos enganam, não passando mais do que criações de uma imaginação anelada à vontade, por isso a necessidade de reflexões acerca da veracidade das sensações. Às vezes amamos quando repudiamos, não magoamos quando o fazemos e assim sucedem as decisões de quem visa ao bem, fazendo um mal aparente. Se parece valer mais a amizade que o amor, logo se perde um namorado, quando se ganha um amigo. Mas quem amando é amigo, como se só amigo fosse? Quem em sã consciência sentiria amizade quando é constantemente levado pelos desvarios do amor?

            “Percorre como é próprio da natureza o seu agir e formosura. Causam espanto ao amante que é tomado pela atração de desejar o que é belo e agradável. Não deseja a beleza pela disfunção de um amor-próprio aviltado, mas pela reta ânsia do que é bom e deleitável. Depois de cair pelos encantos que lhe pertence, é atacado por pensamentos mil, sem nunca permanecer na realidade nem ao menos no verossímil. Sua sorte é a mesma que a sua desgraça, pois concorrem juntas indefinidamente. Porém, no desejo pelo amado tenta procurar o que é certo nas coisas incertas, maquina perfeitamente o que nada tem de perfeito. Até que então, procura revelar o oculto para escutar o que adorna ou fere o coração.

            “Assim declaro eu, formalmente, visando o pouco formal, o que carrego comigo. Levo a tristeza, para alegrar, espero, me desesperando, o seu consolo, procuro salutarmente o perigo. Caio pela vida a contemplá-la nestas mudas linhas do mudo pensamento que agora invoco.

            “Contudo, se toda vez que os amados fossem objetos de desejos, cedessem aos amantes, seria um pandemônio, pois não é natural haver relação amorosa com um número diferente do natural. Assim, os amados podem escolher o amante na medida em que são dotados do que os tornam atraentes, a beleza. Minha altanada e excelsa amada, tem o direito e dever de assentir ou não com os meus sentimentos, com o intuito do que melhor lhe apetecer. Se não houver amor, por ínfima atração, o que é natural em tantos casos, não há porque ser fiel à amizade, embora a recíproca seja verdadeira. Quem ama é amigo, mas amigo algum ama verdadeiramente como uma paixão. Portanto, o amado não seria amigo se deseja a amizade do amante, se aquele não o ama. Por isso que é necessário findar a amizade, com as improváveis esperanças de um outro encontro no qual seria possível a amizade, quando o antigo amante não mais o fosse, mas tão-só amigo em potencial. Ora, não há dúvida de que o contrário tornaria possível o amor e a amizade, pois todo amor é amigável.

            “Não quero aqui exaltar o que a natureza já fizera, fê-la tão bela que se confunde com o seu próprio Criador, na pessoa da divindade. Destarte, a hierarquia do belo é necessária, para que não haja uma desordem da atração. Pois, se a humanidade se

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revelasse como a que possui, o mundo inteiro seria confundido pelas próprias atrações, porque tudo que existisse conduziria igualmente às deliberações. Viveríamos a trocar voluvelmente e, portanto, não haveria pessoas apaixonadas.

            “Engrandecer o amor é tolice, pois tornar maior o imensurável é por demais confuso e abstrato. Todavia, como louco que deseja a sanidade, o avaro a riqueza e o rico a santidade, anseio o que me move, para remover essa loucura, que é sensata, quando afirma insensatez e relativa, quando implora o absoluto.

            “Não sou quem recebe amor, mas tão-somente espero, não como a morte, certa a todos, porém como fado respectivo a cada um. Se for minha esta sorte, não há como negar que o seu intento é soberano, mas não julgue por compaixão. Trate friamente a decisão e tire a resposta que precise para dizer se me ama ou apenas possui apreço por mim como é natural à generosidade humana.” Por conseguinte, não é necessário manter tal amizade se não é alcançado o nosso fim – o relacionamento –, porém para o apostolado – elevado bem – deve-se manter obrigatoriamente.

 

 

XII. Da revelação da atração pelo contato

 

            O princípio de toda amizade excelente é a sinceridade. Ajudar-nos-á muito se usarmos na hora devida, pois precisará haver por meios de ações formais ou gestos menores a declaração com a tentativa de transladar para a paixão.

            Se for escolhido por meio da arte, sobretudo a poesia, veremos qual a melhor forma, quando estudarmos sobre as suas vicissitudes no amor. Não obstante, há um modo mais tradicional por contato corporal, geralmente manifestado pelo beijo e um outro que sem a arte, sem a beleza da retórica, diz-se o necessário para exprimir a sua atração. Deve-se entender que há dentre estas duas alternativas – contato corporal ou a conversa sem adornos – duas afirmativas distintas, havendo quatro possibilidades no final destas: a primeira com a resposta negativa ou afirmativa; a segunda idem.

            Devemos nos centrar para as respostas negativas, pois não se deve ensinar ao vitorioso como se vangloriar, porém ao desgraçado como se conformar. Dentro dessa negação há variações com as quais poderão ser expostas, consideraremos as duas contrárias entre si, a primeira, amabilíssima e carinhosa, a segunda, perversa e desumana. Vejamos, inicialmente pela forma amabilíssima para as formas distintas de expressão. Se por meio de um beijo expuser ao amado a atração e esse quando negar por gesto sutil, indo contra o amante dizendo não crer ser possível o seu desejo, por motivos que não lhe exporia por pena, ou por amabilidade, o amante não deverá tornar-se iracundo. Porém, sereno e sem mais palavras deve procurar, quando for conveniente, uma despedida daquele momento e, se necessário para outro fim, marcar um novo encontro ocasional sem vontade de visar algum relacionamento por tempo determinado, por via da amizade. Contudo, se por meio oral sem ornamento algum se expressar visando o mesmo fim que o primeiro e, como objeto estudado, houver uma resposta gentilíssima, sem mácula de rancor ou mágoa, dever-se-á agir da mesma forma, pois amor com amor se paga e quando lhe disser: “Eu não te amo” na verdade diz: “Por tanto te amar digo que não te amo”. Eis as melhores reações negativas acerca de um convite amoroso, pois se muito sofre o amante, muito sente o amado se lhe tem por demasiado apreço.

            Embora haja reações diferentes por parte da crueldade com que se revela pelo contato ou pela fala, estudaremos apenas uma reação em que seja quase um absurdo por tamanha malvadeza que se apresenta. Digo que é um absurdo porque amigo algum atuaria sem compaixão para com o outro. Mas se o absurdo fosse possível seria dito:

Escrito por Bernardo Veiga às 19h02
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“Fizera o que o Amor te pedira?! Não escute um pobre e efêmero ente passional, pois se sou teu amigo não é por amor a beleza que tens, mas pela amizade que recebo. E dentre as formas que revelas não parece sensato espores a ninguém que possuis amor, porque se o tens, nunca o terá. E haverá amor sem beleza? Se imploras pelo meu sentimento não esqueças que depende muito mais de ti do que de mim, pois o amante sem o amado é puramente nada. Desculpe, mas se Deus não te dera harmoniosa matéria, não serei eu quem sofrerá com a sua Vontade obscura, pois a desgraça teve como alvo unicamente a ti. Eis as palavras que possam aparentemente passar por verdadeiras, embora não totalmente. A sinceridade nem sempre é a verdade, porém uma verdade subjetiva acerca do que pensa quem a diz. Essa se torna a maior união e discórdia entre os amigos, ou por não serem realmente amigos, ou por causa da verdade subjetiva que, ou não agrada por não ser verdadeira ou justamente por ser. Porém não se deve ater às palavras com facilidade, antes se deve procurar compreendê-las para contra-argumentar. Se forem falsas deve-se manter ainda um vínculo pelo fim dito, pois se A é verdadeiro, logo não-A é falso, se, pois, afirmo que não-A é falso digo, por conseguinte que A é verdadeiro. Portanto se, visando um fim desconhecido ou por eventual motivo, mas com intenção falsa, ter dito como verdadeiro, deve-se entender a razão dessa intenção aviltada e tentar norteá-la na medida em que for possível para a inteligência e a vontade.

           

 

XIII. Da possibilidade de não se casar

com a posse de tal vocação

 

            É possível viver solteiro com a posse da vocação. Um grande exemplo disso é a vida de milhares e milhares de pessoas que, ao longo de dois mil anos, viveram santamente. Mas isso só é possível pela graça e o amor divino. O homem deseja o amor e se torna plenamente saciado na amizade, sobretudo com Deus. Por isso que o verdadeiro amor conjugal necessariamente precisa da amizade, pois é esta própria que o mantém firme e com longevidade. Érico Veríssimo corrobora ao dizer que em certos momentos o que nos salva nem é o amor, é o humor. Ora, o humor está muito mais relacionado com uma espécie de amizade e uma disposição caritativa do que o amor conjugal por si mesmo. E, um grande exemplo disso foi a grande relação amiga entre Davi e Jônatas que fizera o primeiro afirmar ao segundo: Tua amizade me era mais preciosa que o amor das mulheres (IISm 1, 27). Apesar de uma numerosa quantidade de esposas que Davi possuía.

            Não se casar não causa infelicidade devido às insatisfações de determinados gostos que possuem a vocação, mas nem todos são capazes de compreender o sentido desta palavra, mas somente àqueles a quem foi dado (Mt 19, 11). Estes que compreendem esse significado e são chamados à vocação possuem objetivamente um caminho muito mais nobre do que aqueles chamados ao matrimônio. São Josémaria define desta forma esses dois caminhos: O matrimônio é para os soldados e não para o estado-maior de Cristo. – Ao passo que comer é uma exigência da espécie, podendo dela desinteressar-se as pessoas individualmente (Caminho, 28). Por ser mais nobre neste sentido não quer dizer que todos estes irão para o céu, como no caso de Judas. Se a nobreza deste caminho é por si só objetiva, o modo como é seguida é de extrema subjetividade, pois depende se realmente a pessoa busca e deseja a santidade, com atos que, altanados, não estão diretamente ligados com a objetividade do caminho. Portanto, sem dúvida também há numerosos santos que foram casados.

            Se os caminhos são diferentes os fins são os mesmos: Sereis santos porque Eu sou Santo (Lv 11, 45). Todas as vocações possuem a santidade como designo que visa à Deus como primeiro princípio; ... último fim;... benfeitor perpétuo;... defensor propício (oração do Papa Clemente XI). Por isso afirma Santo Agostinho que devemos ser unidos na diversidade. Afinal, se somos católicos o nosso espírito é universal – unum in multis, sendo muito espelhados no único e mais perfeito exemplo: Jesus Cristo, Emanuel, Deus Conosco.

            Agora devemos encerrar este livro, por apresentar suficientes motivos para o seu fim.

 



Escrito por Bernardo Veiga às 19h02
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LIVRO TERCEIRO

Da psicologia dos amantes



Escrito por Bernardo Veiga às 19h01
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I. Introdução

 

            Todo amante naturalmente deseja o amado, em virtude da natureza do amor que os atrai e pelo que define o qualitativo de amante. Em conseqüência disso ocorre uma série de sensações psicológicas que muitas vezes podem alterar o real, distorcendo-o. Estas sensações são comuns em muitos amantes, pois a atração causa efeitos peculiares. É necessário compreender que muitos destes não são benéficos, podendo levar o amante até o desespero e, por conseguinte, à morte.

 

 

II. Do amante autista

 

            Há amantes que se fecham no próprio mundo e se iludem com a realidade. Vêem o que desejam ver, apreciam o que mais lhe apetece para a paixão. Acredita que o amado sempre esteja comunicando com manifestações pessoais, olhares e gestos. Para esses o amado é o ser mais acanhado de todos, pois quando o amante investiga se houve realmente uma manifestação amorosa, julga ele sem concluir nada, que o amado é safo demais para que seja pego no ato de admirá-lo.

            Geralmente apresentam um temperamento mais introspectivo e por isso não manifestam a sua atração pelo amado. Quando se expões muitas vezes são ignorados, pois o que lhe parecia perfeitamente certa, a atração, na verdade não fora mais que eventuais incidentes e gestos involuntários do amado.

            Na verdade como ele pensa que o amado quer lhe comunicar constantemente o que sente, acredita, também, que ele usa outras pessoas, para alcançar o seu fim. Cria-se uma espécie de teoria conspiratória em que o mundo inteiro é parte integrante desse plano de comunicar que o amado também seria amante.

            A solução não deve ser entendida como uma opinião do autor deste livro, porém de forma objetiva e imparcial, porque em último caso seria esse também quem coopera com tal grandioso plano. O problema de toda teoria da conspiração é a sua própria resposta. Segundo Karl Popper, aquilo que não pode ser questionado sobre hipótese alguma, pois todos estariam envolvidos na teoria, também não pode ser demonstrado. Isso quer dizer que sempre existirão milhares destas teorias, porém praticamente nenhuma delas é digna de crédito. Portanto, esta como qualquer outra teoria da conspiração não é digna de credulidade, contudo, antes deve ser esquecida, pois muito provavelmente poderá levar o amante à beira da loucura.

 

 

III. Do comportamento ciumento

 

            O excesso de zelo pela falta de confiança causa ciúmes no amante de forma que possa variar os efeitos na medida em que se intensifica o ciúme. De todos estes casos aquele que mais se destaca pela sua arte e tragicidade é o de Otelo, escrito por Shakespeare. Otelo, um nobre mouro a serviço do Estado de Veneza se casa com Desdêmona e, porém, Iago forja um falso romance que estaria acontecendo entre Cássio, tenente de Otelo, e Desdêmona. Com isso no auge do desespero e, Otelo acreditando veemente no discurso de Iago, na mentira acerca de um lenço que

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incriminaria Cássio, profere tais palavras: Deitou-se com ela! Deitou-se sobre ela!... Diz-se por aí que um homem deita-se sobre uma mulher quando a está caluniando. ... Deitou-se com ela! Pelas feridas de Cristo, isso é uma imundice! O lenço... confissões... o lenço! Confessar, e ser enforcado por seu trabalho! Primeiro, ser enforcado; depois ele confessa. Estremeço só de pensar. A natureza não teria investido em paixão tão obscura sem nos deixar algo sugerido, simbólico. Não são palavras que me fazem tremer desse jeito. De modo algum! Narizes, orelhas, lábios. Será possível? ... Confessar? O lenço? ... Oh, diabo!

