O noivado dos filhos
de Hermes
Bernardo Veiga de Oliveira Alves
Escrito por Bernardo Veiga às 17h46
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PERSONAGENS DA PEÇA
Hermes, pai de Tamiel, Ertael e Miguel
Tamiel, noivo de Penélope
Ertael, noivo de Suzana
Pe. Miguel, irmão de Tamiel e Ertael
Cláudio, antigo advogado da família
Pátroclo, advogado, amigo de Tamiel
Suzana, noiva de Ertael
Penélope, noiva de Tamiel
Deméter, irmã caçula de Suzana
Beatriz, avó de Suzana e Deméter
Velho, marido de Beatriz
Músicos (dois violinistas, um celista)
Médico
Costureira
Garçom
Escrito por Bernardo Veiga às 17h46
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PRIMEIRO ATO
CENA I
Mansão da família de Hermes.
(Tamiel, sentado olhando um retrato de Penélope)
Tamiel:
Amor, cruel amor. Fuja da minha mente para desfrutar da razão. Há humanidade na tua beleza? És humana? Vives conosco? Ah! Sé é sonho, ou irreal, então vã é a realidade. Penélope, (entra Pe. Miguel sem bater na porta, carregando duas maletas) Penélope...
Pe. Miguel:
Perdeste a lucidez? Falas sozinho?
Tamiel
Falo do amor e neste nunca estou sozinho.
Pe. Miguel:
Que saudades, meu irmão! Quanto tempo! Passaram-se quatro anos. Longos quatro anos. Passaste bem?
Tamiel:
Muitíssimo. Mas o que o traz a essas terras? Há algo errado com Portugal?
Pe. Miguel:
Portugal está triste pela sorte de outrem, pois chora por sangue brasileiro. Ainda não soubeste?
Tamiel:
Soubeste de quê?
Pe. Miguel: (À parte.)
Tentaram poupá-lo, mas precisa ser dito.
Tamiel:
Diga o que houve.
Pe. Miguel:
É duro dizer, meu irmão, contudo omitir tal verdade parece tão desejável quanto a mentira.
Tamiel:
Fale logo.
Pe. Miguel:
Os mensageiros mudam de caráter conforme as novas. Tamiel, vais me odiar tal como odiará a mensagem.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h45
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Tamiel:
O que poderia ser tão ruim assim? Diga sem mentir, sabe que mesmo longe de Portugal o seu voto lhe persegue.
Pe. Miguel:
Que assim seja dito. Nosso pai vive, porém sua vida é digna de pena e seu estado é irreversível. Fui avisado há dois dias e vim o mais rápido que pude, para dar-lhe como era de desejo a confissão e os outros dois sacramentos. Ele espera a minha vinda; passei aqui para te acalmar, mas vejo que precisas de ajuda maior. Até o próximo encontro. Tenha fé Tamiel.
Tamiel:
Como ele está tão mal? O que houve? Há alguma cura?
Pe. Miguel:
A cura não é desse mundo.
Tamiel:
Irei com você. Onde ele está?
Pe. Miguel:
Seu desejo era que eu fosse sozinho. Não deveria ter te visitado antes. Mas tenha fé, se um milagre o manteve vivo por dois agonizantes dias, o que será pela eternidade?
Tamiel:
Se meu pai não me quer, ao menos volte e traga as novas o quanto antes. Vá imediatamente, e leve com você os sacramentos, porque sozinho ele morrerá e não encontrará a paz. (Sai Pe. Miguel.) (segura o retrato de Penélope.) Como eu poderia pensar nela e esquecer do meu pai? Mas a beleza urge e a dela é inquietante. (bebe um copo de vinho.) Tão linda que me conduz à sua beleza nesse mar de tristeza, guiado indignamente por qualquer nobre, desbravador do desconhecido e endiabrado de amor. (bebe mais vinho.) Formosa já tão jovem, que esquecera que a beleza fere pela inveja causada; tanta dor, mas tanta que arrasta Metis e Penia a conceber o Amor. (bebe mais vinho.) Quisera perder o pudor e saborear aquele esterco e mover-me da paixão incontinente, do amor insípido e pecaminoso. (bebe mais vinho.) Diabo dos meus sonhos como os vícios mundanos! Perséfone do Hades, dai-me o teu inferno para vos dar o meu paraíso. (bebe mais vinho, cai no chão.)
CENA II
Fazenda do Hermes. Um quarto.
(Hermes, Médico.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h45
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Médico:
Quando o padre chegará?
Hermes:
Em breve, creio eu. (Tosse.)
Médico:
O senhor conhece a gravidade do seu caso e ainda persiste em continuar nesta cama? As minhas ferramentas não são suficientes para cuidar do seu caso. No hospital você teria alguma chance de sobreviver.
Hermes:
(Tosse.) Não quero nada dessa vida, mas preciso morrer logo e deixar meus bens para quem é devido. O testamento já está escrito e quero antecipar esta doença e negar a vida como dom. Doutor, sabe que a sorte deste mundo é péssima segurança, o destino é providencial e a morte é a nossa amiga. (Tosse.)
Médico:
Relute senhor. Ainda possui filhos e as bem feituras não teriam limites com o seu patrimônio.
Hermes:
Que outros façam melhor uso disso. Meus filhos gastariam meu dinheiro com a luxúria dessa vida. Por isso será certa essa decisão.
Médico:
Senhor, a vida é um bem, pense na felicidade ainda em terra.
Hermes:
Esqueça! Já não será mais um achismo seu que fará a minha vontade mudar. Considere-me como um anjo (Tosse; batidas na porta.) Será ele? Que o mandem entrar. (Entra Pe. Miguel carregando duas maletas.)
Pe. Miguel:
Meu pai! Como ficaste tão fraco? (Para o médico.) Como chegou a tal estado?
Médico:
Pergunte a ele.
Hermes:
A culpa foi toda minha. Triste é a morte de um pai. Feliz a visita de um filho. Obscura a vontade de Deus.
Pe. Miguel:
Porque não estás em um hospital?
Hermes:
Hospital é o lar daqueles que medem a vontade de viver com a dor. Não é para lá que devo ir.
Pe. Miguel:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h45
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Mas pai...
Hermes:
Meu filhinho, deixe-lhe contar a façanha do seu nascimento. (Tosse.) Um milagre nos primeiros segundos à luz do Sol. Bem sabe você da morte da sua mãe após o seu parto. Naquele instante tive tanto ódio daquela criaturinha tão inocente que houvera matado a própria mãe nas vésperas dos nossos cinco anos de casamento. (Tosse.) Minha raiva por aquele bebê era tão grande que relutei em levá-lo para casa. Aquela coisa tão dócil parecia fervilhar de paixão em mim. E era meu filho, o meu filho tão amado que causara a minha maior dor. Pe. Miguel, todo pai tem por acréscimo as virtudes do seu filho, não me deixe desapontado diante desse destino funesto. Ah, de todos os anjos, os arcanjos eram destinados ao penúltimo posto. Tenho em mim a certeza de que a sua mãe foi a passagem para o seu nascimento. (Tosse forte.)
Pe. Miguel:
Mas pai...
Hermes:
Cala-te! Escute teu pai, faça o que deve ser feito e seja rápido. (Para o médico.) Retire-se. (Sai o Médico.)
Pe. Miguel:
In nomine Pátris, et Fílii, et Spíritus Sancti. Amen. Diga Hermes, a confissão.
Hermes:
Faz sete meses que abstive da confissão. (Tosse forte.) Faltei com amor aos meus filhos. Fiz um testamento que aos olhos de Deus não é justo. E pelos pecados que o tempo diz para eu não dizer e a morte diz para me abster. (Tosse muito forte.) Tende piedade do teu filho que às traças será jogado.
Pe. Miguel:
Et ego te absorvo a peccatis tuis, in nomine Pátris, et Filii, et Spíritus Sancti. Amen (Hermes Morre.) Requiescat in pace. (Sai.)
CENA III
Mansão da família do Hermes.
(Tamiel, ébrio no chão; Entra Ertael)
Ertael: Meu irmão, por que insiste nesse seu vinho? Acorde, não desonre o meu sangue. Sabe que a razão é inimiga da paixão. Levante mendigo, saia desta vista deplorável. (Dá tapas em Tamiel.) Acorde ao menos pela paixão; não
Escrito por Bernardo Veiga às 17h45
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deixe que a preguiça vença o teu espírito luxurioso! (Dá tapas em Tamiel.) Acorde infeliz! (Dá um tapa forte em Tamiel.)
Tamiel:
Desgraçado! Saia daqui, deixe-me em paz!
Ertael:
É importante. Acorde. Há pouco tempo nos avisaram sobre a morte do nosso pai. Agora tudo será nosso.
Tamiel:
Cale-se! Não tenha tanta certeza quanto a isso. Se depender do censo de justiça dele, tudo irá para o nosso irmão. Comece a chorar porque verá todo o dinheiro indo para as igrejas de Portugal. Chore pela caridade mal vivida, chore pela dor adquirida.
Ertael: (Chorando com ódio.)
Mas aquele canalha ainda vive! Maldita sorte! O que faremos?
Tamiel:
Bem... Precisamos ver o testamento, depois veremos melhor o problema. Pelos passos lentos deve ser Pe. Miguel. (Entra Pe. Miguel.)
Pe. Miguel:
Meus caros irmãos, pelas suas feições creio que tomastes conhecida a triste notícia. É triste viver para ver morrer. É de Deus essa vontade, então será por nós respeitada. Deverá haver choro diante do poder de Deus? Não, não chore Ertael. Não chore. (Sai, segurando o choro.)
Ertael:
Aquele fingido! Vai ficar com a herança e largará a sua batina para saborear as riquezas dessa vida. Mentiroso desgraçado!
Tamiel:
Acalme-se. Não há nada a ganhar com essa ira. Converta isso em perspicácia, espere o que estar por vir. Estou ouvindo passos. Estão vindo para cá e não são de Miguel. (Entra Cláudio.)
Cláudio:
Boa noite, senhores.
Tamiel:
Boa noite.
Ertael:
Boa noite.
Cláudio:
Senhores, seu pai me pediu previamente à sua morte para ler diante dos seus filhos, somente aos filhos – porque não possuía outros parentes – o seu testamento, logo após a morte. Sua morte já veio e não vejo outro motivo que impeça a sua vontade. Mas vejo que ainda falta Miguel. Irei chamá-lo. (Sai.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h44
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Ertael:
O que será de nós? Dependemos da piedade da mais mesquinha e repugnante cabeça humana. Pense alguma coisa logo.
Tamiel:
Não há o que pensar e nada a fazer antes do testamento. Guarde a sua raiva para depois, esqueça o sentimentalismo e seja frio. (Entra Pe. Miguel e Cláudio.)
Cláudio:
Vejo que agora estão todos aqui. Sentem-se (Todos se sentam.) Esse testamento foi-me dado há dois dias pelo vosso pai. E não vejo outra saída senão a de lê-lo: (Lê)
“Sigo o destino que me é forçado. Depois de decênios sob a iluminação de um pai, meus filhos, exceto o meu justo caçula, começaram a gastar o meu dinheiro adquirido por laboriosidade minha. Quem não é o criador da façanha tende a destruí-la.
É triste ver o destino roubar a felicidade da sua prole. Mas me refiro aos meus animais. Ou melhor, são menos ainda, ao menos os animais merecem piedade pela insípida emoção. E não serão a esses que receberão o meu dinheiro; não serão as pragas nem as traças que ostentarão estas riquezas que jamais tocarão.
Para cada um dos meus filhos sonhei com a melhor vida. No primórdio dei o nome de anjos para cada um. Acreditava, na minha infinda ignorância, que a justiça divina seria agradável aos anjos. Ah, mas os nomes não são entes. El não era Deus, não estava com Deus, nem junto d’Ele.
Um dentre vós, porém, resguardou minhas esperanças. Lutou contra o anjo traidor, que resultou com a vitória divina. Então meu mais profundo desejo e ordem é a apropriação dos meus bens em totalidade para o meu filho Miguel. Meus outros filhos nada poderão ter.
Bem... Meus caríssimos, despeço-me: Adeus.”
Ertael:
Mas isso é um absurdo! Tantos anos de carinho...
Tamiel:
(Interesse.)
Ertael:
Anos de amor...
Tamiel:
(Falsidade.)
Ertael:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h44
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Anos de compaixão...
Tamiel:
(Deslealdade.)
Cláudio:
Dessa forma se cumprirá a vontade de seu pai, rigorosamente. Não há nada a fazer. (Para Pe. Miguel.) Você tem alguma conta para poder mover parte da herança?
Pe. Miguel:
Não. Porém vos peço que transfira esse dinheiro para algumas igrejas aqui do Rio de Janeiro e outras lá de Portugal.
Cláudio:
Farei como o senhor desejar. Mais alguma coisa?
Pe. Miguel:
Se o que disse for cumprido, então mais nada desejarei com esse dinheiro.
Cláudio:
Precisamos olhar os assuntos burocráticos e todas as transferências e a venda dos bens para providenciarmos tudo. Em três dias iremos para o meu escritório e veremos com mais clareza o testamento e escolheremos as igrejas beneficiadas.
Pe. Miguel:
Se foi assim que meu pai desejou, farei a sua vontade. Enquanto isso, irei contigo para começar a decidir sobre as igrejas. (Sai Cláudio e Pe. Miguel.)
Ertael:
“Se foi assim que meu pai desejou farei a sua vontade”. Adulador idiota! Filho de uma vaca! O que iremos fazer? Perdemos a herança, perdemos o nosso sustento! O que faremos?!
Tamiel:
Bem... Para ser sincero não acreditava que nosso pai nos odiasse tanto, para nos deixar nesta penúria.
Ertael:
Sem dinheiro como sustentaremos as nossas noivas? Teremos que terminar o noivado?
Tamiel:
Não seja tolo. Em se tratando desses assuntos sempre há solução. Se a verdade está contra nós, não vejo outro motivo para não poder manipulá-la.
Ertael:
Vai mentir?
Tamiel:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h43
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Não coloque nesses termos. Precisamos, sobretudo, tirar proveito desse nosso fado. Nossas noivas não sabem de absolutamente nada sobre esse testamento, o que para nós é bom. Compraremos as suas ignorâncias com a nossa vilania.
Ertael:
Mas o que faremos?
Tamiel:
Não seja apressado. Acalme-se. O que ainda nos resta depois disso tudo?
Ertael:
Nossas noivas são os bens mais dignos que possuímos.
Tamiel:
Para ser um bem deveria ser nosso, o que ainda não é verdade. Quero dizer que não tenho tanta certeza que temos noivas. Quem disse que Suzana lhe ama?
Ertael:
Ela.
Tamiel:
Até onde vale a palavra de alguém ignominioso? Sabe que ela mente até onde for possível ir a mentira.
Ertael:
E com você é diferente?
Tamiel:
Não, esta é a verdade.
Ertael:
Malditas criaturas!
Tamiel:
Mil vezes malditas! Mudam de personalidades como um camaleão de cor. Sempre procurando está da perfeita forma apropriado para o ambiente. Raiva! Desgraçadas! Agora sei como os demônios são tão fortes e nós tão volúveis. Mas há mal algum em ser inimigo de um demônio? Deus sorrirá a cada alfinetada que dermos numa dessas criaturas. Acaso malvadezas contra elas não são benignidades? Que seja feito o mal a todos e começaremos por elas que tanto mal já nos fez, e ainda evitaremos outros possíveis males. Além disso, já não há mais nada a perder. Que mal me tirará o que não temos? A desgraça é inalada a todo o momento. Precisamos nos divertir.
Ertael:
O que vamos fazer?
Tamiel:
Antes disso preciso lhe perguntar se você sente alguma atração por Penélope. Sente?
Ertael:
Ela é bela.
Tamiel:
Gosta dela?
Ertael:
Ela é formosa.
Tamiel:
Gosta dela?
Ertael:
Ela é graciosa.
Tamiel:
Responda se gosta dela ou não!
Ertael:
Sim, sim mais que tudo e até mesmo mais do que a minha própria Suzana. Quem não amaria a harmonia da forma, como se fosse a personificação da beleza. Afrodite só é bela porque o Amor está nela.
Tamiel:
Percebo que sois desse mundo. Boa resposta; melhor do que desejava e para satisfazer a sua curiosidade – ela existindo ou não – te digo que Suzana me atrai, embora seja muito triste a dor de perder Penélope para o meu irmão.
Ertael:
Está falando de mim?
Tamiel:
Acaso pensa que eu falo daquele padre?! É com você que falo e será você quem terá a minha Penélope e eu a sua Suzana e isso durará até quando pudermos, ou melhor, até a nossa cerimônia, quando nossa farsa terminar.