            Os ciúmes podem alcançar um estado doentio em que o amante, por amor ao amado, velando pelas respectivas honras, planeja o assassinato do amante que o traiu e/ou do amado. Assim descreve no decorrer da peça por Otelo no seu quarto com Desdêmona dormindo, no desejo de levá-la à morte: Essa é a causa, essa é a causa, minha alma. Não me peçam, castas estrelas, que eu dê nome a ela. Essa é a causa. Contudo, não derramarei seu sangue, nem deixarei marca naquela sua pele, mais branca que a neve, mais lisa que o alabastro de monumento... E, no entanto, ela deve morrer, para que não venha a trair ainda mais homens. Primeiro, apaga-se a luz e depois... apaga-se a luz. Se preciso extinguir-te a ti, sacerdotisa ardente, posso ainda uma vez recuperar tua luz passada, no caso de me arrepender. Porém, uma vez apagada tua luz, modelo mais sutil da natureza em sua excelência, eu não saberia onde encontra-se aquela chama de Prometeu que pudesse reacender tua luz. Quando eu tiver arrancado a rosa da roseira, não tem como restituir-lhe o crescimento vital. Ela não tem outro remédio que não fenecer. Aspiro então o seu perfume no galho (beija-a). Oh, hálito balsâmico, quase consegues persuadir a Justiça a quebrar sua espada! Mais um! Mais um! Sê assim quando estiveres morta, e quero matar-te para depois te amar. Uma mais, e este é o derradeiro. Tamanha doçura jamais foi tão fatal. Minha necessidade é, chorar, mas as minhas lágrimas cruéis; e celestial é o meu pesar, pois ele dói na fronte do amor. Otelo logo após a asfixia e depois descobre que Desdêmona nunca fora infiel, na verdade, fidelíssima.

            O ciúme, ao contrário do que muitos pensam, não é o excesso de uma paixão, mas uma forma deturpada desta. Nenhum amor deve ser enraizado em uma desconfiança, pois não seria digna de ser mantida. Independente de haver a traição ou não, nunca deverá haver ciúmes, porque, tampouco é uma manifestação de amor. Na verdade está mais contra a natureza amorosa do que em prol, visto que é através do orgulho que é movido. (Orgulho de perder a honra pela traição do amado.)

            Não obstante, não quer dizer que a traição seja algo bom, porque não é, sendo matéria muito grave. Ora, se houver realmente a traição é muito melhor conversar com o amado para responder-lhe sinceramente a verdade. Se disser que houve realmente só haverá duas escolhas do amante, ou findar o relacionamento, ou perdoar e recomeçá-lo. Dentre estas duas não existe uma melhor objetivamente, pois são relativas a cinco coisas: tempo de enamorados, a intensidade do amor, a gravidade da traição, a sinceridade do arrependimento e a disposição do amante pelo perdão. Se parecer que realmente houve contrição é justo perdoar como nô-lO ensina: perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (Lc 11, 4) e pela caridade que tudo desculpa. Todavia, uma coisa é perdoar, outra conservar o relacionamento depois da traição, o que é extremamente difícil.

            Parece, sobretudo, necessário que passe um tempo razoável para esta decisão. Mas isso não quer dizer que o tempo seja um ente capaz de distorcer e melhorar todo um plano metafísico com o seu passar, porém tão-somente para não decidir de maneira precipitada e terminar triste e passionalmente o que belo e espontaneamente começara. O tempo não é um feiticeiro de miraculosas ações, porém o que ocorre no seu decorrer

Escrito por Bernardo Veiga às 19h01
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poderá ser. Se disser alguém que o tempo resolve todos os problemas, é mentiroso ou néscio. O tempo não resolve, muito pelo contrário, antes deteriora o que já estava em estado de putrefação. A virtude cristã e o que a move não é o tempo, porém as nossas forças e a graça divina. Portanto, atribuir ao tempo o poder de manipular sentimentos, induzir ações e amenizar sofrimento é injusto. São as pessoas que respondem pelos seus atos, não o tempo. Quando, pois, digo que é devido a um tempo, se houvera traição, é para acalmar determinados temperamentos mais explosivos e iracundos, a fim de pensar calmamente, se por amor ao amado irá reatar o relacionamento.

 

 

IV. Da infidelidade do amante

 

            A natureza humana sempre se mostra suscetível a diversos atos assombrosos. Mostram coragem quando não devem, invertem juízos, agem passionalmente e isso é devido à falta de uma virtude cardial, a mais importante sob o humano aspecto, a prudência. Guia-se pouco nesta, logo se perde a racionalidade e a objetividade, tornando vulnerável às tentações pela ignorância. É indubitável que toda ação de infidelidade é conseqüência de uma deficiência dessa virtude, revelando que o infiel antes de tudo é imprudente, o que agrava cada vez mais o seu ato.

            Observa-se no evangelho de são Lucas os juízos da divindade por aquele que o trairia: O Filho do homem vai segundo o que está determinado, mais ai daquele homem por quem ele é traído (Lc 22, 22). Ademais, na Divina Comédia Dante reserva os piores castigos para os traidores; para o mais infiel – Lúcifer – o maior peso:

 

            O imperador do reino causticante

            Tinha, do gelo, sobrealçado o peito;

            Mais posso comparar-me co’um gigante

           

            Do que um gigante com seu braço, o jeito,

            Perceber bem como era atroz e bruto

            Por este membro, em tal escala feito.

 

            Se foi tão belo quanto agora é hirsuto

            E se contra o Criador se ergueu, furente,

            É natural que engendre a dor, o luto.

(Inferno XXXIV, 28/36)

           

Em Shakespeare no Antonio e Cleópatra conhecemos o qualitativo da ação ominosa quando é dito que a morte é como o gesto de um amante que fere e é desejado. A traição é um desejo muito forte e deve ser repudiado. A fidelidade, no entanto, não é um entusiasmo fácil, mas a conquista e a afirmação constante dos antigos votos do amor. São Josémaria dizia em Sulco (340) que a lealdade tem como conseqüências a segurança de andar por um caminho reto, sem instabilidades nem perturbações; e a de firmar-se nesta certeza: que existem o bom senso e a felicidade. Portanto ser fiel é viver com a serenidade de uma criança que no seu leito busca o sono sem as desgraças dos seus atos não praticados.

            Aquele que verdadeiramente ama é fiel, se não amar desta forma deve acabar o namoro em prol da salvação da própria alma. Se for cônjuge de outrem deve manter-se unido e esperar a justiça divina, porque a alegria dos homens é insignificante para a felicidade eterna e a contemplação do sumo Ser. Por isso que, não sem razão, é-se fiel

Escrito por Bernardo Veiga às 19h01
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antes por Deus ao amado, pois a infidelidade ofende muito mais à divindade. Quem é fiel se priva do que é bom e agradável, sofre até indevidamente e fá-lo por amor ao amado, à virtude e mormente a Deus. Se resistir à tentação da traição é doloroso, o único consolo é o sofrimento da cruz na expiação cristã. Aquele que padece com sentido sobrenatural participa da remissão dos pecados, tornando-se co-autor por Cristo, com Cristo e em Cristo.           

           

 

V. Do amante leitor

 

            A beleza é fruto de todas as gerações. O amante de qualquer era poderá ser confortado pelo o sofrimento de outros que se igualam em padecer e circunstâncias. Pois, enquanto na Terra houver um belo amado haverá possibilidade para aflição do amante.

            Entre os amantes dos tempos de outrora há duas manifestações para quem toma conhecimento, uma vez que visa a esses que não tiveram êxito para o belo desejado, que semelhantemente, também fracassaram na paixão. O conhecimento será benéfico na medida em que é natural do ser humano o desejo de compreender as vicissitudes que levam o amor a fracassar e intentá-las novamente para um novo objeto e, de uma nova forma, que mais lhe for conveniente. Assim, como a humanidade é passível de erro, todos os amantes respondem por esse predicado, pois compartilham da dignidade do ente dotado desta natureza.

            Se as histórias são benéficas para que não caiam nestes menores incidentes, será maléfica na proporção em que induz ao amante a cometê-las novamente. Entenda que não é o objeto nem as circunstâncias que se alteram, porém tão-só o fim, visto que o seu qualitativo será relativo se este for bom ou mau.

            A repetição de péssimos atos com o conhecimento das conseqüências é um opróbrio à inteligência e necessariamente uma ofensa a Deus, criador do princípio que move a razão intelectiva. Pois, se o amante comete o mesmo erro que levara a desgraça de um outro do seu conhecimento é inegável que se intensifica pela ausência da ignorância indevida.

            O amante não deve se identificar com a história de outrem, se for agir da mesma forma. Deverá, antes, ter um repúdio pelas ações desse, embora reconheça que compartilhem de dores semelhantes. Assim, evitar-se-á o erro conhecendo a tristeza do segundo, fazendo do primeiro um chamariz de exemplo para todos os outros contemporâneos e vindouros. Em Dante reconhecemos um bom exemplo do seu sofrimento por Beatriz, e, por isso digno de muitos ensinamentos para que amedronte o amante e fuja desta mesma desgraça, descrita no seu soneto:

 

            Pobre! Por força desse suspirar

            Que sai do coração com amargor

            Os olhos cedem e não têm valor

            De se volverem para alguém fitar.

 

            Parecem dois desejos de chorar

            E de fazer ver toda a sua dor,

            Vertendo tantas lágrimas que Amor

            Os cerca de coroas de pesar.

 

            Esses suspiros, em que assim me agito,



Escrito por Bernardo Veiga às 19h00
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São no meu coração tão dolorosos

            Que desfalece o próprio Amor, que é forte;

 

            É que eles têm si, os pesarosos,

            De minha amada o doce nome escrito,

            E muita coisa sobre a sua morte.

 

            Falamos das histórias daqueles que fracassaram na aflição das paixões, pois não é benéfico que seja lido aquelas em que há plenamente amor e ambos terminam na fantasia da eterna felicidade. Não faz bem ao amante, porque cria uma nova história para se deleitar em uma utopia, ou fora das suas possibilidade, ou até mesmo distante de qualquer amante. Vive o irreal para fugir da aflição, sem a curar, somente se espreitando nos prazeres dos sonhos. O seu sofrimento tornará muito maior quando tomar conhecimento do tempo perdido em devaneios. Embora ache que ignore a realidade e a despreza, na verdade naturalmente a deseja, mas a teme por não combater os sofrimentos na sua origem, o real. Por isso que não ignora, porque ninguém que foge de algum objeto o ignora, senão nem ao menos seria agente do ato de fugir.

            Por conseguinte, para o amante é bom que conheça (geralmente por meio da leitura) principalmente as histórias daqueles que fracassaram, para aprender, compadecendo desses, o reto uso dos seus artifícios para uma frutuosa paixão.

 

  

VI. Da psicologia do amante poeta

 

            Embora posteriormente seja estudada a influência da arte para a criação de uma paixão, é necessário analisar o comportamento e os pensamentos de quem é poeta e se torna amante. Esse tudo se converge na criação de versos para o amado. Muitas das vezes raras foram as suas paixões, porém deseja falar desta como se fosse um literato especialista. Procura desenvolver a arte para alcançar cada vez mais o belo e, por conseguinte, agradar ao amado. Faz de toda vida a criação da sua arte, tudo que não fora o que faz é supérfluo e não merece apreço.

            Quando um dia se especializa no que escreve e respeita a arte por exercitar o dom e investigar a beleza, desenvolve um conhecimento poético do amor muito elevado. Devido não pelo apuro de ajuda filosófica, mas pela sensibilidade estética adquirida pela experiência do amor que se revela. E desta forma se expressa Camões – como muitos outros – nos seus versos como neste soneto:

 

            De amor escrevo, de amor trato e vivo;

            De amor me nasce amar sem ser amado;

            De tudo se descuida o meu cuidado,

            Quanto não seja de amor cativo;

 

            De amor que a lugar alto voe altivo,

            E funde a glória sua em ser ousado;

            Que se veja melhor purificado

            No imenso resplendor de um raio esquivo

 

            Mas ai que tanto amor só pena alcança!

            Mais constante ela, e ele mais constante,

            De seu triunfo cada qual só trata.



Escrito por Bernardo Veiga às 19h00
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Nada, enfim, me aproveita; que a esperança,

            Se anima alguma vez a um triste amante,

            Ao perto vivifica, ao longe mata.

 

É interessante ressaltar o primeiro verso: De amor escrevo, de amor trato e vivo. O poeta necessita da experiência daquilo que escreve para escrever bem. Com isso quando é paciente de um amor ele aprende com aquilo, e, logo, escreve o que sente e explora tão vasto assunto. Se não houvesse o amor, não haveria beleza naquilo que é lido e escrito, pois é belo na medida em que condiz com a triste ou a alegre realidade de uma paixão.

            Com o poeta aprendemos o que é o amor pela reação sensitiva do próprio. Quando fala de amor, geralmente diz da experiência vivida pessoalmente. As perguntas são aquelas que, saturadas pela aflição do que padecem, bradam por uma resposta, não com o objetivo de presentear a humanidade, porém para compreender a causa do que se lhe apresenta. É movida para agradar o amado, porém se fracassa questiona o fim da sua arte ou o fim do que o levou a tentar fazê-la bela. Indaga sem usar os artifícios de qualquer lógica, é guiado pelo desejo de entender o seu sofrimento, para descansar nessa sabedoria e tentar amenizá-lo. As suas respostas se encontram entranhadas nas suas perguntas e escondidas nos seus versos, pois quem sofre a ação conhece o quanto sofre. E, pela arte, vê-se o que sente, vê um espelho artificial da obra e nela compreende a si mesmo, na medida em que a criatura é um reflexo, um pouco turvo, do criador.

            Petrarca, no apogeu do lirismo, começa este soneto indagando sobre o aspecto qualitativo do amor e depois expressa o quanto se sente, para revelar a beleza da arte, o sentimento pessoal e o desejo pelas respostas que mesmo cria:

 

            Se amor não é qual é este sentimento?

            Mas se é amor, por Deus, que coisa é a tal?

            Se boa por que tem ação mortal?

            Se má por que é tão doce o seu tormento?

           

            Se eu ardo por querer por que lamento

            Se sem querer o lamentar que val?

            Ó viva morte, ó deleitoso mal,

            Tanto podes sem meu consentimento.

 

            E se eu consinto sem razão pranteio.