Ertael:
Farsa? Que farsa?
Tamiel:
Venha comigo. Somos pobres, mas ainda podemos pensar. (Saem.)
FIM DO PRIMEIRO ATO
Escrito por Bernardo Veiga às 17h43
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SEGUNDO ATO
CENA I
Parque da cidade.
(Penélope, sentada em um banco do parque.)
Penélope:
Não há mais tempo a perder. Tomara que ele me faça ganhar esse tempo com alguma jóia. Poderiam ser brincos de safira, ou um anel que ele me prometera de topázio, ou ainda aquele colar... Ele está vindo. Espero que traga o que prometera, sem ficar relinchando com aquelas palavras sem sentido. (Entra Tamiel.)
Tamiel:
Minha flor de lótus! Desculpe-me pelo atraso, mas não será repetido.
Penélope:
Mas qual o motivo do atraso? Diga e talvez receba a minha benção.
Tamiel:
(Ou a sua maldição.) Atrasei-me para lhe entregar estas novas que são tristes até quando são pronunciadas. Atrevo-me a contar-lhe somente uma vez.
Penélope:
Então conte.
Tamiel:
O que há de mal para nós é o mesmo que há de bem para o meu irmão.
Penélope:
Diga.
Tamiel:
A morte levou para um dos Círculos a cabeça do meu pai. Em pouco tempo ela o arrastou para a terra onde a escuridão cobre as almas, e o espírito de Deus não paira sobre as águas.
Penélope:
O que há de ruim nisso? Não era esse o seu desejo? Receba a herança. Teremos todo o dinheiro dele. Há algo melhor?
Tamiel:
Não haveria se fosse verdade. Porém, ele morreu e me deixou inteiramente pobre. Nada do que tinha será mais meu.
Penélope:
Então com quem ficou a herança?
Escrito por Bernardo Veiga às 17h43
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Tamiel:
Ficou tudo com Ertael. O testamento já foi lido e não sabemos o porquê dele ter recebido tudo.
Penélope:
Suzana deve estar agarrada nele o tempo todo.
Tamiel:
Não. Eles acabaram o noivado.
Penélope:
Certamente foi ele quem terminou.
Tamiel:
Não.
Penélope:
Mas como?
Tamiel:
Eu posso lhe contar, mas é um segredo.
Penélope:
Adoro segredos.
Tamiel:
Eu adoro que guardem os segredos.
Penélope:
Faço o que você quiser para contá-lo.
Tamiel:
Por agora eu só peço que o guarde. Primeiro: é verdadeiro que foi Suzana quem terminou o noivado.
Penélope: (À parte.)
Então, ele está realmente sozinho.
Tamiel:
Segundo: ele está chorando muito, magoado e fresco.
Penélope: (À parte)
Oh, fresco de amor. Magoado pela perda, e chorando pela riqueza.
Tamiel:
Terceiro...
Penélope: (O interrompendo.)
Mas ela soube do testamento depois de terminar o noivado?
Tamiel:
Sim, ela foi a primeira a saber; e minutos depois – segundo Ertael – ela acabou o noivado.
Penélope: (À parte)
Que imbecil!
Tamiel:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h43
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É verdade que o primogênito é mais amado, mas a história diz o contrário, e tudo por pão e um prato de lentilhas...
Penélope:
Para quando está marcado o nosso casamento?
Tamiel:
Para dois meses.
Penélope:
Está muito cedo.
Tamiel:
Podemos adiar por mais uma semana, ou por mais um mês.
Penélope: (À parte.)
Ou por mais um sempre. Os planos são criados para manejar a dúvida na sua prática. O que está escrito muitas vezes é indigno de ser obedecido. (Para Tamiel.) Suzana está vindo. (Entra Suzana.)
Suzana:
Tamiel, há quanto tempo!
Tamiel:
Passa bem?
Suzana:
Passaria mal ao teu lado?
Penélope:
Passaria se ele estivesse acompanhado.
Suzana:
Oh! Perdoe-me fratella mia, como não lhe vi?
Penélope:
Mas eu lhe vejo e ouço muito bem. (À parte.) A fidelidade com Tamiel manterá a minha dignidade para Ertael me ver por ele.
Tamiel:
Preciso cuidar de uns negócios da família. Vim só para dar um recado. (À parte, para Penélope.) Seja boazinha e guarde muito bem o segredo. (A elas.) Com licença, senhoritas.
Penélope:
Tenha toda.
Suzana:
Tenha todas e mais as necessárias para as próximas, meu amorzinho. (Tamiel sai.)
Penélope:
Pondere o que diz. (À parte.) A idiotice dela não se limita a odiar a riqueza, porém, também a amar a pobreza. Que bonitinho.
Suzana:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h43
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O seu noivado anda bem?
Penélope:
Bem, certamente não. Nos últimos tempos o tempo nos fez ver, que o brilho que nos cegava conduzia-nos a insanidade de adiar o que já acabara. Vejo que o brilho era uma lagoa espelhada com água suja e medonha. Não posso dizer que se tornará cristalina – porque enganaria os meus sonhos –, muito menos se ainda haverá água para banhar-me. Mas o que trará mais felicidade do que a vontade de ver-me feliz? O que não ocorrerá com esse anjo caído, Tamiel.
Suzana:
Jura?!
Penélope:
A verdade mais pura seria incognoscível.
Suzana:
E você não poderia ter dito palavras mais belas.
Penélope:
Cada cabeça um dom...
Suzana:
...E cada dom uma sentença...
Penélope:
...E cada sentença uma dor...
Suzana:
...E cada dor uma amante...
Penélope:
E cada amante uma herança... Oh! Mas, mas mudando de assunto, eu preciso da sua ajuda para acabar com o meu noivado com Tamiel.
Suzana:
Mato quem você quiser! Peça que farei círculos nascerem quadrados.
Penélope:
Preciso dizer para ele que o amor putrefez-se com o tempo.
Suzana:
Diga da forma mais ímpia possível. Experimente: “Demônio maldito tente outra dama. Infernize a vida de quem te ama, mas quem amaria um demônio e o levaria pra cama?” Gostou?
Penélope:
Ele pode ficar triste.
Suzana:
Porque triste é ser um demônio. Mas é preciso que você diga o quanto antes.
Penélope:
Por quê?
Suzana:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h43
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Porque se você não o ama, alguém poderá amá-lo, por mais que pareça impossível.
Penélope:
Perfeito. Amanhã nos veremos novamente e ele não me verá jamais. (Saem)
CENA II
Escritório na casa de Cláudio.
(Entram Cláudio e Pe. Miguel.)
Cláudio:
Quando você voltará para Portugal?
Pe. Miguel:
Quando já estiver pronta a distribuição da herança e, ademais, após o casamento dos meus irmãos.
Cláudio:
Quantos anos o senhor tem?
Pe. Miguel:
Vinte e sete. Isso é necessário para a burocracia?
Cláudio:
Não, foi somente uma pergunta vã contra a monotonia pragmática. Agora, responda-me: os padres fazem voto de pobreza?
Pe. Miguel:
Quando não fazem o voto, vivem santamente a virtude. Mas qual o motivo da pergunta?
Cláudio:
Nada em especial. Mas eles também são seduzidos por todo o tipo de tentação?
Pe. Miguel:
Claro, são humanos.
Cláudio:
Você já deve ter passado por tentações que questionassem a sua fé. E você sabe quanto vale a fé em dias sombrios?
Pe. Miguel:
Indagas o quê?
Cláudio:
Todo homem é pecaminoso assim como toda ciência e toda arte, o que é vivo é pecaminoso por essência e pela existência. E será que a fé não vale o dinheiro que possa comprá-la?
Escrito por Bernardo Veiga às 17h42
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Pe. Miguel:
Será que a fé não vale o que a paixão compra?
Cláudio:
Acaso não é a fé que cega à razão tornando paixão.
Pe. Miguel:
Tão certo é o que dizes que a razão, que complementa a fé, é ultrajada.
Cláudio:
Meu caro, não chame os céus para os negócios da Terra. Peça pelos seus filhinhos de rua e pela alma de seu pai, mas esqueça por um momento o que deseja querer. É jovem, mas está perdendo a flor da idade, padecerá sem lembrar do que viveu, viverá padecendo pelas lembranças. Triste fim, não respirarás as obras de Deus nem ao menos será seu filho se não contemplas as suas obras. Agora pretendes escutar a minha proposta?