            A tão contrário vento em frágil barca,

            Eu vou por alto mar e sem governo.

 

            É tão grave de error, de ciência é parca

            Que eu mesmo não sei bem o que eu anseio

            E tremo em pleno estio e ardo no inverno.

(Poemas de amor)

 

            Portanto, o que beneficia o poeta indiretamente, sem ser da sua vontade, contribui para a humanidade. O que deveria agradar ao amado agrada àqueles que compartilham com a sua dor, ou mesmo, como dissera Fernando pessoa:

 

            E os que lêem o que escreve,



Escrito por Bernardo Veiga às 19h00
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Na dor lida sentem bem,

            Não as duas que ele teve,

            Mas só a que eles não têm.

 

Quem não compartilha com a dor se agrada pelo conhecimento deles mesmos de não possuírem tamanha dor do poeta. Ao comprazer a si próprio ele presenteia todos os amantes, que jubilosamente vêem nele alguém que compreende que eles também compadecem. Contudo, não pelo motivo do poeta ter estudado numerosos casos e concluído sobre análise sistemática, porém por ter revelado as próprias angústias, desejos e indagações que se assemelham com a de outros amantes. Por isso que o melhor poeta subjetivamente é aquele que possui uma biografia muito semelhante com a de quem o deseja ler, pois verá na bela arte desse poeta o brandir que desejava fazer acerca de si mesmo, se se possui tamanho talento reservado a poucos.

 

 

VII. Da psicologia do amante filósofo

 

            Quando um filósofo se torna amante de outro objeto, humano, este procura investigar o sentido das coisas que sente, pensa e age. Numerosas vezes enumera teorias, na verdade pseudofilosofias, para se esconder nelas, afim de não se tornar audaz e falar com o amado.

            O indivíduo pensa demais, deseja englobar em uma teoria o que alivie a sua timidez e covardia. Forja estudos è procura de tudo o que convém para satisfazer o seu objetivo. A respeito disso afirma Gustavo Corção sobre a necessidade de arriscar e agir sobre o desejo de teorizar qualquer pormenor: Ou fazemos penitência, ato de reconhecimento e de amor, ou prolongamos indefinidamente nossa prudência. E por mais que estudemos, experimentemos e analisemos, por mais que cresça a confiança, se não fizermos ato de amor, não haverá núpcias. Haverá estudo; confiança boa, mas seca; razoável, mas não amorável. Podemos ficar neste conflito vinte anos, quarenta anos, anotando num diário a interessante evolução de nossa personalidade. Mas não haverá festa; e morreremos evoluindo. Poderemos passar a vida inteira experimentando a doutrina em cima dos enigmas da natureza, do sol, dos insetos, das glândulas, para ver se não há falha; mas, como essas coisas são muitas e breve é a vida, morreremos fazendo a última experiência. E não haverá núpcias; e nem sequer assistiremos aos preparativos com o milagre do pão e do vinho.

            (...) Porque quem quiser ler tudo, ler mais e mais ainda, quer ficar pensando: e não se convence. O que ele deseja, pelo direito, vem depois da opção, e é uso do convívio com a noiva.

            De que é útil uma teoria que não serve para a prática? Não estou desprezando a filosofia ou a teologia, das ciências, as mais inúteis e importantes, porém dizendo que viver somente em função de suas divagações e aprisionar-se em teorias infindas é angustioso. Elas não são ruins por si mesmas, contudo o desejo intemperante e exclusivo por elas fazem desta ação algo necessariamente ruim.

            Portanto não é devido ao filósofo fugir do seu dever para com a realidade, pois antes de contemplar o real ele precisa vivê-lo de forma digna à existência, aprazível e boa perante Deus. Ora, não é do agrado divino vê-lo inerte nas suas divagações sem ação alguma, uma vez que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé (Tg 2, 24). Antes um medíocre que pouco faz e pouco pensa, do que um “magnificente” que muito pensa e nada faz.  

Escrito por Bernardo Veiga às 19h00
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LIVRO QUARTO

Do uso da arte pelos amantes

 



Escrito por Bernardo Veiga às 19h00
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I. Introdução

 

            A arte não deve ser entendida como o fim das paixões, porém como meio e sustentáculo destas. Antes de tudo, estudaremos as manifestações que dignamente são arte, aquelas, que assim não se apresentam, não serão objeto do nosso estudo. Das sete artes (música, escultura, dança, pintura, teatro, cinema e literatura) investigaremos aquela que se detem às manifestações pelas palavras, isto é, tanto na oralidade quanto pela escrita, sobretudo, pela escrita. Todavia o que digo por oralidade não deve ser entendido como referência ao canto.

 

 

II. Do critério para a superioridade artística

 

Não há como saber pela nossa natural ignorância dentre o campo estético qual dentre todas as artes é a melhor, pois, sendo a arte a criação do belo, não há como medir objetivamente o que em parte é subjetivo. Poderá haver comparações somente se houver um critério pré-estabelecido. Pode-se dizer que Mozart nas suas composições concernentes ao período clássico compôs de forma quase incomparavelmente mais harmoniosa, tanto nos acordes quanto na melodia de cada instrumento, do que uma soma considerável de músicas contemporâneas ou até mesmo românticas e barrocas. Partindo da premissa que a harmonia define a melhor arte, logo não há dúvida de que o mais harmonioso será o melhor. Se houver critérios absurdos, estes resultarão em fatos absurdos, isto é, não serão senão fantasias. O bom senso nos resguardará, sendo-o objetivo, de conclusões absurdas, incitando-nos a alterar o critério. Se, pois, dissermos que a música menos harmoniosa será a melhor, portanto diríamos que a sinfonia número 40 de Mozart seria o ápice da fealdade e mediocridade, o que inegavelmente seria um absurdo.

Adotaremos somente a arte principalmente daquela em que o uso da palavra seja indispensável. Não obstante não será por se apresentar melhor, porém como a mais conveniente, uma vez que é a arte mais comum entre os amantes, o que não necessariamente fá-la bela, contudo mais útil a fim de que haja êxito para fim do próprio amor.

 

 

III. Do qualitativo poético

 

            Infelizmente restringiremos ao máximo os nossos estudos literários e estudaremos somente a poesia como forma pura, sem um proposto narrativo como os épicos, tragédias e comédias. Estas só nos serão úteis na medida em que se aproximam da forma pura poética – a exaltação daquilo que é sem alterar o que é –, uma imitação da realidade. Se assim não proceder poderá ser desvirtuada do seu reto uso como se afirma na República: A poesia, como aliás a eloqüência, mas com alguns atrativos a mais como a música e a dança, empenha-se apenas em agradar a um público numeroso. É uma lisonja que não cuida de dizer alguma coisa donde possa redundar aperfeiçoamento naqueles que a escutam e que só tem em mira o prazer no espetáculo.

            Há dois fins para se arquitetar qualquer arte poética. Há o fim que visa o deleite, isto é, não necessariamente mantém-se na realidade como a obra de Melchor Ortega em que o protagonista combate sozinho contra um exército com mais de um milhão de homens. O outro fim é aquele que visa à imitação – inerente à natureza humana como

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diz o Filósofo: É-nos natural a tendência à imitação, bem como o gosto da harmonia e do ritmo. – com o intuito de produzir o que é verdadeiro, correspondente à realidade. Por isso, escreve Jaime Balmes no O Critério que é preciso encarar as coisas não pelo modo com que elas nos afetam, mas segundo o que realmente são. A verdade não está essencialmente em nossas impressões, mas sim nas coisas. Se nossas impressões estão em desacordo com as coisas, tais impressões nos enganam e nos extraviam. O mundo real não é o dos poetas e romancistas. Saibamos vê-lo tal qual ele é, regulemos nossa conduta por esta vista. Nada de vãs fantasias; o positivo, o prático, o prosaico, eis o que é o mundo.

            Dentre estes dois fins estudaremos o que há de melhor dentre eles para sistematizar a poesia e tê-la da melhor forma. Ora, o que poderá haver de melhor no primeiro senão aquilo que o torna desejável, isto é, ser harmonioso com o fim de ser deleitável, pois este naturalmente é apetecido? E o que poderá haver de melhor no segundo senão o que desperta uma das mais nobres atividades humanas, a imitação do real, como ficara ratificado no quarto capítulo da arte retórica: A tendência para a imitação é instintiva no homem, desde a infância. Neste ponto distingue-se de todos os outros seres, por sua aptidão muito desenvolvida para a imitação. E desta mesma forma, se entendermos que a poesia é um discurso ao amado, nos aconselha Sócrates no Fedro quando diz que só as palavras pronunciadas com o fim de instruir, e que de fato se gravam na alma, sobre o que é justo, belo e bom, apenas nelas se encontra uma força eficaz, perfeita e divina a ponto de nelas empregarmos os nossos esforços; somente tais discursos merecem ser chamados filhos legítimos do orador, gerados por ele próprio, quando esse orador possui um gênio inventivo, e quando nas almas de outras pessoas eles engendram descendentes e irmãos que sejam dignos da família.        O nosso objeto de estudo será a construção de uma poesia em que seja verdadeira por natureza, aprazível pelos acidentes e harmoniosa por ser desejada pelo primeiro – bem honesto – e pelo segundo – bem deleitável.

 

 

IV. Do fim poético

 

            Qual o fim da construção de uma poesia verdadeira, aprazível e harmoniosa? Ora, o fim que desejamos é a excelência de uma paixão; o meio que usamos é a arte (poética) e se buscamos este, devemos buscá-lo da forma mais perfeita possível para satisfazer o nosso fim. Por isso não faz sentido algum buscar o que é inerte para o que desejamos, como fora exposto no livro segundo. O que é inerte seria exatamente um tipo de arte que não é digna do próprio nome, como amor carnal não é digno de ser assim chamado, porém concupiscência ou lasciva. Por conseguinte devemos desejar a mais excelente poesia para tentar alcançar a mais excelente paixão.

 

 

V. Das formas para expressar a poesia

 

            Se há necessidade da posse de uma poesia teremos duas soluções: buscar em outros poetas, o que muitas vezes não seria o ideal, embora para quem não tenha o dom ou pouco se disponha a criar, seja a única via, ou criar sua própria arte e ser das musas um contemplador, para que Eros reine pela paixão.

            Analisando o primeiro caso, aquele em que não há criação da arte, mas somente uma cópia perfeita dos versos usados: não é muito digno de mérito. Não há realmente nada a fazer senão o trabalho da repetição em alta voz para o amado, pois entenda que

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não há maneira de mostrar-lhe tão-só a poesia, visto poder ir a qualquer biblioteca para lê-la. Deve estudar, contudo, a retórica, direcionada para a dramaturgia, fazer de uma arte a reprodução da outra. Deve-se aprender a gesticular, representar, graduar a voz e outros artifícios retóricos que não contaremos aqui por investigarmos a arte poética, não outra distinta.

            No entanto, há aqueles que afirmam que Eros ama as musas e delas sempre recebe favores por ser em si mesmo o próprio Amor. Logo dizem, que no amor somos todos poetas, o que poderá ser verdade, visto que já vimos que a imitação é inata aos humanos. E, nesse momento aflorará todas as suas potências como se o ignorante fosse sábio, mas desconhecesse o que conhecia, se não se julga poeta para os assuntos do amor.

            No segundo caso é necessário estudar as artes literárias de todos os gêneros sem nenhuma razão pragmática, pois o poeta deve ser um conhecedor não daquilo que imediatamente convém – como as peças líricas, canções, baladas... –, mas de tudo quanto concerne e pode abranger a arte poética. Quando afirmo isso digo que as epopéias devem ser lidas sem nenhuma reação imediatista, porque o seu conhecimento deve percorrer tudo que a sua arte aborda, para descobrir e intermediar a razão dos cantos, tragédias e comédias. Por isso é nessas primeiras causas que adquirirá o maior conhecimento possível para escrever a mais bela poesia, como fala o Filósofo na metafísica que os artistas são os mais sábios que os homens apenas experientes (o que implica que em todos os casos a sabedoria depende sobretudo do conhecimento), e isso porque aqueles conhecem a causa e estes não.

 

 

VI. Da leitura, dos clássicos e dos autores

 

            Aquele que deseja ser poeta para qualquer fim deve ler tudo o que for bom, fazendo com temperança, guiado pela prudência e ordem, sem deixar levar pelos extremos de como padeceu o engenhoso fidalgo De La Mancha como nos conta Cervantes: Tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, de pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo. Segundo afirma Soisdão para o fidalgo:

 

Embora, senhor Quixote, as sandices

Vos tenham transtornado o cérebro.

 

            Deve-se entender desta forma: Todos os livros bons são clássicos, porém nem todos estes são bons. Os clássicos que não forem bons serão nocivos à nossa inteligência e os que forem bons, benéficos. Mas, primeiramente, deve-se entender o que é um clássico para diferenciá-lo do que é benéfico ou nocivo. Eis aqui as três principais características de um clássico: atemporalidade (resistência no tempo), universalidade (Amplitude do tema) e a genialidade do autor (dom particular).

            Agora, brevemente, uma explicação de cada um desses itens, primeiro: a atemporalidade. Um clássico precisa ser tema em qualquer época e transpassar qualquer vicissitude que ocorra com as civilizações e com os impérios. Quando um livro dura por cinqüenta, cem, duzentos... anos, pode-se intuir que é clássico, embora não seja necessariamente, por ainda carecer de análise essa afirmação. Diríamos pelo menos que não há como dizer se um livro é clássico ou não se fora publicado há poucos anos. Pois presume-se que ainda não haja análise muito apurada e criteriosa deste.



Escrito por Bernardo Veiga às 18h59
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O segundo item consiste na universalidade do tema – muito ligado à atemporalidade –, isto é, está além da mesquinhez de algum lugar. Mas a própria terra pode ser apresentada com um viés universal, como aconselha Tolstoi: se quer ser universal, cante a sua terra. O tema no nosso caso será o amor, embora tal tema esteja ligado a outros, como a felicidade, beleza e atração.

            O terceiro consiste em uma leitura agradável que desperte a atração do leitor, não por ser somente boa, mas por apresentar beleza e harmonia no que está escrito. Esta é a mais excelsa de todas as qualidades de um clássico.