Pe. Miguel:
Não é necessário. Prevejo o teu discurso e vejo a concupiscência nos teus olhos.
Cláudio:
Então sua pobreza morrerá pelo orgulho de um padre.
Pe. Miguel:
...Ou pela avareza de um advogado.
Cláudio:
Tenha como certo que o ignominioso se tornará presentes carinhosos diante de mim. Minha corja convenceria Lúcifer a amar... um padre. A justiça é a conveniência do mais forte e a retórica não procura a verdade.
Pe. Miguel:
Pedirei a alguns amigos para fazer jus ao testamento.
Cláudio:
Vá, vá com o seu Deus. Leve as vertigens do paraíso com toda a sua contradição, inclusive essa esperança na utopia.
Pe. Miguel: Embora Deus veja algum motivo para a sua existência, a minha piedade não o compreende. Acredito que a sua tolice e as péssimas bases do seu raciocínio o tornará um cético ou talvez um tíbio. Tenho pena da tua boca e da tua mente. Nada seria tão infeliz do que um outro semelhante a ti. Seja coerente com a tua natureza, ou acaso pensas que és humano? Deves ter por certo que a fé é um dom, contudo a estupidez é uma doença disseminada pelo vírus da ignorância, junto à forte paixão da fraqueza da morte corporal. Se fores humano, respire entre os vivos, defenda o teu sustentáculo natural e use da razão. Não diga que a tentação é o que me fizeste, porque quem vê o
Escrito por Bernardo Veiga às 17h42
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verdadeiro semblante demoníaco julga bem, pois não há mais beleza para cegar. Bem, preciso ir. (Sai.)
Cláudio:
Esse padre pensa que é alguém, não espera a vingança. Ele será tão pobre que perderá até mesmo o que não sonhou ter. Receberá o que merece. Acaso a justiça não seria dar o que é devido a quem merece, e desarraigar por completo quem nunca teve o mérito de possuir o que não deve. A primeira parte já foi feita, só preciso esperar as promessas de Tamiel. Todos escrevem buscando a perfeição do original, mas não há nada que evite a falsificação. (Sai.)
CENA III
Casa do falecido Hermes. Biblioteca.
(Entra Ertael.)
Ertael:
Quando ele chegará? Espero que tenha dito tudo a Penélope. Com Suzana não houve problema algum. Aquela personificação da falsidade, fétida, coberta pela doce beleza justaposta. Quem diria que é por amor que faço tudo isso? Não importo que vejam mal aquilo que faço por bem. Não posso abrir dos cegos os seus olhos, nem iluminar os seus caminhos. Se digo para olhar o céu, eles se negam. Se imploro para contemplar a beleza, eles me ignoram. Não pedirei mais em vão aquilo que não em vão eu faço. (Entra Tamiel.) Quais são as novas, meu irmão?
Tamiel:
Tenho uma notícia boa e outra ruim, estão tão emaranhadas entre elas mesmas que seria difícil negar uma sem abster-se da outra.
Ertael:
Que a sua inteligência lhe guie para passar a boa por último e amenizar a memória.
Tamiel:
A ruim foi ter dito uma falácia, como era devido.
Ertael:
Se era devido não vejo notícia ruim, então conte a outra boa.
Tamiel:
Ninguém reconheceu a minha mentira, não obstante todos a amaram como uma verdade da Revelação.
Ertael:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h42
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Ótimo. Agora o que vamos fazer?
Tamiel:
Prolongaremos até o dia do casamento, enquanto eu estiver perdendo e você ganhando uma noiva.
Ertael:
E vice-versa.
Tamiel:
E no dia do casamento será surpresa.
Ertael:
Tão surpresa a ponto do teu próprio irmão não saber qual será?
Tamiel:
Tão surpresa a ponto de exercitar a paciência e a esperança em quem se desespera pela vã curiosidade. (Entra Pe. Miguel.)
Pe. Miguel:
Boa tarde, senhores.
Tamiel:
Boa tarde.
Ertael:
Não vejo nada de boa nessa tarde – a partir de agora. O que você quer?
Pe. Miguel:
É verdade que venho para pedir um grande favor não para mim, mas em nome das benfeitorias que seriam realizadas com o dinheiro da herança.
Tamiel:
Já não estava tudo resolvido?
Pe. Miguel:
Até a lei negar os meus direitos.
Ertael:
Negue esta lei.
Pe. Miguel:
Estais a falar seriamente?
Tamiel:
O que você precisa?
Pe. Miguel:
De uma pessoa que advogue pela virtude e perfeição.
Ertael:
Que tal um padre?
Pe. Miguel:
Estais brincando.
Ertael:
Ou um Deus?
Escrito por Bernardo Veiga às 17h42
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Tamiel:
Pare com isso.
Ertael:
Ou talvez nada.
Tamiel:
Cale-se, Ertael! Deixe-o contar o seu problema.
Pe. Miguel:
Precisaria saber se vocês teriam algum amigo que conhecesse a lei e a partir dela extrair um bom juízo. Porque tudo que sei é que realmente nada sei e essa ignorância afetará quem não deve, estou pedindo para alguém interromper essa seqüência de fracassos.
Ertael:
Não conheço ninguém com estes atributos. Agora já pode ir.
Tamiel:
Cale-se! (Para Pe. Miguel.) Pedirei a um amigo meu este favor em nome dos nossos laços sanguíneos.
Pe. Miguel:
Muitíssimo obrigado. Raciocinaste muito bem.
Tamiel:
Hoje mesmo ele me disse que estaria voltando para cá – estava na Europa. Então ele olhará o seu caso.
Pe. Miguel:
Estou muitíssimo agradecido. E peço que me dê a honra de conduzir os vossos matrimônios.
Ertael:
Claro que não. Temos muitos padres por aqui. E isto falo por mim e pelo meu irmão.
Tamiel:
Claro que sim. Não ouça Ertael, você conhece as suas vicissitudes. Tenha essa resposta em meu nome e no dele. Fique calmo, amanhã Pátroclo, meu amigo, virá e olhará o testamento a seu favor – porque a seu favor está a verdade.
Pe. Miguel:
Novamente muitíssimo obrigado. Que Deus te guie, meu bom irmão. Agora preciso visitar uns amigos que deixei aqui no Brasil.
Tamiel:
Perfeito. Amanhã trarei notícias.
Pe. Miguel:
Até amanhã.
Tamiel:
Até.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h41
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Ertael:
(...) (Sai Pe. Miguel.) Seu idiota! Por que ainda ajuda Miguel com a herança roubada? Não deverias odiá-lo?
Tamiel:
Quem disse que o ódio não pode ser prudente? Pense e verá que se guiarmos a razão com o ímpeto de vingança não teremos bons resultados. Sem a inteligência o Demônio perdeu a tentação e com ela outros quiseram mais os porcos do que as almas no inferno. Preciso mantê-lo bem perto e me tendo com vero apreço; sem seu apreço não haveria o nosso prazer de vingança.
Ertael:
Quão bela a vilania! E quando você e Penélope se encontrarão novamente?
Tamiel:
Penélope tinha dito que estaria na casa de Suzana, me esperando para sairmos. Ela começará a me odiar e depois fará falsas juras a você.
Ertael:
Ao menos serão juras, falsas ou não.
Tamiel:
Mas eu preciso ir para vê-la, já está escurecendo.
Ertael:
Vá logo, que estarei esperando por ela, fora do restaurante. (Sai Tamiel.) Somente esperando a carniça que já não satisfaz o estômago dos leões. (Sai.)
CENA IV
Apartamento de Suzana.
(Entra Suzana, Penélope e Deméter.)
Suzana: (Para Penélope.)
Aos deuses dê oferendas, aos animais dê veneno. Quem ousa, pois, negar a autoridade própria de cada espécie contradiz a ordem natural dos seres. Seja bem austera, porque não há justiça em levar um tapa e calar-se depois. Erga a mão leve-a até onde a sua consciência ordenar, porém cuidado com os escrúpulos e faça o que é justo em nome de um bem maior.
Penélope:
Farei perfeitamente como diz.
Deméter:
Por quê? O que haverá?
Suzana:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h41
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Nada que a cândida mente juvenil possa encontrar importância. Não lhe convém saber.
Deméter:
Sou eu quem deveria julgar até onde minha curiosidade andará.
Suzana:
Não quando serei eu quem satisfará a curiosidade.
Penélope:
Meninas, não briguem. (Para Suzana.) Qual o problema de contar para ela? Ela poderá aprender muito. Tenha-me como prova.
Suzana:
Então conte, mas não queira apagar com uma gota d’água uma chama inextinguível.
Penélope:
Deméter, na sua inocente idade, conhecer e desvendar as paixões desse mundo a tornaria especial para si. No final dos seus dezoito anos a malícia precisa ser vista como o acaso ou o destino. Veja o Olimpo como o Hades e não negue o contrário. Evite fatalidades como mortes e furtos. Não são nessas coisas que se espreita o demônio. Use do reto juízo para venerar caminhos tortuosos e faça dos puros sentidos uma oferenda a Atena, pois quem do mal se usa sendo burro, besta tanto é quanto no urro. Esqueça os princípios idealistas ou românticos, não é tempo de criar versos de amores perfeitos, para depois cair em pranto ao ver o sonho em ruínas. O amor é moeda de amantes que visam o bem do prazer. Acaso seria Amor o amor sem prazer? Não, não acredite nisso. No caso que advogo o amor já não existe porque não existe amor entre amantes, apenas trocas de gozos e nada mais. Hoje acabarei o noivado por apreço, não ao amor, mas ao prazer.
Deméter:
Por que chama de inverno a primavera? Será que dormiu por três curtos meses durante todos estes anos? Caso não haja fertilidade, plante-o e depois ele se encarregará de germinar sozinho, o solo é da Terra, mas a chuva e o sol vêm do céu.
Penélope:
Não se iluda. As palavras somente ressaltam a idéia contida no belo da idealização, porém as idéias estão à margem do concreto. Não vê isso?
Deméter:
Não, vejo o que não...
Suzana: (Interrompendo; Para Penélope.) Não perca seu tempo! Ela estava em um internato italiano há duas semanas atrás. A antiga literatura italiana não é adequada para os tempos modernos – como sempre é. Beatriz e Laura eram personagens mortos ou desfigurados
Escrito por Bernardo Veiga às 17h41
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diante das idades dos seus autores. Não tente mostrar as chagas se ela nunca as tocará. No entanto com um bom juízo as tocarás. (Toca a campainha.) Deverá ser Tamiel. (Vai atender a porta.) (Entra Tamiel.) Boa noite Tamiel. Como você está lindo!
Tamiel:
Quem é bela apraz-se mais facilmente em ver-se no espelho, e consegue ver o belo em quem realmente é, minha bela Suzana.
Penélope:
(Falsa tosse.)
Tamiel:
O que houve Penélope.
Penélope:
(Sou alérgica a você.)
Tamiel:
O quê, minha Penélope?
Penélope:
Nada. Preciso terminar de me vestir.
Tamiel:
Então termine. (Sai Penélope.) Quem é essa menininha? Parece-me com uma outra beleza, mas não vejo de quem.
Suzana:
Ora, comigo seria o mais provável. Ela é minha irmã e voltou da Itália para estudar em uma faculdade aqui no Brasil. Seu nome é Deméter.
Tamiel:
Sou Tamiel. É um prazer conhecê-la.
Deméter:
O prazer é inteiramente meu.
Tamiel:
Não roube a modesta dos outros e acredite quando o prazer é conclamado. Quem sentirá o meu prazer senão o meu egoísmo? Deixe-me sozinho com ele. Como será inteiramente seu o que só a mim pertence, ou ainda almeja roubar e se deleitar com o ato? (Ri.) Desculpe-me, foi inevitável.
Deméter:
Não se desculpe. Amo pessoas espirituosas.
Suzana:
São os meus favoritos. Teria um imenso prazer em casar com alguém assim. (Entra Penélope, levemente desarrumada.)
Tamiel:
Dessa vez não demorou nem três minutos. Eu posso esperar mais.
Penélope:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h41
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Está dizendo que estou em trapos e feia?
Tamiel:
Jamais. Ai de mim se ousasse pensar em tal falácia. Mas se quiser podemos ir agora.
Penélope:
Vamos. (À parte, para Suzana.) Quanto menos preciosa a perda, menor a dor. Serei menos cruel.
Suzana: (À parte, para Penélope.)
Faça como quiser, mas acabe esse noivado hoje, não adie, nem sinta pena suficiente para refletir o porquê que irá fazê-lo.
Tamiel:
Vamos, Penélope. O jantar nos espera.
Penélope:
Boa noite, Deméter. Boa noite, Suzana.
Tamiel:
Boa noite às damas.
Suzana:
Boa noite.
Deméter:
Boa noite ao casalzinho. (Saem Tamiel e Penélope.)
Suzana: (Pensando alto.)
Ela precisa acabar com esse noivado logo.
Deméter:
Por que?
Suzana:
Ora, é um segredo. E se contar eu não teria coragem para lhe pedir que o guardasse, pois eu não teria guardado. (Pensando alto.) Embora tal segredo a moveria fazer exatamente o contrário, ao menos que ela não saiba. Mas por que Ertael me pediu para eu não contar para ela?
Deméter:
Se não quiser contar, não conte. (Saem.)
CENA V
Restaurante.
(Entram Tamiel e Penélope; sentam-se, entra o garçom.)
Garçom:
Boa noite. Aqui está o menu, peço-lhes que fiquem à vontade. (Sai.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h41
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Tamiel:
O que você vai querer?
Penélope:
Aceito o que você pedir.
Tamiel: (Olhando para o menu.)
Bem, eu não sei... Que tal somente uma bebida?
Penélope:
Faça como desejar.
Tamiel:
Perfeito. Pedirei vinho. (Chama o garçom.) (Entra o garçom.) Este vinho, por favor.
Garçom:
Sim, senhor. (Sai.)
Penélope:
Tamiel, preciso lhe dizer o quê nos fez vir aqui. Triste seria guardar a dor por meio de um silêncio egoísta e insuportável. Saiba que o que faço é somente por amor e por ele é que não o deixo de fazer. O inimigo da iniqüidade sorri ao meu lado dizendo: “Diga Penélope, diga. Fale a verdade porque quem é falaz é asqueroso e caviloso, podre como a lama do piche. Mas o que é podre tem potência para a arte. E pela arte não é homenageado o belo, e acaso não é através do belo que é visto a glória divina? Diga, Penélope, e diga sem mentir porque no detrimento da verdade e somente nele é que consiste a base para a sua inocência – sê firme na valentia, porém fraca na soberba”. Assim diz o meu fiel amigo para dizer o que for, passando por qualquer custo.
Tamiel:
Mas o que seria tão trágico da forma que descreve?
Penélope:
Pedindo assim o meu trabalho fica mais fácil. Preciso lhe dizer que o nosso noivado está... (Entra o garçom e a interrompe.)
Garçom:
Aqui está o seu vinho, senhor.
Penélope:
Saia daqui! (derruba uma taça no chão.)
Garçom:
Perdoe-me, madame.
Penélope:
Perdoarei quando for embora.
Garçom:
Mas, madame...
Penélope:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h40
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Recolha depois, pois já estamos indo.
Garçom;
Perdão, madame. (Sai.)
Tamiel:
Esqueça isso, mas continue o que queria falar.
Penélope:
Quero lhe dizer que o nosso noivado está acabado.
Tamiel:
Mas desde quando?
Penélope:
Desde sempre.
Tamiel:
Por quê?
Penélope:
O porquê eu não sei e muito menos lhe diria se soubesse.
Tamiel:
E tudo ficará assim?
Penélope:
Não vejo melhor forma para acabar. Não se lamente, apesar de toda a culpa ser sua. Eu tenho de você tanta pena, por isso fui gentil. Agradeça a Deus a minha piedade, porque são infindas as maneiras de terminar impiamente. A vida segue e comigo levarei as suas lembranças com um amargo sabor do prazer exacerbado. E somente...
Tamiel: (Beija-a.)
E somente isto eu precisava para dizer-lhe adeus. (Deixa dinheiro para a conta; Sai.)
Penélope:
Maldito! Mil vezes maldito! Alma infame que desconhece os artifícios do inimigo. Antes de Deus nos encontraremos, para não entrarmos no purgatório. (Sai.)
CENA VI
Rua em frente ao restaurante
(Entra Tamiel [saindo do restaurante] e entra Ertael.)
Ertael:
Como foi?
Tamiel:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h40
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Melhor impossível. Mas eu preciso ir. Ela deve estar vindo e seria melhor vocês ficarem a sós. (Sai.)
Ertael:
Será melhor me esconder e aparecer como ao acaso. Qual mulher não estaria melancólica ao terminar um noivado? Que seja unida a sua sorte à minha perspicácia, ou a falsa herança. Ela está vindo. (Esconde-se em um beco.) (Entra Penélope.)