             Há autores que se consagram com os seus clássicos, embora não seja assim com todos os livros. Será exposta uma lista de autores clássicos benéficos, sem expressar os pormenores da omissão dos nocivos, pedindo ao leitor que confie neste julgamento: Luis de Camões, Platão, São Thomas More, Petrarca, Aristóteles, William Shakespeare, Cícero, Homero, Dante Alighieri, C. S. Lewis, Chesterton, Ésquilo, Virgílio, Santo Agostinho, Francesco Petrarca, Sófocles, Hesíodo, São Tomás de Aquino, Dostoyevsky, Eurípides, Machado de Assis e Miguel de Cervantes.

             É verdade que há outros numerosos autores consagrados, mas se não fora exposto, fora por uma destas cinco causas: não são atemporais, ou universais, ou belos, ou deturpam a inteligência ou por ignorância do autor deste livro. Entenda que aqueles autores são bons para o nosso objetivo, isto é, a construção de uma poesia excelente, pois há tantos ótimos autores para outros numerosos fins.

            Por conseguinte cada um pode desejar ler o que quiser, uma vez que a estupidez possa guiar qualquer ação. Contudo, se for reto o pensamento de todos e seguido os objetivos que desejamos, começaremos por ler esses autores, base da cultura universal literário e da filosofia, herança de bons pretéritos tempos e de muita utilidade para os atuais poetas.

 

 

VII. Da utilidade da filosofia para o poeta

 

            A filosofia ensina ao poeta a ordem da forma de pensar, agir e até onde deve ser medida os seus esforços e ponderações. Tanto que é natural ao poeta admirar-se pela filosofia, como no caso de Platão quando ficou surpreendido com os ensinamentos de Sócrates, que “fê-lo” filósofo, com alto apuro literário nos seus diálogos.

            Se a filosofia é útil para o poeta veremos se é também para o nosso fim. O fim que desejamos é o amor, sendo a poesia o meio pelo qual se tenta induzir a criação deste. Portanto só haverá maior ou menor utilidade se a filosofia enaltecer ou deteriorar tal meio.

            Se concordamos que a arte desejada seja verdadeira, aprazível e harmoniosa saberemos a função filosófica conforme corresponda ou não com a poesia tida como excelente. Logo esta deverá possuir as três qualidades expostas para que enalteça e, a falsidade, o desgosto e a desarmonia, para que deteriore.

            Devemos estudar a natureza da filosofia: em grego filo quer dizer amante e sofia sabedoria, logo o filósofo é amante da sabedoria como melhor explica Jacques Maritain: É a sabedoria do homem enquanto homem, a sabedoria que convém ao homem por efeito do labor da razão: e é por isso mesmo que se consegue esta sabedoria com tanto esforço e de modo tão precário e que as pessoas que pretendem adquiri-la devem chamar-se mais propriamente filósofos do que sábios. É possível que alguma sabedoria digna possa ser tida como falsa, ou ter a sabedoria como ignorância e a ignorância como sabedoria? Isso é um absurdo, pois só há uma sabedoria e esta tão-somente deve advogar pela verdade, ou melhor, é a própria verdade. Mas será que essa poderá ser

Escrito por Bernardo Veiga às 18h59
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desgostosa ou pela essência causar desprezo ou repúdio? Claro que não, pois, embora cada Pessoa participe das mesmas ações indistintamente, é ao Verbo que lhe é atribuída o governo da sabedoria. O que, sendo atributo à divindade – desejado pelo que é –, pode causar desprezo ou repúdio?

            A sabedoria é o conhecimento daquilo que é, isto é, o conhecimento do ser da realidade. O real fora disposto com medida número e peso e se não fosse povoado de toda sorte de animais, mortais e imortais, não haveria forma de fazê-lo mais belo e mais perfeito. O que fora criado é harmonioso por beleza intrínseca do ser e pelo que se revela nos acidente. Logo, a sabedoria é harmoniosa, não porque visa ao harmonioso, porém por participar do que é, uma vez que o conhecimento do real participa da própria realidade.

            Se o filósofo é um amante da sabedoria e esta se revela verdadeira, aprazível e harmoniosa, portanto há nesta uma grande semelhança entre a poesia. O poeta deve amar tais qualidades para cumprir as suas funções e o filósofo por amar as próprias qualidades por si. O primeiro faz pela utilidade, o segundo pela honestidade, ainda que os fins se apresentem de formas distintas. Pois, ambos amam as qualidades e estas, indispensavelmente, estão para uma poesia excelente como o amor para cada amante. Por conseguinte é necessário ao poeta tornar-se filósofo pelo desejo visto e para o enaltecimento das suas poesias.

 

 

VII. Do enaltecer da filosofia e do poeta-filósofo

 

            O poeta não deve ser visto como descreve Sócrates na sua apologia: Os poetas mentem. A poesia precisa ser verdadeira e pela filosofia nunca fugirá do real. A verdade é bela, como assim é todo o conhecimento. Ora, se o belo, como desejado por ele mesmo, é aprazível e harmonioso, logo o belo sem harmonia não é belo, muito menos harmonioso.

            Porém, como deve ser compreendida a junção da natureza poética e filosófica em uma mesma pessoa? Assim: um poeta-filósofo deverá possuir somente as melhores qualidades de cada um. Ora, se os poetas mentem, o poeta-filósofo não deverá ser tido por mentiroso, por mais que seja próprio da essência do poeta, mas, quando aderir à filosofia, logo mudará a natureza. Assim como imaginamos distintamente a natureza de um homem e de um cavalo, na pessoa de Quírion vemos a união de ambas as naturezas. Não é homem, nem, contudo, um cavalo, é um homem-cavalo. Portanto, essências diferentes do homem e também do cavalo, por isso recebem um terceiro nome à sua natureza a qual chamamos de centauro.

            O poeta por tender mentir possui uma tendência natural à intemperança e desordem. O filósofo, porém, é contrário a estas, buscando, sobretudo a virtude. Sendo o filósofo exemplo de virtuosidade, logo se o poeta se tornar filósofo, não há nada a perder, assim como Camões dissera: Que mal me tirará o que não tenho. Pois, sendo a intemperança e a desordem males contrários à temperança e à ordem, aquele que não possuí aqueles só tende a ganhar, uma vez que estagnar-se é impossível devido ao ganho já adquirido pela boa vontade de tornar-se filósofo.

           

 

VIII. Da outra função filosófica

e da melhor definição poética



Escrito por Bernardo Veiga às 18h58
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A filosofia também servirá para conhecer e definir os elementos da poesia excelente. Entenda que a filosofia será um meio pelo qual se atinge estes e por conseguinte serão meios indiretos para o fim que desejamos, o ganho da paixão.

            Se dissermos que a poesia deve ser verdadeira, aprazível e harmoniosa a filosofia responderá definindo a verdade, o prazer e a harmonia.

            A verdade como dizia santo Agostinho, é aquilo que é ou não é aquilo que não é, e o que é só pode ser se houver no real, logo a verdade é aquilo conforme a realidade apresenta, ou não é o que esta não se apresenta. O prazer é aquilo que atrai por meio da beleza ou por ser um bem. Ora, se desejamos a arte para o nosso fim, logo é pelo belo que o prazer existirá e este será analisado a seguir pelo harmonioso, pois como o belo é harmonioso, a harmonia também é bela.

            A harmonia é como se manifesta a beleza e nesta idem. Porém, percebe-se que a harmonia não é o mesmo que uma unidade de coisas semelhantes, todavia uma unidade resultante da união de distintos como diz Erixímaco no banquete de Agáton: A harmonia resulta de coisas que antes eram contrárias, como o agudo e o grave, e que depois, pela habilidade da arte musical, se uniram. Mas compreenda que o somente grave ou o somente agudo não são harmoniosos, pois esta – a harmonia – não pode advir de elementos opostos que permaneçam opostos, pois coisas diferentes e contrárias jamais concordam entre si; e a harmonia, por sua vez, resulta de elementos opostos entre os quais se estabelece acordo. Na Cidade de Deus vemos com mais clareza no capítulo XVIII do décimo primeiro livro que diz sobre A beleza do universo na oposição de contrários. Diz o Teólogo que as chamadas, em retórica, antíteses constituem adorno dos mais brilhantes discursos. Depois vemos a citação de São Paulo como evidência dessa beleza: Com as armas da justiça para combater à direita e à esquerda, por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama. Como enganadores, sendo sinceros; como desconhecido, mas sendo bem conhecidos; quase moribundo, e eis que vivemos; como castigados, não mortos; como tristes, mas estando sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como não tendo coisa alguma, mas possuindo tudo. Transcrevo aqui as palavras que concluem o capítulo: Assim como a oposição desses contrários dá tom de beleza à linguagem, assim também a beleza do universo resulta de eloqüente oposição, não de palavras, mas de coisas. O livro do Eclesiástico expressou-o com meridiana clareza na passagem que diz: o bem é contrário ao mal, a vida, contrária à morte; assim o pecador é contrário ao justo. E observa que todas as obras do altíssimo vão de duas a duas, uma contrária à outro e por conseguinte belas e harmônicas.

            O melhor exemplo disso se encontra em raros casos em que se desejava primeiramente a filosofia e depois, por passatempo, por gosto ou habilidade nata, procura-se a poesia. Em são Tomás de Aquino que encontramos o melhor exemplo de poesia ornada pelos mais excelsos contrários (embora não o sejam realmente, mas transpassa cada vez mais na beleza do canto) Como vemos na terceira estrofe do Adoro te devote:

 

Na cruz estava oculta a divindade,

Mas aqui se esconde também a humanidade;

Creio, porém, e confesso uma e outra,

E peço o que pediu o ladrão arrependido

 

Ora, obviamente que humanidade e divindade não são contrários, porém os campos semânticos são distintos. A figura do ladrão exalta cada vez mais a beleza. Para um ladrão as qualidades que mais cabem não são exatamente as mesmas que lhe

Escrito por Bernardo Veiga às 18h58
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designariam a honra de tê-lo como bom ou fazermos nós seus admirados na fé e na humildade.

            Portanto a poesia deve ser verdadeira, sendo naturalmente bela, isto é, harmoniosa. E esta, o acordo entre os contrários, será mais bela na medida em que os contrários forem verdadeiros. O poeta deve exaltar o seu amado de maneira a não fugir da verdade, colocando todos os adornos dentro do seu talento. Deve fazê-lo sem se esquecer de que os contrários, tanto por apenas um termo como pelas idéias, não devem se contradizer, para não tornar mentirosa a arte, a fim de não assemelhar-mos à crítica platônica: O poeta faz simulacros com simulacros, assim afastado do vero a enorme distância.

 

 

IX. Da verdade entre os contrários

 

            Tudo o que é verdadeiro é não-contraditório. Demonstra-se isso facilmente, pois se A é uma contradição, B o que caracteriza por falsidade e C o que caracteriza por verdadeiro, todo A é B, todo B é não-C como todo C é não-B, logo todo não-A é não-B e, portanto, C. Para descobrirmos a verdade poderemos fazê-lo através da negação daquilo que não-é. Por exemplo: Dizemos que Deus é uma não-criatura e os santos anjos um não-criador, considerando o que existe como criados ou não-criados, criaturas e Criador. Todo o nosso raciocínio poderá resumir-se no afamado princípio da não-contradição de Aristóteles que afirma: Nada pode ser e não-ser, segundo o mesmo aspecto em um mesmo tempo. Se, pois, os contrários usados nos nossos versos fossem contraditórios pela teoria acima, logo não há razão para pô-los, ou melhor, deve ser imediatamente desprezados ou ignorados. Veremos um exemplo e estudaremos se seus versos são verdadeiros ou contraditórios. Uma poesia repleta de antíteses e harmonia; um soneto de Shakespeare:

 

Como hei de restaurar-me na bonança

Se órfão da graça do repouso vi-me,

Pois a opressão do dia a noite alcança,

Da noite o dia, e dia noite oprime;

 

Que ambos, embora em natureza opostos

Deram-se as mãos para me dar tortura:

Um dá-me a dura pena, outro desgostos,

Que este penar longe de ti mais dura.

 

Digo que és luz para agradar ao dia,

E, se há nuvens, que podes removê-las;

Louvo também da noite a tez sombria

Douras o céu se não houver estrelas.

 

Mas cada dia, o dia a dor aumenta

E cada noite, a noite inda acrescenta.

 

Repare além da métrica perfeita e da forma harmoniosa do soneto, que será exposto posteriormente, há uma amplitude dos termos que dependerá do talento do poeta. Não há contradição alguma, pois o dia uma vez é tido por uma coisa em si, outra como substância corpórea e uma outra por qualitativo temporal. E o mesmo para a noite. O

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dístico do final pode apresentar uma aparente contradição se não for analisado ambos por aspectos diferentes; em Mas cada dia quer-se dizer que no decorrer dos tempos em que há claridade. Em o dia a dor aumenta, agora o dia é agente da ação aumentar e o objeto: a dor. No último verso ocorre um caso semelhante, porém com o termo noite há uma elipse do objeto por respeito à estética métrica.

            Portanto, para descobrir se os versos são verdadeiros (pois assim devem ser) deverão ser investigados com o princípio da não-contradição. Deve-se entender que realmente são importantes essas aparentes contradições, uma vez que realçam as qualidades do amor, indispensável ao poeta, mostrando que o amor por natureza é aparentemente contraditório, como mostraremos:

 

 

X. Do mito de Eros

 

            Comumente de forma pragmática dizemos que as histórias não refletem em nenhum âmago da verdade. Porém esquecemos que o poeta, embora minta, não o faz a todo o momento, pois um excesso de mentiras causa uma repulsa natural, por não se apresentar bom e verdadeiro. O mito do nascimento de Eros revela o que à primeira vista entende-se por contradição, no entanto tais qualidades são momentâneas e não duram em um mesmo aspecto em um dado momento.

            Eros é apresentado como filho de um pai sábio e altivo – Poros, a Riqueza – e de um mãe sem instrução nem iniciativa – Penia, a Pobreza. Como narra a sacerdotisa Diotima: Por influência da natureza que recebeu do pai, Eros dirige a atenção para tudo que é belo e gracioso; é bravo, audaz, constante e grande caçador; está sempre a deliberar e a urdir maquinações porém por influência materna é pobre, e muito longe está de ser delicado e belo, como todos vulgarmente pensam. Eros, na realidade, é rude, é sujo, anda descalço, não tem lar, dorme no chão duro, junto aos umbrais das portas, ou nas ruas, sem leito nem conforto (Banquete-Platão). Vemos que o amor é passivo de atitudes contraditórias manifestadas em circunstâncias diferentes. Ora, na construção do que é contraditório exaltamos o amor, não por ser o amor o maior exemplo de beleza, mas por sê-lo contraditório aparentemente. Demonstra-se dessa forma: Se tudo o que for contraditório não existe e o amor existe, logo ele não é, nem deve ser contraditório. No entanto essa fantasia contraditória que o reveste não o torna belo por si mesmo, porém o faz pela contradição. Portanto o amor não é belo por si próprio, mas o é pelos seus ornamentos os quais são tidos por distintos entre si como a rudeza e a graciosidade, a pobreza e a riqueza e mediocridade e a abundância.

 

 

XI. Da necessária forma para a poesia

 

            Findadas essas definições sobre o amor e como deverão ser expostas as idéias da poesia, devemos estudar se existe uma forma melhor de se expressar na poesia, se é necessária a métrica, a rima ou determinado números de versos ou silabas para uma maior harmonia, isto é, beleza.

            Começaremos dizendo que há poesias que carecem totalmente de forma, como as pós-modernistas que segundo seus autores: tentam explicar o tudo através do nada. Criam – eles – poesias sem versos e informe, papel em branco e nada escrito. Atrevo-me a dizer sem sombra de dúvida, e com humildade devida, que isso não deve ser chamado de poesia, ou melhor, nem arte, pois o artista é criador da arte e o nada não pode ser arte, muito menos meio de onde venha o tudo. Assim esse papel em branco

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mostra que o autor, ou é um demente que acredita ser possível do nada a criação do tudo, passando-se por Deus; ou é um enganador que mente para se vangloriar, o que o torna mais vil, pois não há motivo algum para vangloriar-se, muito menos sobre uma mentira; ou ele piamente acredita, por ignorância, que é capaz de tal, isto é, o impossível. Deve-se entender que é necessária uma forma, porque a sua ausência não é poesia; é imprescindível a uma arte, como esta, possuir forma, pois é da forma que surje a harmonia.

 

 

XII. Da melhor forma poética

 

            Devemos investigar se se necessita de forma, e caso haja, se há alguma que mais se harmonize.  Para começar-mos esse estudo precisamos entender que a forma está diretamente relacionada com o número de estrofes, versos e sílabas. Digo que não há forma perfeita para pô-la em versos, porque a forma perfeita não pode ser expressa por uma natureza limitada e subordinada ao pecado.

            Não podemos dizer que entre a ode, a elegia, o soneto, a canção, ou outras manifestações líricas há aquela que se manifeste melhor, porém – como fora visto – será a melhor para um determinado fim, servindo-se como o mais excelente de todos os meios. Ora, o fim que desejamos é a criação da paixão, não outro senão este, logo a melhor, segundo tal critério será aquela que melhor alcança esse fim, pois como disse Voltaire: Todos os gêneros são bons, afora o gênero tedioso.

            Digo de antemão que a melhor forma sem dúvida é o soneto. Direi o porquê de sê-lo o melhor sem, no entanto, ter as outras como as piores, pois tão-somente visam fins diferentes ou esse mesmo, porém com menos eficácia. O soneto é-nos melhor por apresentar uma extensão mínima e suficiente para despertar atração que visamos. Não desejamos escrever canções longas, mas o necessário para fazê-la harmoniosa e, por conseqüência, bela. Prolongar o que pode ser dito em poucas palavras faz parte da arte retórica a qual não estamos estudando, muito menos nos propomos a tal. Portanto, podemos dizer que o soneto deverá ser a melhor forma para o nosso fim, porque “condensa” em quatorze versos o que é digno de grandes estudos, de um tratado próprio. Isso quer dizer que aquele que não for fecundo nas idéias, harmônico na forma, sonoro no ritmo não deve ser tido como um bom soneto, isto é, o que não é objeto do nosso estudo.

            Agora se deve entender o porquê do número quatorze ser um número apreciável. O quatorze é admirável pelas suas partes, pois as três partes do quatorze são: a décima quarta, a sétima e a metade. Digo isto porque todas apresentam qualidades relativas ao nosso fim. Ora, a sétima parte, isto é, o numeral dois é justamente o que responde pelo amante e amado, pois sem o amado não há amante nem amante sem amado, logo a sétima parte é necessária para haver um elo entre duas partes: de quem ama e de quem é amado. A décima quarta parte mostra que, embora sejam duas pessoas distintas pela sétima, não passam mais do que uma só carne. Sabemos que é natural do soneto a união entre os amantes, como esta é natural. O que pela sétima era distinto, na décima quarta torna-se um, como uma é esta parte. A metade porém, como natural divisão de qualquer número, divide a própria unidade e fá-la duas distintas. Nela vemos a representação da própria divindade cuja extensão é infinita, pois a metade de quatorze é sete e este, segundo Santo Agostinho, é a soma do primeiro número ímpar completo e o primeiro par, o quatro. Por esse motivo, o sete é com freqüência usado pela universalidade das coisas, como na seguinte passagem: Sete vezes cai o justo e outras tantas se levanta, que é o mesmo que dizer: Caia quantas vezes cair, não perecerá. Devemos entendê-lo

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não dos pecados, mas das atribulações que levam à humildade. E: Sete vezes por dia te louvarei. É o que noutra parte se diz de maneira diferente: Sempre estará teu louvor em minha boca. Nas divinas Letras encontram-se muitos casos em que (...) é costume empregar-se o número sete pela universalidade de alguma coisa. Por isso deve-se entender que a metade, o que divide em dois, fará da unidade passada uma desunião, pois quem mesmo o faz é Deus. Digo isso, porque assim afirma os primeiros santos evangelhos quando dizem que os que serão julgados dignos do século futuro e da ressurreição dos mortos não terão mulher nem marido (Lc 20, 35). Portanto a forma tradicional de quatorze versos é a melhor para o nosso fim, por apresentar as partes que o justificam pela harmonia a qual cada uma indica por si mesma e entre as outras.

            Investigaremos mais apuradamente as estrofes e os versos da forma tradicional, não da forma arcaica, usada não comumente por Dante. Há duas principais formas de sonetos, a mais comum: dois quartetos iniciais e dois tercetos terminais, desenvolvida sobretudo por Dante, Petrarca e Camões; a outra: três quartetos iniciais e um dístico terminal, desenvolvida por Shakespeare. A primeira é mais harmoniosa, pois os quartetos e tercetos rimam entre si; a segunda, contudo dispõe ao autor maior liberdade para a criação de novas rimas, ao invés de para cada rima ser necessário a mesma em outro quarteto, pois não há necessidade de rimar qualquer estrofe entre si.

            Entre o número de sílabas se destacam os decassílabos (dez sílabas) e os alexandrinos (doze sílabas). Estudaremos rapidamente sobre os decassílabos por se apresentarem mais tradicionais na história dos sonetos.

            Embora não seja nossa intenção declamá-los, devemos escrevê-los com a melhor sonoridade, pois aquele que lê cria a melodia poética sem se dar conta. Quanto à sonoridade, são classificados de heróicos e sáficos, conforme as sílabas tônicas forem combinadas em determinada ordem. Os versos heróicos são encontrados em todas as oitavas dos Lusíadas, em que as sílabas poéticas tônicas são a sexta e a décima como nesta oitava:

 

            Vereis amor da tria, não movido

            De prêmio vil, mas alto e quase eterno,

            Que não é prêmio vil ser conhecido

            Por um pregão do ninho meu paterno.

            Ouvi; vereis o nome engrandecido

            Daqueles de quem sois senhor superno,

            E julgares qual é mais excelente,

            Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

 

Os sáficos, não mais importantes, produzem sonoridade distinta dos heróicos e soam de forma mais lenta. Apresentam as sílabas tônicas na quarta, na oitava e na décima. Carecem de numerosos exemplos, todavia para não faltar tanto com a justiça eis um exemplo de um verso de Cruz e Souza: Vozes veladas, veludosas vozes...

            Por conseguinte, deve-se entender que não é necessária uma aptidão natural para fazer belas poesias, como afirma Agáton que Eros é tão excelente poeta, que pode fazer poetas daqueles a quem ama. E é por isso que todos – mesmo os que antes eram as pessoas mais prosaicas deste mundo –, todos se tornam poetas quando Eros os ataca. Este poder não é natural do amante, mas unicamente devido a Eros, no entanto se houvera antes tal dom no amante, Eros somente intensifica o que já existe.

 

 

XIII. Do contato pela arte antes do namoro



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Após conhecermos a melhor forma de poesia para o nosso fim, devemos agora nos restringir em investigar as maneiras pelas quais o amado possa tomar conhecimento desta. Há três maneiras: uma antes, outra durante e uma outra depois de um possível relacionamento. Digo possível, porque caso nem haja um namoro não há razão para fazer uma ação que se afigura fora do tempo. Pois como é possível afirmar que será durante um momento que não existiu ou muito menos depois deste? Embora, podemos dizer que certamente antes é possível, porque todo tempo é anterior a qualquer momento que não aconteceu, ou nem acontecerá. Em resumo veremos as formas de como o amado conhecerá a arte do amante, pois com ou sem poesia, poderá haver o amor ou não, sendo a arte tão-somente um dos meios, não o único nem imprescindível.

            A primeira forma é a que exige uma maior perda da vaidade pela coragem. É simplesmente o ato de entregar a poesia pessoalmente, olhando para os olhos do amado, sentindo o calafrio natural de uma vergonha irracional. Precisa de muita intrepidez. Não é, porém, necessário permanecer e esperá-lo para ler a poesia, na verdade o ato é o de entregar e nada mais. Fale o indispensável por apreço ao amado e depois saia naturalmente. A segunda forma é a que exige um elo entre ambos. Este elo deverá ser de extrema confiabilidade. Não há necessidade de muita coragem, pois esta será devida a quem entrega. Pague se for necessário, pelos serviços deste. Ambas as formas são necessárias que se assine com o nome legítimo do autor. A terceira não exige coragem alguma, mas um pouco de sagacidade. Esta é muito semelhante às outras, porém distinta quanto a um pormenor. Esse pormenor consiste em assinar a poesia com um pseudônimo de maneira que o amado não reconheça a figura do amante nem nominalmente. Deve-se revelar o quanto antes, para não se passar por um admirador oculto, preso na sua vaidade e nos seus desvarios. Aquele que é possuído por Eros não deve se esconder se julgar que é um bem digno do amado, pois ocultar-se é restrito ao egoísmo alimentado pelo orgulho de velar-se em uma alegoria de ter consigo o amado sem desejar os meios para tal. Dentre as três formas a primeira se apresenta a melhor por necessitar de maior intrepidez. A terceira por pouco precisar, é a pior e a segunda não se apresenta melhor do que a primeira nem tampouco pior do que a segunda, mas tão-só entre elas, a forma intermediária.

 

 

XIV. Do resultado da arte

 

            Se, por Providência divina o amado não se tornar também amante com a poesia, deve-se ignorar toda a nossa investigação sobre esta e procurar outro meio para a atração ou justamente outro amado se ainda, de alguma forma, for necessário. Se pela beleza da arte expressa na poesia o amado se tornar amante, logo o primeiro amante dever-se-á alegrar pelo bem conquistado. Pois, embora os amantes não sejam bens uns para com os outros, o seu bem devido é o próprio amor.

 

 

XV. Do contato pela arte durante e depois do namoro

 

            A poesia como meio deverá ser usada apenas uma vez. Vimos quando fora usada antes do relacionamento, agora veremos que, já havendo um relacionamento entre os enamorados, se haveria alguma utilidade para aumentá-la. Ou melhor, enraizá-la, visto que não basta somente a criação, pois o ser é aquilo que é e este só é se for o que é enquanto permanecer sendo o que for. O ser das coisas precisa permanecer constante

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para que não haja alteração e este precisa de uma renovação continuamente dada pelo Ser imutável, que a poesia tentará ajudar.

            Quando já há um namoro não existem motivos para encabular-se, pois o que mais causa vergonha é o sentimento da vaidade ferida pela negação de Eros, mas neste caso é impossível em juízo normal acabar um namoro por causa da arte, sendo esta minimamente bela. Pelo contrário seria mais natural intensificar o relacionamento pelo que fora exposto no livro segundo. A forma que há é única, pois não há razão em entregar por outrem a quem lhe é íntimo e tornar-se admirador secreto de quem não é secreto mas somente admirador, é no mínimo lúdico. Assim sendo, não há males em mostrar ao cônjuge uma bela arte – sendo autor dela –, pelo contrário traz muitos bens, tanto para quem aprecia como para a própria paixão.

            Mas será que há utilidade em usar da arte somente depois do namoro? Haverá em casos raríssimos em que realmente será comprovado que não há mérito algum humano em qualquer paixão. Se não fora usada para revelar Eros, nem fora usada para enraizá-lo e o amado desconhece completamente tal arte do outro custará muito a ser eficaz. Ora, ninguém que por uma variação de ódio e desgosto termina o namoro com o objetivo de reatá-lo pela arte futuramente. Caso reate não será pela beleza artificial, nem pelo dom do autor, mas antes de tudo porque o amante não deveria estar muito decidido quando rompeu o namoro, ou houve o término contra a sua vontade. A arte serviria de meio, porém poderiam ser usados muitos outros pelo fato do outro ainda amar e ter em apreço a paixão.

            Há duas formas para a manifestação da poesia. A primeira quando for entregue pessoalmente e a segunda por outrem. A primeira é a melhor, pois necessita de mais intimidade, além de não necessitar de tanta coragem, porque embora separados, mutuamente se conhecem. A segunda não diria que é pior, porém não parece ser devida, pois o tempo de namoro forneceu-lhe amizade suficiente para não fazê-lo, contudo sem sombra de dúvida é muito melhor do que uma manifestação de admiração oculta depois do término da paixão. Portanto deve-se evitar terminar o relacionamento com o auxílio de vários meios legítimos, inclusive a arte, porém se houve término e não fora usada a poesia, esta servirá como último recurso e caso não seja eficaz não será mais necessário estes estudos para esta paixão.

            Fora exposto o suficiente quanto à utilidade da arte antes, durante e depois da paixão. Este livro já está ficando longo demais e o assunto não parece mais extenso em relação à poesia, à arquitetura e função. Deve-se ter em consideração que a criação é restrita ao criador e aqui fora mostrado os melhores meios para tal, não à obra criadora. Cada artista com a sua arte e cada arte para o seu artista. Ainda que a extensão artística seja ilimitada em compreensão e fins, para as nossas investigações se resume a isto.