Penélope:
Depois de tudo seria mais condizente apontar e dizer: “Falsa alma perdida!” do que estender a mão para salvá-la. Não posso pedir ao frei a confissão, nem ousaria fazê-lo.
Ertael: (À parte.)
Que monstro!
Penélope:
Não desejo o mal porque acho um bem. Desejo o mal por causa dele em si, do prazer pelo prazer, de um bem deleitável – não honesto –, porque necessito do que me move e não seria um bem senão o de maior semelhança ao mal que desejo.
Ertael: (À parte.)
Que criatura mais pérfida e tenebrosa! Quem diria que meu sonho será consumado nessa coisa que tanto amo? Ninguém escolhe a criatura que ama, e ainda que sejam os serafins caídos, estarão todos na minha cama. (Entra Ertael.)
Penélope:
Há quanto tempo!
Ertael:
A eternidade teria tempo?
Penélope:
Como não? Se a parte conduz a saudade ao todo?
Ertael:
Mas por que anda errante pelas ruas?
Penélope:
Porque a solidão é minha inimiga e é quebrada pelos juízes da fortuna. Não sou mais de Tamiel nem ele de mim. (Chora.)
Ertael:
Nem eu de Suzana. Ó, qual seria a grande solução desta sorte feia e maldita, traçada no pior quadro dos destinos? Acaso seria a morte?
Penélope: (Para de chorar.)
Não. Por que negar a vida e lotar as terras submersas? As almas, que desejam o prazer de abster-se da dor, não são as mesmas que merecem a sina dos baixos círculos.
Ertael:
Até onde vai o seu conselho?
Penélope:
Onde se limita a sua inteligência.
Ertael:
Na fúnebre morte solitária...?
Penélope:
Ou na gloriosa festa em vida. (Beija-o.)
Ertael:
Por que será que adoro festas?
Penélope:
Pelos presentes.
Ertael:
Mas não vejo outros convidados para ganhar mais presentes.
Penélope:
Todos eles são eu.
Ertael:
E onde está o resto dos presentes?
Penélope:
Aguardam-lhe. (Beija-o.) (Saem.)
FIM DO SEGUNDO ATO
Escrito por Bernardo Veiga às 17h40
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TERCEIRO ATO
CENA I
Casa do falecido Hermes.
(Entra Tamiel e Pátroclo.)
Tamiel:
Seja bem-vindo, Pátroclo. Sua chegada é muito aguardada por todos nós.
Pátroclo:
Todos, quem?
Tamiel:
Por mim e Miguel.
Pátroclo:
Quem é esse Miguel?
Tamiel:
Meu irmão. Será o nome dele que você alterará e colocará o de um amigo meu: um advogado renomado que não quer mexer nessa parte burocrática. Será que isso é possível pelos artifícios da lei?
Pátroclo:
Quem é a lei para se impor diante de um advogado?
Tamiel:
(Um advogado desonesto.)
Pátroclo:
Tire em seu nome essa conclusão.
Tamiel:
Diga-me quanto tempo você precisaria para rever toda a papelada.
Pátroclo:
Precisarei vê-la.
Tamiel:
Ela está aqui dentro. (Abre um armário trancado, dá para Pátroclo o testamento e mais outros papéis.) Veja, está tudo aí. Em quando tempo você acredita que resolverá tudo?
Pátroclo:
Acredito que no mínimo duas semanas.
Tamiel:
Você terá no máximo até o dia do casamento.
Pátroclo:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h40
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Quando será o casamento?
Tamiel:
Em quatro dias e mais essa noite se desejar.
Pátroclo:
Mas será impossível! Precisarei de mais tempo.
Tamiel:
Você não está entendendo a situação. É necessário, seu dever e obrigação terminar o que prometeu no tempo devido. Tenha um bom trabalho e seja rápido e eficiente. (Sai.)
Pátroclo:
Este será o meu último favor para essa traça que corrompe até o que já não é puro. Estou escutando passos. Será que ele tem outra coisa para dizer-me? (Entra Pe. Miguel.)
Pe. Miguel:
Boa tarde. Quem és tu?
Pátroclo:
Sou Pátroclo, amigo de Tamiel.
Pe. Miguel:
Prazer, sou Miguel, irmão de Tamiel.
Pátroclo: (À parte.)
Então deverá ser esse o patife que perderá toda a herança.
Pe. Miguel:
Será você quem ele disse que me ajudaria?
Pátroclo:
Aqui estou. E ele me pediu para olhar novamente os papéis.
Pe. Miguel:
Quando o senhor chegou?
Pátroclo:
Cheguei há algumas horas, vim de Portugal.
Pe. Miguel:
És então, um concidadão meu. Onde moras? És natural de Portugal?
Pátroclo:
Não, nasci no sul da Espanha em Cádis, mas minha família se mudou desde minha tenra idade para Porto. Por que perguntas?
Pe. Miguel: (À parte.)
Será mesmo ele? (Para Pátroclo.) Freqüentavas a igreja da Lapa?
Pátroclo:
Sim. Como sabes?
Pe. Miguel:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h40
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Ora, meu caro Pátroclo. Sou eu, padre Miguel. Era pároco dessa igreja há dois anos, depois fui para uma igreja em Fátima.
Pátroclo:
É o senhor! Como fui idiota! Como não o reconheci? Maior cego é aquele que não usa da razão. Tinha um enorme prazer em escutar as suas homilias. Praticamente todas baseadas na oratória de Santo Agostinho.
Pe. Miguel:
A honra é minha. Lembro quando te via após o Angelus rezando. Num dia te vi novamente e te perguntei: “O que o senhor diz quando reza?” Daí, você segurando um pedaço do livro de Dante respondeu:
“Em ti, misericórdia; em ti, piedade,
em ti magnificência, em ti se junta
quando há criaturas de bondade...”.
Sábias palavras dantescas. Muito sábias...
Pátroclo: (À parte.)
Como eu trairia um padre? Até os vilões tem seus dias de piedade. Direi tudo a ele. (Para Pe. Miguel.) Tamiel me pediu para falsificar o testamento, desviando toda a herança para um outro amigo dele, em vez de você.
Pe. Miguel:
Ele não faria isso.
Pátroclo:
Sou a personificação e prova do seu ato. Agora se tudo correr dentro da lei você terá o que te é devido.
Pe. Miguel:
Que Deus te guie.
Pátroclo:
Serei pela primeira vez cumpridor da justiça desse mundo. E para um padre, que ainda é meu amigo.
Pe. Miguel:
Faça o que deve ser feito sem curvar a justiça, e sem fazer distinção de pessoas; não aceite presentes, porque presentes cegam os olhos do sábio e destroem a causa dos justos. Bem, mas posso te mostrar as belezas dessa terra e das igrejas. Não demoraremos, o suficiente será pouco, pois muita beleza há em apenas uma dessas ruas. Vamos?
Pátroclo:
Uma boa idéia para iluminar a mente. (Saem.)
CENA II
Escrito por Bernardo Veiga às 17h40
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Loja de vestidos de noiva.
(Suzana, Penélope [experimentando vestidos] e Deméter e costureira.)
Suzana e Penélope:
Como estamos?
Deméter:
Infectadas por uma beleza insuportável, inexorável, temível e digna de adoração. Estão verdadeiramente lindas, já não há grau mais elevado diante dessa excelência. Não sei se seria um insulto a Deus ou a vocês compará-las com Ele.
Costureira:
Um insulto a elas certamente.
Suzana:
Mil agradecimentos.
Deméter:
A propósito vocês não tinham desistido de casar?
Suzana:
Sim. Mas ontem de noite tudo mudou e Penélope está noiva de Ertael e eu noiva de Tamiel. Ontem foi tudo muito rápido e bom. Apenas lembro-me de não ter acordado onde deveria, mas onde gostaria. Tamiel agora é o meu noivo.
Deméter:
O que lhe atraiu nele?