 

 

 

 

LIVRO QUINTO

Questão helênica

 

 

 

I. Introdução



Escrito por Bernardo Veiga às 18h56
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Para compreendermos as conseqüências e o reto uso de cada regra geral, é necessário observar os contratempos que se apresentam nos casos particulares e, por sua vez, as peculiaridades restritas a estes que muito nos ensinam.

 

 

II. Da apresentação do diálogo

 

            Investigaremos a história da mais bela amada de todas as gerações, embora não se saiba ao certo a sua autenticidade. Seu nome é Helena. Nascida da mortal Leda e de Zeus (evidenciando a inverossimilhança). Possuía uma beleza extraordinária, tinha a capacidade de seduzir o homem que desejasse. Casou-se com o grego Menelau sem amá-lo e depois fugiu com a ajuda e por amor do troiano Páris. Para resgatar Helena, Menelau e outros, movidos pelo juramento de nunca abandonar quem se casasse com a semi-deusa, investiram contra Tróia e após dez anos venceram a guerra. Ela, contra a sua vontade voltou ao trono de Menelau e viveu na terra longe do seu verdadeiro amor, Páris.

            Não investigaremos se fora por sua culpa a morte de tantos, pois já fora exposto por Górgias. Nosso objetivo é observar se é culpa do belo amado os sofrimentos do amante, quando não correspondido e os seus pormenores. Para tanto será exposto um diálogo de autoria própria, porém com muitas falas retiradas de trechos de outros autores, como ficará evidenciado. Sem precisar de exuberante habilidade artística, porém tão-só a retratação do bom, do belo e do justo nela já contida. Eis a apresentação do diálogo: passa-se antes do rapto de Helena e do seu encontro com Páris, quando Menelau irá tomá-la por esposa.

 

 

III. Diálogo

 

Esparta. Capital da Lacônia.

Entra Menelau, Helena, Agamenon (irmão de Menelau) e Clitemnestra (irmã de Helena e esposa de Agamenon).

 

MENELAU: – É tanto pedir que mo ames, se amar é tão gozoso e invejável? Pois sabes que

           

            Não tenho paz nem posso fazer guerra;

            Temo e espero e do ardor ao gelo passo

            E vôo para o céu e desço à terra;

            E nada aperto e todo o mundo abraço.

 

            Prisão que nem se fecha ou se descerra,

            Nem me retém nem solta o duro laço,

            Entre livre e submissa esta alma erra,

            Nem é morto nem vivo o corpo lasso.

 

            Vejo sem olhos, grito sem ter voz;

            E sonho perecer e ajuda imploro;

            A mim odeio e a outrem amo após.



Escrito por Bernardo Veiga às 18h55
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Sustento-me de dor e rindo choro;

A morte como a vida enfim deploro

E neste estado sou, Dama, por Vós.

 

E nem digas que amas outro, pois teus olhos não revelam amante algum. E se choras, muito mais me faz de fraco com a tentação de te esquecer padecendo sem sofrer. Se és fiel a Eros, dai-me o que me deves, pois se por esposa tens meu amor, quanto mais na torpeza da minha libido. Privo-me de olhares fúteis e da vã curiosidade, não por honrada continência, mas por devoção a Eros. Fujo de todos os belos, aprazíveis e deleitáveis desta multidão de encantos que acrescentaram os homens às seduções da vista, com a variedade das artes, (...) com pinturas e esculturas variadas, com que ultrapassam o uso necessário moderado e piedosa representação dos objetos. Porque as belezas que passam da alma para as mãos do artista procedem daquela Beleza que está acima das nossas almas e pela qual a minha alma suspira de dia e de noite, mas os artistas e amadores destas externas tiram desta suma Beleza apenas o critério para apreciarem. Acovardo-me como escravo da liberdade, tornando servo de Eros para receber o seu apreço. Sacrifico a minha tenra idade por minha vontade e sem castigo algum. Se pela dor que me faz cego sou livre, uso do que sou para enaltecer o meu amor. E o que te levas a não me amar será fruto da minha morte. Se morro é por prazer, fugindo dessa dor que corrompe o que é reto e torna torpe, atiça e envenena com os encantos que desconhece até os mais nobres deuses. (pega uma faca ergue contra o peito.) Quem terá da Sorte sempre a fortuna? Venha Hades horrendo.

 

            E o porteiro infernal dos três semblantes

            Coos outros monstros mil extravagantes

            Soltem-me o “de profundis”, pois entendo

            Ser esta a pompa única devida

            Do amante suicida ao caso horrendo

            Canção desesperada, não te queixes

            Quando a chorar na solidão me deixes;

            Se a floria dela no meu mal consiste,

            E o perdimento meu lhe traz ventura,

            Já minha sepultura é menos triste.

 

AGAMENON: – Pare! Se não importas com a tua honra, lembre-te que vens de Atreu e dele vem meu sangue. Se manchas o que te pertence, destrói tanto o teu nome como de qualquer atrida. Guarde o teu ímpeto! Antes viver rei na traição do que governar sozinho. Não ame quem te fere e não fira quem te ama. Meu irmão, Hera é testemunha de que te desejo tamanho bem, que corrijo qualquer mal que te macula. Se peço o teu silêncio é no desejo de que sejas louvado, pois clama o silêncio teu louvor e enche-te de glória por ser filho de Atreu.

MENELAU: – Mas não me ama esta mulher e tão cedo será minha esposa.

AGAMENON: – Quem tudo pode ter é tão-somente Zeus. Se iras pelas tuas paixões pérfidas é por zombar da realidade.

MENELAU: – Se o amor é real, por que não zombar? E por desprezo ao real, desfiro um forte golpe e liberto desta carne a agonia. Morro não pela corrosão do tempo, honrado em batalha, ou traído pelo poder, mas pelo belo que me move a amá-lo e quanto mais apreço lhe ofereço, mais me ignora. Se houve homem feliz jamais lhe vira, pois se em Helena toda formosura se concentra é fora que toda tristeza se diverge. Não por vileza, ou infâmia, mas tão-só por amor.



Escrito por Bernardo Veiga às 18h55
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HELENA: – Não! Por favor, eu te imploro, não faça isso! Se assim fez-me o céu formosa, segundo vós outros encareceis; e tanto, que não está em vossa mão o resistirdes-me e, pelo amor que me mostrais, dizeis, e até supondes, que esteja eu obrigada a corresponder-vos. Com o natural entendimento que Zeus me deu, conheço que toda a formosura é amável; mas não entendo que em razão de ser amada seja obrigada a amar, podendo até dar-se que seja feio o namorado da formosura. Ora, sendo o feio aborrecível, fica muito impróprio o dizer-se: "Quero-te por formosa; e tu, ainda que eu o não seja, deves também amar-me". Mas, ainda supondo que as formosuras sejam de parte iguais, nem por isso hão de correr iguais os desejos, porque nem todas as formosuras cativam; algumas alegram a vista, sem renderem as vontades. Se todas as belezas enamorassem e rendessem, seria um andarem as vontades confusas e desencaminhadas, sem saberem em que haviam de parar; porque, sendo infinitos os objetos formosos, infinitos haviam de ser os desejos; e, segundo eu tenho ouvido dizer, o verdadeiro amor não se divide, e deve ser voluntário, e não forçado. Sendo isto assim, como julgo que é, por que exigis que renda a minha vontade por força, obrigada só por dizerdes que me quereis bem? Dizei-me: se, assim como o céu me fez formosa, me fizera feia, seria justo queixar-me eu de vós por me não amardes? E demais, deveis considerar que eu não escolhi a formosura que tenho; que, tal qual é, o céu ma deu gratuitamente, sem eu a pedir nem a escolher; assim como a víbora não há de ser culpada da peçonha que tem, posto matar com ela, em razão de lhe ter sido dada pela natureza, tampouco mereço eu ser repreendida por ser formosa, que a formosura na mulher honesta é como o fogo apartado, ou como a espada aguda, que nem ele queima, nem ela corta a quem se lhes não aproxima. A honra e as virtudes são adornos da alma, sem os quais o corpo não deve parecer formoso, ainda que o seja. Pois se a honestidade é uma das virtudes que o corpo e a alma mais adornam e aformosentam, por que há de perdê-la a que é amada por formosa, para corresponder à intenção de quem, só por seu gosto, com todas as suas forças e indústrias, aspira a que a perca? Sou fogo, mas apartado; espada, mas posta longe. Aos que tenho namorado com a vista, tenho-os com as palavras desenganado; e se os desejos se mantém com as esperanças, não tendo eu dado nenhuma; e se me objeta que são honestos os teus pensamentos, e que por isso estou obrigada a corresponder-lhes, digo que, quando, me descobriu a bondade dos teus intentos, eu lhe respondi e declarei que os meus eram viver em perpétua soledade, e que só a terra gozasse o fruto do meu recolhimento, e os despojos da minha formosura; e se tu, com todo este desengano, queres aporfiar contra a esperança, e navegar contra o vento, que muito que te afogasse no meio do gólfão do teu desatino!? Se eu o entretivera, seria falsa; se o contentara, desmentiria a melhor intenção e propósito. Desenganado, teimas, desesperas sem ser aborrecido. Vede agora se é razão que da tua culpa se me lance a mim a pena. Queixe-te o enganado, desespere-te aquele a quem faltaram esperanças que tanto te prometiam. O que eu chamar, confie-se; o que eu admitir, ufane-se; porém não me chame cruel nem homicida aquele a quem eu não prometo, nem engano, nem chamo, nem admito. O céu por ora não tem querido que eu ame por destino; e o pensar que hei de amar por eleição é escusado. Este desengano geral sirva a cada um dos que me solicitam para seu particular proveito; e fique-se entendendo daqui avante que, se algum morrer por mim, não morre de zeloso, nem desditado, porque quem a ninguém quer a ninguém deve dar ciúmes; desenganos não se devem tomar por desdéns. O que me chama fera e basilisco deixe-me como coisa prejudicial e ruim; o que me chama ingrata não me sirva; quem me julga desconhecida que me não conheça; quem, desumana, que me não siga. Esta fera, este basilisco, esta ingrata, esta cruel, e esta desco­nhecida, nem os há de buscar, nem

Escrito por Bernardo Veiga às 18h55
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servir, nem conhecer, nem seguir de modo algum. Se eu conservo a minha pureza na companhia das árvores, por que hão de querer que eu a perca na companhia dos homens? Tenho riquezas próprias, como sabeis, e não cobiço as alheias; tenho livre condição, e não gosto de sujeitar-me; não quero nem tenho ódio a pessoa alguma; não engano a este, nem solicito a aquele; não me divirto com um, nem com outro me entretenho. (...) Os meus desejos têm por limites estas montanhas; e, se para fora se estendem, é para contemplarem a formosura do céu. Mas casarei, não pelo meu amor, mas por amor à vontade do meu pai.

AGAMENON: – Nada há para resmungar! Terás uma esposa!

MENELAU: – Qual mérito há em amar tão indignamente. Se fosse pelo feio o meu amor, a recíproca seria a felicidade perfeita pela troca do desejo. O amante não é feliz pela magnanimidade do amado, porém na recíproca dos amores.

CLITEMNESTRA: – Mas amarás o que é feio e acaso desprezarás o que é belo?

MENELAU: – Se fosse a fealdade o objeto do meu amor, por que não?

CLITEMNESTRA: – Porque amar o feio é impossível. Por isso que amas fielmente a minha irmã, ou a amarias se não fossem os deuses generosos para com ela?

MENELAU: – Quem julgaria o amor se amo não o que é visto, mas tudo que afirmam e negam os meus sentidos. Sensível não é somente a sua beleza, pois não amo uma imagem, mas plenamente o que é pleno por altiveza.

AGAMENON: – Desista do suicídio, ou queres que zombem de ti cantando:

 

            Morreu às mão do rigor

            De uma esquiva e linda ingrata,

            Com quem ser reino dilata

            O tirano deus Amor.

 

Se todos sentissem as vergonhosas dores da vilania jamais agiriam reprobamente.

MENELAU: – Mas meu irmão, não serei como os falsos prudentes que fogem da guerra por temerem a morte e o sofrimento. Se por covardia chamam tal ato, que clamem o meu por intrepidez.

AGAMENON: – Se temeridade é intrepidez que os covardes sejam louvados, pois todos seriam corajosos nesse afã pela dignidade! Covardia é temer o sofrimento de cada dia, agüentar a dor e o lamento do justo. Pois, se diferente, todo amor é condenável, sendo injusto quando indevido e justo quando não é amor. Guarda para ti o que possui e ama-a também por ela, como se nada houvesse além para ser amado e tudo que possui já seria tudo o que existe. Ou não dizes que tens amor maior que a orbe? A morte só trará um longo arrependimento e tudo que fizeste será reduzido a um único ato. Quem ama é fiel a tudo que pede a amada, faz-se de escravo e se submete a favores ridículos e impróprios, mas unicamente pelo desejo do seu objeto. Se Helena dissesse: “Morra! Vá para o Hades que tanto deseja”, não mereceria que lhe amasse e se não é devido, não a amaria e ninguém perde a vida por quem não ama. Se bradasse: “Não! Por favor, eu te imploro, não faça isso!”, merece o teu amor se o possui e, embora desconheças e ela negue amar-te, ainda que por bondade ou misericórdia, certamente o ama. (Para Helena.) Helena, se pela natural união de cada par não for Eros quem te movas, que seja Atena a tua guia, pois sábio é quem recebe Eros por devoção a Atena. Casem-se! Por Zeus que nos dá vida! Por Hera que nos governa! Sejam temerários do destino e amantes da tua beleza gerada pelo amor do amante na alma, pois as emanações da beleza, entrando pelos através dos quais – como lhe é natural – atingem a alma, volta esta ao belo, estende as asas, inundando também de amor a alma do amado. Ele ama, mas sem saber o quê. Nem sabe, nem pode dizer o que aconteceu consigo; assim como

Escrito por Bernardo Veiga às 18h55
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um contaminado de oftalmia desconhece a origem do seu mal, assim também o amado, no espelho do amante viu-se a si mesmo sem dar por isso. Na presença do amado a dor do amante se esvai, e o mesmo sucede com este na presença daquele. Quando o outro está longe, o amante sente tristeza, e da mesma forma esta sacode o amado, porque ele abriga o reflexo do amor – acreditando, contudo, que se trata de amizade, e não de amor. Embora com menor intensidade, deseja aproximar-se do outro, vê-lo, toca-lo, acariciá-lo, deitar-se ao seu lado e, assim, não tardará a satisfazer o seu desejo. E como genuíno desejo da união, escolham o que mais lhes aprouver, contudo não se esqueçam que Nêmesis é vingativa e por ordem de Zeus, não tolera a má escolha e o desvio do bem. Não tenho mais a dizer, somente espero a resposta.