Suzana:
Dentre todas as suas características a mais digna de orgulho é a que o liga comigo. A partir daí todas as outras são derivadas, embora ele seja exatamente da maneira que envergonharia os homens e as mulheres por compartilharem a natureza. Ele é vil, mas não um simples vil de mocidade que está associado às paixões e às fraquezas, porém um vil de baixeza e asqueroso que o faz soberbo na medida em que o seu autoconhecimento aumenta. Mas não se ama os atos vis por bondade de coração, e por acaso muito menos se devota a corações vis bons atos? O mal atrai o mal, na medida em que nenhum mal pode ser semelhante exatamente ao outro. Opostos procuram semelhantes, mas se conformam e se completam com opostos. Um bom destino ele terá – isso é inegável – porque quem está perto de um santo se torna benevolente. Tamiel não será meu eterno noivo, faltam poucos dias para o término dessa fase de amor sem amor, de prazeres sem o prazer, de vida sem resplendor. As chagas do passado não existem mais, e ele, somente ele é o suficiente para reestruturar as velhas esperanças, porém atual incerta sina.
Deméter:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h39
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Quanto vale o seu amor?
Suzana:
O suficiente para durar por uma única vida.
Deméter:
Quanto seria esse suficiente?
Penélope: (Interrompe.)
Não faça estas vãs perguntas. Deixe a sua irmã em paz com o suficiente que lhe convém. Seu trabalho estava mais produtivo enquanto nos contemplava. Tenha a boa vontade de continuar.
Deméter:
Fiquem vocês se desgraçando que vou para bem longe. (Sai.)
Suzana:
As jovens dessa idade... Eu lhe falei que ela não tem cura. Sonhará com dias que poderá ao menos ter sonhos e se arrependerá de ter amaldiçoado a consciência de todos.
Penélope:
Que a vida lhe ensine para nos agradecer e dizer: “Não ouvi a voz que vocês disseram. Não ouso mais perguntar a Suzana: ‘Por que ainda me amas, se fui tão cruel que tal atitude seria insensata.’” Ou agradecer a Deus: “Obrigado pelas minhas duas conselheiras, mas me perdoe pela minha mente que repousou e permitiu a razão condená-las”. Ou ainda: “Penélope seria a minha melhor amiga se as desgraças utópicas não me deixassem onde estou”. Assim ela falaria, lamentando-se da sua decisão e desejando o perdão vergonhoso.
CENA III
Praça no centro da cidade.
(Entram Pe. Miguel e Pátroclo.)
Pátroclo: Quando a triste fortuna desta vida me persegue, desespero e tento segurar em uma base sólida. Não há como esperar na fé se pela fé a sorte veio. O traço que a minha escolha segue é a morte de si mesmo por si só. A perdição de Adão e Eva, de Judas e Lúcifer, de Lutero e Maomé me tranqüiliza a tal ponto que me torno vulnerável aos desígnios do destino. O orgulho supre as minhas desgraças cultivando a esperança de um amanhã frutífero. Não é de todo mal o mal desejado, apraz-me mantendo calmo; a serenidade me mantém esperançoso, a espera me conduz à confiança, embora seja tão pérfida e singular na qual é minha, somente minha, onde a verdade não se encontra.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h39
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Assim me deterioro, me torno pó, vejo-me pó, mas penso que sou ouro achando que sou Deus. Sou levado até à falsidade que agrada, até o ponto que acordo e vejo que não era essa a vontade de antes. Não era para ser como antes? Se antes mudou, algo permaneceu para ver que o erro nunca saíra de mim. Ele estava lá, onde as entranhas do ser se escondem, no doce delírio cruel da infância até o premeditado e genial assassinato. Lá, e nada além do que o lugar onde exatamente estava. Ah, se a memória daqueles tempos revivesse os poucos momentos de guardar e reescrever as horas perdidas. E nesses tempos olhavam para o templo de Apolo, ficavam perplexos e diziam: “Por que é tão importante conhecer a si mesmo se a disposição torna-se-á depressiva?” Por que será, por que, meu bom amigo, se o que vejo será tão ruim que encherei de ar os meus pulmões e nunca mais expirarei para não tirar do outro a alegria de respirar um puro ar?
Tamiel:
Despreze até onde não é a vontade divina. Não é desejo de Deus que você padeça e seja embarcado para o sétimo círculo, muito menos que revele a todos e propague em tom alto ou oscilante que odeia tanto o orgulho que, de vez por vez, se orgulha disso. Quem disse que não foi pela Lua que mingúe, ou pelo Sol que tarda que hoje não é um bom dia para amar. Primeiro a Deus, segundo aos outros e depois, caso ainda haja tempo, a você.
Pátroclo:
Por que o amor? Por onde caminharei para encontrá-lo; ou realmente precisarei dele? Amor pela vida que transpassa... ou pela transpassada vida que eu amo? De onde emana amor só há beleza? Ah, tão boa pergunta para quem vê o amor de modo invisível.
Pe. Miguel:
Se o seu amor é visível, mostre-me.
Pátroclo:
Não vês na beleza da origem?
Pe. Miguel:
Se nessa beleza vês tanto amor, imagine o amor tanto da Beleza... Perdão, Pátroclo, mas aquele que vem é meu irmão. Peço que tenha paciência para depois continuarmos essa conversa.
Pátroclo:
Faça da maneira que desejar. Onde está Tamiel?
Pe. Miguel:
Não é ele. Quem vem é Ertael. (Entra Ertael.)
Ertael:
Bom dia, meus concidadãos! Hoje não é uma boa tarde para se dizer bom dia?
Pátroclo:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h39
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Boa tarde, senhor.
Pe. Miguel:
Boa tarde, meu irmão. O que houve contigo que estás tão alegre?
Ertael:
Não é a minha mente que se alegra, porém o corpo. Se o que pensasse fosse tão reto quanto o meu estado, agora estaria estirado nas covas do meu próprio mausoléu. É feliz enquanto dura o meu noivado com Penélope. Não sei bem, mas respiro Horácio em que meu espírito ofega. Carpe diem! Carpe diem! Carpe diem! (Solfejando.)
Pe. Miguel:
Contenha o teu espírito. Há quem não deseje ver-te gritar na praça.
Ertael:
Quem no verdadeiro juízo desejaria tal malvadeza contra a arte?
Pe. Miguel:
Alguém com um bom juízo. (Sorri.) Estou aguçando o teu ânimo, apenas conversa entre irmãos.
Ertael:
Claro... (Silêncio.)
Pe. Miguel:
Ah! Perdão, este é o amigo de Tamiel, Pátroclo, ele nos ajudará no testamento. E este como soubeste é meu irmão.
Ertael:
Prazer. (Cumprimentam-se.)
Pátroclo:
Prazer.
Pe. Miguel:
Além da alegria como andas?
Ertael:
Com ela e com a beatífica visão refletida. É Penélope quem move os meus membros. Não basta os sentidos em vê-la para descrevê-la. É a forma que transcende ao reconhecimento da beleza. Só Deus realmente veria aquilo que é se o que é, é tanto que só com o tanto que o que é capta o que é. Eros viu porque é um deus, caso não o visse ainda seria deus, pois deuses são todos os que tudo vêem, embora quais seriam aqueles presenteados por Zeus a receber dádivas, para sublevar em ato de contemplação a personificada beleza? Quanto mais vejo mais a sede aumenta, porque infinita é a beleza tal qual Deus a descreve:
“Há como não ter fé no autor dess’arte
se o belo já reflete todo o ser.
Criatura amável, bela e cintilante
Escrito por Bernardo Veiga às 17h38
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na terra toda afague o sofrimento
por via de cruel contentamento,
conquanto venha ser-me como amante.”
Quão bela é a piedade divina!
Pe. Miguel:
Mas o que fazes na praça?
Ertael:
Respiro o ar de Penélope.
Pe. Miguel:
Por que não estás com ela? (Entra Deméter no fundo.)
Ertael:
Ela está com os seus vestidos, se preparando para o nosso dia. (Deméter se aproxima de Ertael.)
Deméter:
Tamiel, lembra-se de mim?
Ertael:
Seria possível, se não me chamasse Ertael.
Deméter:
Oh, perdoe-me senhor, você se parece muito com um conhecido meu. Mas qual o nome que o senhor disse que se chamava?
Ertael:
Se digo que me chamava, digo a verdade. Ertael é o meu nome.
Deméter:
O mesmo que estava noivado com alguém conhecida como Suzana?
Ertael:
Perfeitamente. De onde me conhece?
Deméter:
Das lembranças da minha irmã?
Ertael:
Então se chama Deméter, a irmã de Suzana do internato.
Deméter:
Ex-internato...
Pe. Miguel:
Bem, é tempo de despedida e quanto maior o laço maior a dor no adeus. Em vindouros tempos nos conheceremos melhor. Até o dia do casamento.
Pátroclo:
Até a próxima vez.