MENELAU: – Certamente, meu irmão, nos casaremos.

 

 

IV. Da culpa da aflição do amante

 

            Após o diálogo, devemos investigar a fala de Helena retirada de uma circunstância semelhante à narrada por Cervantes no Dom Quixote na personagem de Marcela. E, o que fora inicialmente dito por Menelau retirado de um soneto de Petrarca, em que explicita o sofrimento do amante.

            Primeiramente deve-se entender que por si só ninguém é culpado daquilo que, sendo bom ou mau, o faz involuntariamente, pois aquele que fica ébrio e comete um pecado, antes de tudo será pecador pela intemperança, embora agrave devido as suas conseqüências. Quem é culpado da beleza que possui senão os progenitores e a forma dada por Deus? A culpa nesse caso não deve ser entendida com uma ênfase negativa, porém simplesmente como causa. Diremos que seus pais e Deus são a causa da sua beleza e, se a beleza for a causa dos sofrimentos do amante, logo diremos que por meio do belo criado os pais e Deus são causadores da aflição do amante.

            Sabemos que não é culpa do amado a aflição do amante, contudo falta investigarmos se é culpa da beleza desse. Caso não fosse belo não haveria manifestações de Eros; uma vez que Eros seria a causa da aflição, não haveria sofrimento com a ausência do amor. Porém não podemos afirmar que Eros é a única causa sem avaliar pela parte de quem é passional na ação, o amante. Já investigamos nos livros precedentes que várias são as causas da aflição e todas elas são derivadas de uma falta de paz, ou pela tibieza ou nos escrúpulos. Ora, se toda aflição provém de um desespero e este é derivado de um pecado – mortal ou venial –, logo há outra causa para o sofrimento do amante, a falta de proximidade com Deus.

 

 

V. Da finalidade do belo criado

 

            Quando nos foi ensinada por Deus filho a oração por antonomásia, o Pai-nosso, a sua sabedoria foi-nos revelada de forma ainda mais excelsa no seu término quando diz: e não nos deixes cair em tentação (Mt 6, 13). Não é uma petição para que nunca mais sejamos objetos de tentações, porém, quando houver, que não decaiamos como os anjos tortuosos. Deus não faz o mal, mas permite que seja feito por amor aos homens e por apreço ao amor que lhes dera, com a liberdade e o direito de fidedignidade. Segundo o Apóstolo, Para aqueles que amam a Deus, tudo concorre para o bem (Rom 8, 28), quer dizer que a própria beleza das criaturas também deve concorrer para tal. Não deve ser para quem deseja a santidade ser motivo de orgulho desejar a beleza criada como afirma santo Agostinho que não se devem superestimar nem a beleza, nem a grandeza,

Escrito por Bernardo Veiga às 18h54
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nem a fortaleza corporal e que os bens espirituais e imortais, que o beatificam – o homem –, privativos dos bons, não comuns a bons e maus, são muito superiores e estáveis. É certo que a beleza é bem e dom de Deus, mas Deus também a dá a quem é mau; precisamente para os bons não considerarem grande bem. A beleza do corpo, bem criado por Deus, mas temporal, ínfimo e carnal, é mal amado, quando o amor a ele se antepõe ao devido a Deus, bem eterno, interno e sempiterno. Para aqueles que amam a Deus o que o homem vê não é o que importa: o homem vê a face, mas o Senhor olha o coração (1Sam 16, 7).

            A beleza criada nos ensina justamente a não tê-la com tanto apreço, pois o que é belo não supera a Beleza que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64, 4). Ademais, depois do Juízo final, quando os santos receberão os seus corpos gloriosos, a beleza de cada um será muito superior a da beleza criada antes do Juízo. Por conseguinte, aquele que ama desproporcionalmente a beleza criada é tolo, pois busca um prazer egoísta, amando o que foi por Deus criado ao invés de amá-lo. Mas sobre esse assunto também fora exposto no livro segundo e nada mais nos resta quanto ao amor desordenado à beleza criada.

 

 

VI. Da mortificação do amante

 

            Quando fora dito (parte através das confissões de Santo Agostinho) por Menelau: Privo-me de olhares e da vã curiosidade, não por honrada continência, mas por devoção a Eros. Fujo de todos os belos, aprazíveis e deleitáveis desta multidão de encantos que acrescentaram os homens às seduções da vista... A síntese do discurso de Menelau é a sua defesa para o ato de não admirar nenhuma outra beleza, por devoção a Eros, isto é, pela sua paixão. Ora, se faz algo com o intento da paixão, portanto o faz para o amado.

            O que leva a se mortificar por devoção ao amado, senão o que o induz a amá-la? Por amor se sofre, porque parece, assim, engrandecer o seu apreço. O que por amor é feito tende a divergir-se, porque é de sua natureza expandir-se e, sendo tão nobre bem, tende a ser disseminado com atos mínimos. Ele – Menelau – certamente tinha devoção a Eros, tanto que, para explicitar o seu respeito não observava nenhuma outra beleza, afora a da própria Helena. Embora este seja o mais formoso de todos os seres da Terra, nada seu poderia superar a beleza por si mesma. Então, desviando de outras belezas tão altanadas e divinas, fazia somente por amor.

            Quando se torna escravo da liberdade na verdade diz que será um eterno contemplador de Eros. Mas, sendo servo, mais o é livre, pois ser livre é guiar-se pelo Eros mais supremo, embora o seu paganismo o impeça da verdadeira Beleza e do verdadeiro Amor. A sua escravidão é louvável como dissemos no livro primeiro e, a sua liberdade, apetecível. Não é livre para o que condena, mas servo do que liberta. Faz o que deseja com o reto fim, com o qual o chama de Eros.

            Contudo não é louvável o seu ato, para aqueles que buscam a santidade em  Cristo. Pois a intenção precisa ser alterada para enobrecer o ato, ou tirá-lo da parte pecaminosa. O objeto destas mortificações continuará a ser o amor, porém com o fim de contemplar e agradar a Deus. E, na verdade, lutando por mortificar-se se torna mais humano e agrada o amado se este também deseja a santidade. Se seguirmos o conselho do evangelho: Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo (Mt 6,33), seremos reconfortados com outros bens, embora sem mérito, dado pelo amor que une a filiação humana à paternidade divina.



Escrito por Bernardo Veiga às 18h54
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VII. Do infeliz efeito do orgulho

 

            Quando, por zombaria, fora dito (através do epitáfio de Crisóstomo do Dom Quixote) por Agamenon:

 

            Morreu às mão do rigor

            De uma esquiva e linda ingrata,

            Com quem ser reino dilata

            O tirano deus Amor.

 

Isso certamente é motivo de galhofa. Como Eros seria tirano se deus algum pode ser mau, sendo a tirania uma espécie de maldade? O Amor é tirano, a tirania é um bem ou Amor é um mal? O amor não é tirano, porém é assim chamado, para encobrir o verdadeiro tirano, que conduz a alma aos mais pérfidos estágios da consolação. Se digo que o conduz é puro eufemismo, pois ele arrasta o que é do seu desejo e tenta sobre todas as forças denegrir e fazer um outro de álibi. Seu nome é notório: o orgulho. Arraigado nas paixões torpes ele acusa qualquer outra coisa de ter cometido o que indubitavelmente foi por sua causa. Quem senão o orgulho é culpado da tirania de corromper as almas? Se a caridade é a mais excelsa das virtudes, o orgulho é o mais podre de todos os vícios.

            A liberdade poética que concede ao poeta os famigerados neologismos, também dispõe de erros que fogem da realidade, da própria verdade. Deus é amor (1Jo 4,8), não é tirano, mas bondoso e compassivo. Quando Agamenon diz deus Amor chama deus de um deus mitológico, porém ao usar a letra maiúscula para o segundo termo está dizendo que é o sumo amor. Este não pode ser sustentado por um deus impotente, mas por um deus que seja verdadeiramente Deus. Porém se atribuo a Deus esse amor não devo esquecer que ambos os termos estão relacionados com a qualidade de tirania, algo impróprio para tal Deus. Portanto o poeta usou do recurso que possui pelo que faz, a licença poética, ou involuntariamente ou desconhecendo em grande parte o que escrevia, escreveu uma falácia. Mas não julgaremos a sua intenção por não ser o nosso objetivo acerca desse estudo. Basta dizer que o que fora dito é uma mentira, pois se houver algum verdadeiro tirano será o orgulho que faz-nos dizer: não faço o bem que quero, mas o mal que não quero (Rom 7, 19), aprisiona a alma e a reduz à sua escrava. Contudo é servo de outros tiranos que também são escravos, pois os anjos caídos são movidos por ele, mas nos incita por meio deste que possuímos. É tirano por ordenar a vilania e a tristeza e é servo por ser induzido pelos demônios, ainda que nestes se apresente com o seu reinado. É servo e tirano, oscilando entre a submissão e o poder. É ínfimo e poderoso, pois dele todo pecado é filho, como da caridade toda virtude é submissa. Encerra em si mesmo o próprio fim e odeia o que é bom, finge desdém, mas sofre inveja. É inimigo de todos os santos, sendo por estes desprezados, e de todos aqueles que conhecem a verdade ou desejam a santidade.

            O que move o amante não deve ser o seu orgulho, pois é este a causa principal das aflições. Se pelo orgulho o sofrimento inicia, é pelo seu contrário que se exime. Sem humildade não haverá amor, pois a caridade não é orgulhosa (1Cor 13, 4). Por conseguinte para a criação de um amor verdadeiro esta é imprescindível. Que o orgulho seja desprezado e a humildade seja cultivada na procura da verdade de si próprio, para obedecer o conselho do templo de Delfos: Conheça-te a ti mesmo.



Escrito por Bernardo Veiga às 18h54
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VIII. Da causa do amor por uma só beleza

 

            Quando fora dito (através do diálogo platônico Fedro) por Agamenon que as emanações da beleza, entrando pelos através dos quais – como lhe é natural – atingem a alma, volta esta ao belo, estende as asas, inundando também de amor a alma do amado, dissera para Helena que o que os moveriam seria a sua beleza. Esta irradiaria tamanho esplendor que faria do amante espelho do belo amado. Na verdade Helena seria a causa dos dois amores, do amado para o amante e do amante para o amado. Se perdesse a beleza, tenderia a findar, mas caso a mantivesse tenderia à constância. Não obstante esse tipo de amor é muito improvável, pois ninguém (afora Deus, os anjos e os santos na luz divina) possui tamanha beleza capaz de emanar para outros corpos e com isso reluzir beleza como naturalmente refrata o diamante sob o Sol. Ademais, Helena não possuiria o verdadeiro amor, pois a beleza de Menelau se revelaria apenas na sua alma, não no seu sensível como erroneamente expõe o diálogo. A causa primeira é o amor do amante, a segunda a beleza da amada e ambos moveriam um segundo amor, o amor de Helena. Porém, destarte, um único amor estaria sendo o movimento de dois, um de si próprio e o outro do amado. Este último tenderá a findar, pois o que move está incapacitado de mover um outro, mas somente um, o próprio. Isso é devido por só existir uma beleza e, embora semi-deusa, não é a suma Beleza, logo não é inesgotável o que é parte do todo como a semi-deusa é parte tanto em bondade, beleza e justiça da natureza de Zeus.

            Com isso acabamos esse livro. O exemplo de Helena faz-nos rever até onde a beleza pode manipular a vontade humana voluntária ou involuntariamente segundo o belo amado. As aflições não são causadas principalmente pela beleza, mas pelo orgulho e a vaidade. A beleza é uma espécie de tentação por incitar a voluptuosidade, o orgulho, a vã curiosidade se assemelhando à uma amostra imperfeita do paraíso. O belo é uma parte ínfima da Beleza, pois uma divisão do inesgotável é finita, fazendo da parte um quase nada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LIVRO SEXTO

Do amor divino

 

 

 

I. Introdução



Escrito por Bernardo Veiga às 18h53
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Após o estudo sobre a caridade, o mais elevado dos amores pelos humanos, estudaremos o sumo Amor, aquele que tem por objeto a humanidade e é provindo diretamente da natureza divina. O amor de Deus para conosco é superior a qualquer outro provindo do homem, tanto em perfeição quanto em compreensão. É por ele que não sem razão afirma o salmista quão suave é o Senhor (Sl 33, 9), nele tudo é movido, assentindo com o platonismo, pois pelo amor todas as coisas são movidas. Fascina os anjos e os santos que, pelas palavras de Pascal, conclamam que o coração tem razões que a própria razão desconhece. E, se há verdadeiramente quem mais se gloria é tão-só por ser mais amado por Deus. Desde já, digo que não compreenderemos a causa deste amor e na medida em que o procuramos nos envolveremos com o mistério e mais surpresos ficaremos com a natureza do amor divino.

           

 

II. Da presciência

e das conseqüências da liberdade

 

Muitos, envolvidos por tamanho mistério e assombramento, ou tomados pela ignorância das suas condições perguntam: “Como Deus permitira que os primeiros pais pecassem, se possuía a presciência?”. Ora, que é verdade que Deus possui a presciência é indubitável, uma vez que seria uma imperfeição não possuí-la. Porém se conhecera desde sempre o pecado humano, não haveria motivo para a criação do homem. Este nada lhe acrescenta, mas se o homem acrescentasse alguma coisa a Deus, logo não seria Deus, por apresentar alguma potência que seria atualizada pelo homem, o que definitivamente é impossível. Se o criara e conhecera o seu futuro pecado, por que não fê-lo sem liberdade, ou melhor, não o privara da possibilidade de pecar?

            Tudo pode ser respondido unicamente pelo amor. Seria amor aprisionar quem ama, ou tê-lo sem liberdade, sem escolha e vontade? Não, pois o verdadeiro amor é livre e, se assim não fosse, não seria divino. Quem poderá afirmar que não fora livre Adão em comer do fruto? Quem negará que fora Eva quem lhe oferecera? Ninguém em sã consciência falaria tamanho desatino. Mas se houve o pecado, por que Deus não evitara? Era Ele e esquecera o seu amor na hora do primeiro pecado? É impossível esquecer, mesmo as menores insignificâncias, pois o esquecimento é característico das criaturas presas ao espaço e tempo, sofrendo de uma deturpação na memória. Então não esquecera e permitira? Mas permitira o mal? Sim, permitira o mal, não porque o desejava, mas por justiça ao seu amor. Sendo a humanidade livre, usara péssima da sua liberdade e Deus fizera disto a maior revelação do seu amor: a reconciliação na pessoa de Jesus Cristo, seu filho unigênito. E nessas palavras do Apóstolo resume todo amor da divindade: De mui boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas, ainda que, amando-vos mais, seja menos amado por vós (2Cor 12, 15).

            Seu amor é infinito, não pelo objeto, porém pela origem. O que é pleno realiza o que é na plenitude, não no finito e compreensível. Não compreendemos a plenitude pela dificuldade cognoscitiva humana da razão, porém na fé o pleno se torna passível de entendimento pela luz da graça. Pois enquanto que para Iudaeis quidem scandalum, gentibus autem stultitiam (1Cor 1, 23), para os cristãos é o amor.

 

 

III. Da dignidade humana

e da causa última do amor divino



Escrito por Bernardo Veiga às 18h53
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A dignidade inerente ao homem o torna superior dentre todos os animais e coisas desta terra, como nô-lo afirma o catecismo que de todas as criaturas visíveis, só o homem é capaz de conhecer e amar seu Criador; ele é a única criatura na terra que Deus quis por si mesma; só ele é chamado a compartilhar, pelo conhecimento e pelo amor, a vida de Deus. Foi para este fim que o homem foi criado, e aí reside a razão fundamental de sua dignidade (Catecismo. 356), e dessa forma indaga santa Catarina de Sena: Que motivo vos fez constituir o homem em dignidade tão grande? O amor inestimável pelo qual enxergastes em vós mesmo vossa criatura, e vos apaixonastes por ela; pois foi por amor que a criastes, foi por amor que lhe destes um ser capaz de degustar vosso Bem eterno (Catecismo. 356).

            Podemos afirmar que o amor divino se baseia na dignidade do objeto, a humanidade. As criaturas, todas elas, trazem em si certa semelhança com Deus, muito particularmente o homem criado à imagem e semelhança de Deus. Por isso as múltiplas perfeições das criaturas refletem a perfeição infinita de Deus (Catecismo. 41).

            Contudo não quer dizer que Deus necessite de um amor para aumentar o próprio. Ele, criador de todas as coisas, fê-las, como explica são Boaventura, non propter gloriam augendam, sed propter gloriam manifestandam et propter gloriam suam communicandam (Catecismo. 293). Destarte, todo o seu amor é um mistério para o intelecto humano, revelando a ignorância humana e a grandeza divina. Esse que provém de Deus e se destina aos homens é o amor excelentíssimo, porém há outro que supera todos os que visam a Deus, ou aos homens, pois é gerado da relação entre o Pai e o Filho, o Espírito Santo. O Espírito Santo é o Amor, porque o Pai e o Filho se amam assim como é dito: Tu és o meu filho bem-amado, em ti ponho minha afeição (Lc 3, 22). A terceira pessoa é o Amor por antonomásia. Não há nada que o supere em excelência e nobreza, por isso que o pecado é a ofensa por excelência. Ora, porém, é no pecado que mais se manifesta a glória divina pela sua misericórdia.

Numerosas vezes no antigo testamento são difíceis a compreensão dos juízos divinos, – saibamos que a ação de Deus não carece de justificativa – porque ainda não houvera a redenção em Cristo com a nova Aliança. Antes estávamos mortos em Adão e presos no repouso do limbo e, então, fomos chamados aos céus. Se em Adão fora fechados os portais celestes e abertos os infernais, em Cristo os celestes minguaram pela graça do Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29). Se devemos dar glória pelo nascimento do primeiro casal, muito mais devemos pela oferenda divina. Fez-nos seus filhos, não por merecimento do nosso ser, mas pelo mistério do seu amor. Portanto, na história da humanidade cada vez mais se revela a magnitude do amor divino e a pequenez dos nossos juízos sobre a virtude da humildade. E tudo isso se resume nas palavras de são João Batista, pois importa que ele cresça e que eu diminua (Jo 3, 30).

 

 

IV. Do Início ao tempo da Salvação

 

            As nossas investigações não poderiam estar completas caso não analisássemos mais profundamente a ligação entre a Justiça e o Amor. Aquele que desconhece tal estudo não poderá compreender a magnificência do cristianismo. O problema central é: o amor é indevido, seria injusto, logo Deus seria injusto ou estaria agindo injustamente. Tal problema não existe, pois negar a justiça é negar o que é inerente à sua natureza. Não sendo perfeitamente justo careceria de atualizações para as suas potências, o que é impossível, pois Deus é todo ato e absolutamente nada de potência.



Escrito por Bernardo Veiga às 18h53
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No princípio Deus criou os céus e a terra (Gn 1, 1). Ora, quando é dito no princípio só faz sentido se falarmos em tempo, pois não haveria início e término se não houvesse tempo. Portanto antes da criação dos céus e da terra houve a criação do tempo em que fora criado, quando ainda não existia. Após a sua criação fora criada uma ou infinidades de matérias-primas em que se desenvolveram os céus e a terra e, depois, os dois primeiros homens, pela intervenção divina, pois o que é inerte não se torna ativo sem uma causa. E, como vimos, o motivo fora o amor, a expansão natural do bem, que se diverge pelo seu ente próprio.

Não desejo justificar as eventuais causas da má vontade e do orgulho dos primeiros pais, e por isso aconselho que leiam o décimo quarto livro da Cidade de Deus de Santo Agostinho, que trata desses assuntos minuciosamente e evita que seja comentado aqui o que bela e verdadeiramente fora exposto lá. Contudo, precisamos analisar a ofensa dirigida a Deus pelo primeiro pecado. Todo pecado é uma ofensa a Deus e esta varia da medida em que for maior a dignidade do ofendido. Entre um ser de inteligência vegetativa e outro de sensitiva, quem possui maior dignidade é o segundo; Entre um com tão-só a sensitiva e outro com esta e a intelectiva, o segundo possuirá maior dignidade, uma vez que a capacidade cognoscitiva é inerente ao ser. Esta será quem auxiliará no uso da vontade, para fazermo-nos à semelhança divina, tanto em inteligência – razão – quanto em vontade – livre-arbítrio. Ora, entre todos os seres os que possuem maior dignidade, a mais excelsa é de Deus. Se a dignidade em Deus é em plenitude, logo a ofensa a Deus será em plenitude, isto é, uma ofensa perfeita.

            Pelo pecado a humanidade, descendente natural do primeiro casal, fora afetada pela enfermidade do novo ser, condenada a, muitas vezes, não ter o corpo obedecido pela vontade. O corpo não obedece a vontade como o pecado desobedece à lei sagrada. E por todas as gerações até o findar dos tempos nascerão homens com essa inferioridade no ser.

            A humanidade, com o dever de apagar a dívida da ofensa, oferecia sacrifícios, holocaustos e hecatombes, porém, vindas dos homens, eram imperfeitas. Não alcançavam a plenitude da primeira ofensa, embora tenham numerosamente ofendido a Deus, mesmo depois do pecado original.

            Depois dessa introdução devemos começar a analisar o sentido da Justiça e do Amor. Ora, numerosas vezes na Bíblia disseram que Deus é bom e misericordioso, logo poderia perdoar a ofensa perfeita em nome dos homens, sem sacrifício algum. Porém estaria sendo injusto, pois a justiça é dar o que é devido e não era devido que fosse perdoado em nome dos humanos, se não houvera sacrifício digno para que fosse perdoada a ofensa. Não obstante, se Deus é bom e justo, também é sábio e no seu infinito amor, por meio da augusta sabedoria, preparou um povo dentre os homens. A finalidade era originar quem, em nome dos homens, redimiria todos os pecados precedentes e posteriores através da graça. Na sua natureza divina assumiria também a humana, tanto na forma quanto no ser.

            O povo eleito o qual falamos é Israel que Deus tivera muito apreço na esperança do Salvador. Porém, mesmo após haver conclamado a vinda deste, esse povo rejeitou preceitos da lei natural, inerente ao homem e com isso por meio de Oséias Deus revela o seu amor incansável: Israel era ainda criança, e já eu o amava, e do Egito chamei meu filho. Mas, quanto mais os chamei, mais se afastaram; ofereceram sacrifícios aos Baals e queimaram ofertas aos ídolos. Eu entretanto, ensinava Efraim a andar, tomava-o nos meus braços, mas não compreenderam que eu cuidava deles. Segurava-os com laços humanos, com laços de amor; fui para eles como o que tira da boca uma rédea e lhes dei alimento (Os 11, 1-4). Por muito tempo esperaram, passaram vários profetas para relembrá-los da vinda da Boa-nova redentora de todos os pecados. E quando o Verbo se

Escrito por Bernardo Veiga às 18h52
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fez carne e habitou entre nós, veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue – do povo de Israel –, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus (Jo 1, 12s). E por isso não sem razão, que em nome de toda a humanidade, gentios e israelitas, fora derramado o sangue do Verbo, mostrando sua fidelidade até a morte e morte de cruz (Fl 2, 8).

            O sacrifício fora realizado no cordeiro, pelo Verbo, para Deus em detrimento humano, pois somente o sacrifício perfeito era necessário para o fim da redenção. Se pela natureza humana amava a humanidade, pela divina exaltava e cumpria a própria oferenda.   

 

 

V. Da soberania do Amor sobre a Justiça

           

            Se tudo é justificado pelo amor divino, logo o que é justo torna-se aquém da sua misericórdia, pois aquele que não conheceu o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornássemos justiça de Deus (2Cor 5, 21). E sobre isto explica o Apóstolo aos romanos: Que diremos, pois? Haverá injustiça em Deus? De modo algum! Porque ele disse a Moisés: Farei misericórdia a quem eu fizer misericórdia; terei compaixão de quem eu tiver compaixão (Ex 33, 19). Desta forma, a escolha não depende daquele que quer, nem daquele que corre, mas da misericórdia de Deus. Por isso, diz a Escritura ao Faraó: Eis o motivo por que te suscitei, para mostrar em ti o meu poder e para que se anuncie o meu nome por toda a terra (Ex 9, 16). Portanto, ele tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer.

            Dir-me-ás talvez: Porque ele ainda se queixa? Quem pode resistir à sua vontade? Mas quem és tu, ó homem, para contestar a Deus? Porventura o vaso de barro diz ao oleiro: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o bairro para fazer da mesma massa um vaso de uso nobre e outro de uso vulgar. (Onde, então, está a injustiça) em ter Deus, para mostrar a sua ira e manifestar o seu poder, suportado com muita paciência os objetos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória? (Esses somos nós, que ele chamou não só dentre os judeus, mas também dentre os pagãos) (Rm 9, 14-24).

            A justiça é uma virtude, porém na hierarquia própria do que é, torna-se inferior ao amor, não pela inferioridade do que é justo, porém pela suma excelência amorosa. Por isso, que entre os amantes não é devido a justificação dos atos enamorados, das vergonhosas ações e dos sacrifícios, pois não é digno do amor ser objeto de justificativas e vastas explanações. Só é injusto aquilo que indevidamente fora realizado sem intenção amorosa e reto juízo, porque se pela justiça cumprimos o que é bom, justo e verdadeiro, pelo amor compartilhamos a principal característica divina. Se no primeiro cumprimos com serventia o dever de criatura, no segundo, pela força da graça, respeitamos a filiação com o Criador.

 

 

VI. Do amor pela humildade de Jesus Cristo

 

            Na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo se manifestou o amor aos homens de forma que, sem Deus Filho, não teríamos exemplo tão altanado de adoração, contemplação e imitação. Desta forma enaltece a humildade divina Camões neste soneto:



Escrito por Bernardo Veiga às 18h51
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Dos céus desce à Terra a maior Beleza,

            Une-se à nossa carne e fá-la nobre;

            E sendo a humanidade dantes pobre,

            Hoje subida fica à maior alteza.

 

            Busca o Senhor mais rico a maior pobreza;

            Que como ao mundo o seu amor descobre

            De palhas vis o corpo tenro cobre,

            E por elas o mesmo Céu despreza.

 

            Como? Deus em pobreza à Terra desce?

            O que é mais pobre tanto lhe contenta

            Que este somente rico lhe parece.

           

            Pobreza este presépio representa;

            Mas tanto por ser pobre já merece,

            Que quanto mais o é, mais lhe contenta.

 

            Seguir a divindade é ser manso e humilde de coração (Mt 11, 29), porque Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes (Pr 3, 34). Ademais, por são João evangelista conhecemos o lava-pés realizado por Cristo aos seus discípulos, e, logo após, narra o seu discurso sobre a verdadeira humildade: Depois de lhes lavar os pés e tomar as suas vestes, sentou-se novamente à mesa e perguntou-lhes: “Sabeis o que vos fiz? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós. Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior do que o seu Senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou. Se compreenderdes estas coisas, serei felizes, sob condição de as praticardes. (Jo 13,12-17)

            A humildade de Deus filho não é devida à sua natureza, o amor é que o move, prescindido o que é justo. Se pela humildade ama, por amor se manifesta a sua vontade, sendo humilde em Jesus Cristo. O que é divino se mostra indigente, para revelar que a humanidade é tão miserável que não é devida a existência. Por isso que pela virtude da religião é devido dar graças a Deus pela constância do nosso ser, pois sem os movimentos ontológicos da existência, voltaríamos ao não-ser, isto é, preceder ao barro e ao pó, para o real conhecimento da nossa natureza antes da expansão do amor, o nada.

            Com isso findamos as nossas investigações sobre o amor. Para isso fora necessário conhecer bem os termos, os seus respectivos qualitativos apresentados, para realizar um bom estudo sobre os fins desejados.



Escrito por Bernardo Veiga às 18h51
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