Ertael:
Adeus.
Deméter:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h38
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Adeus. (Saem Pe. Miguel e Pátroclo.)
Ertael:
Mas que feliz conhecidência! Vacas magras engordam de graça.
Deméter:
Como vão os preparativos para o casamento?
Ertael:
Temos quatro dias para tudo e mais o que falta. Ainda que eu fosse Cronos não haverá maneira de melhorar a festa. Você estará lá ou não?
Deméter:
Claro. Farei de lá o meu lar e sentarei nos primeiros bancos da igreja, (como o urubu espreita a carniça diante dos leões.)
Ertael:
O que deseja dizer com isso?
Deméter:
Nada que te causaria contentamento neste seu sorriso infantil. Vejo que está feliz com o casamento.
Ertael:
Também vejo que me vê. Mas o que acha do meu casamento com Penélope?
Deméter:
Que dure o que durar, resista no que exista, porém mantenha eterno nesse tempo.
Ertael:
Haveria oportunidade dele ser tão forte que a utopia o limite na concretização de uma duração?
Deméter:
Quantos horas há no dia, quantos segundos nos minutos, quantos décimos há em detrimento profundo? No tempo não há limiar ao tempo; o que começa pode se perder nesse próprio círculo vicioso do movimento temporal. Entre duas partes, o que as separa poderá ser tão infinito pela duração, ou intensa por movimento, que o mortal torna-se-á criatura eterna.
Ertael:
Acaso eu soubesse que isso perderá o valor em quatro dias, mudaria o que me disse?
Deméter:
Sim. Porque o tempo é movimento e todo ele tem uma causa que gera um produto finito ligado à finalidade dele.
Ertael:
Reflete bem, muito bem. Poderia eu saber como uma senhorita tão bonita e inteligente ainda está perdida perambulando sozinha, sem amantes?
Deméter:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h38
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Porque não é o ouro que escolhe o seu dono. Primeiro ele é desejado tão intensamente que nesse instante já é pecado, depois o ouro é posto de lado e somente o prazer de desejar pelo prazer de desejar é que nutre e aumenta a cobiça e a ambição infrutífera. Pois assim diz o metal: “Temei, povo errante pelo ouro que nunca tocará nem no fulgor que verá. Não olhem para o brilho porque se vê-lo logo morrereis. O amor é dourado e folheado a mim, pois se torna difícil saber se é oco ou maciço”. Entrego-me à nobreza pelo ouro maciço que espero desde a minha meninice. Guardarei o preconceito para me casar.
Ertael:
Terá data para tal?
Deméter:
Bem, segundo o modelo de Ptolomeu será para a próxima vigésima lua, quando o sol nascer entre os pólos e as geleiras derreterem, alagando as grandes ilhas continentais.
Ertael:
Sua astronomia disse que você se casará, quando o mundo entrar em colapso? Por que se deixar levar por este modelo precário e geocêntrico?
Deméter:
Porque o que me seduz é a liberdade de pensar errado, de falar errado, pois não gosto do que é dito como certo, ou muito menos do que é realmente.
Ertael:
Então não gosta do real?
Deméter:
Tanto quanto ele é desejado nos sonhos. Em pesadelos o real é o que me livra do desespero de cair na alucinação. Em bons e verdes, brancos e vermelhos sonhos o repudio, porque o que vem de longe fere o que eu supostamente toco.
Ertael:
Que tal passearmos e apreciarmos a realidade em sonho?
Deméter:
Se a minha companhia desejar eu a acompanharei.
Ertael:
Ela me disse que será um prazer notável.
Deméter:
Será que eu devo acreditar no que ela diz?
Ertael:
Caso seja falso, responderei em nome dela.
Deméter:
Então o que ela diz agora?
Ertael:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h38
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“Vamos, o tempo urge.”
Deméter:
Muito bem sensata. Vamos! Antes que o tempo urja demais.
Ertael:
Ela me pediu para eu ir, tem algum problema?
Deméter:
Não. Venha e nos mostre o caminho para o passeio. (Saem.)
CENA IV
Escritório na casa de Cláudio.
(Entra Cláudio e Tamiel.)
Cláudio:
Como está caminhando o plano?
Tamiel:
Por entre vales que cruzam rios tempestuosos e chegam em vastas planícies sem horizonte.
Cláudio:
Não vê como se fará o plano?
Tamiel:
Bem... Claro que vejo, tudo está aqui na retina. Vejo que paira no ar um cheiro podre e uma imagem bela.
Cláudio:
Então vê acertado. Essa combinação do belo e o podre são tão atraentes que ofusca quem deseja ver. Bem-aventurado são vocês, porque vêem. Saberá que essa tua visão lhe renderá frutos, e muito deleitáveis. Ostentarás uma riqueza ornamental. (Ouro.) Já chegou aquele advogado espanhol?
Tamiel:
Sim. Ele passará tudo para o seu nome.
Cláudio:
E depois algo para você, que pouco fez, mas muito foi útil.
Tamiel:
Muito bem lembrado.
Cláudio:
E tudo isto deverá se realizar antes do seu casamento.
Tamiel:
Perfeito.
Cláudio:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h38
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Ademais, você sabe que estes preparativos que eu paguei estão me tirando do sossego.
Tamiel:
Quer algo em troca? Se precisar de um bobo, posso ser um. Sou bobo por amar a tolice, mas detesto a profissão. Deseja rir?
Cláudio:
Ouvirá meus risos quando rirmos por último diante do altar.
Tamiel:
Rirá diante de Deus?
Cláudio:
Não faz mal. Se ele estiver ao meu lado, os efeitos serão os mesmos.
Tamiel:
Então lhe espero na igreja para proclamar a união...
Cláudio:
(... da paixão e da ambição.)
Tamiel:
(... do amor e da razão.)
Cláudio:
Verei até onde se une tal amor com a sua cega razão apaixonada.
Tamiel:
Não despreze a fraqueza, mas contemple a fortaleza.
Cláudio:
Odeio castelos e filósofos. Seja como for, aja como já fora prescrito. A vitória é doce, mas cheira amarga. Não olhe o pecado que lhe move, porém o vício que alcança. Vire a sua face para o crível e real, fuja das desventuras e sofrimento deste ato, não pense, porque quem muito pensa pouco faz. Aja como homem, sê homem até o fim e diga: “Quem quiser levar a minha alma para os desgostos deste caminho, que a leve! Leve toda ela para a solidão que a conduz ou para a devassidão que provoca, no entanto sabe e conhece muito bem que a virilidade irá comigo para as profundezas do inferno e de lá nunca sairá, porque em terra sem Deus quem é homem é rei.” Agora vá e nos veremos no dia do casamento.
Tamiel:
Conforme o senhor desejar. (Saem.)
FIM DO TERCEIRO ATO
Escrito por Bernardo Veiga às 17h37
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QUARTO ATO
CENA I
Casa de Suzana.
(Deméter lendo, entram Suzana e Penélope.)
Penélope:
Faltam dois dias para o casamento. Os preparativos foram todos pagos. A igreja clama por nós, não é maravilhoso?
Suzana:
Realmente é. (Para Deméter.) Que faz aqui?
Deméter:
Moro com você. Não se lembra?
Suzana:
Maldita seja essa lembrança! Enquanto minha mente vagava pela ignorância do esquecimento vi-me feliz. Agora diz a verdade que relembra a verdade.
Deméter:
Antes a mentira?
Suzana:
Se eu nunca viesse a conhecê-la, por que não? Acaso não é melhor uma mentira vil do que uma vil mentira?
Deméter:
Não queira ter essa resposta. Ou acaso não é melhor um idiota indagando do que um tolo respondendo? Queira como quiser, mas não foi por isso que fiquei até aqui esperando você chegar.
Suzana:
Haveria outro motivo, senão a minha companhia?
Deméter:
Queira Deus que sim. Pois como já é conhecida a solenidade do casamento em tão pouco tempo, eu gostaria de pedir em nome de todos os costumes e dos valores morais que ainda cada indivíduo respeita no seu âmago. Por favor, Suzana, respeite o que perpetuou o casamento dos nossos pais, avós e bisavós.
Suzana:
Diga.
Deméter: (À parte.)
Ninguém é totalmente mal. (Para Suzana.) São duas as tradições da nossa família que pouco você se lembra, porque pouco dava importância.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h37
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Suzana:
Porque pouco valem essas tradições, mas continue.
Deméter:
A primeira e a mais importante delas: toda primogênita deve se casar na capela onde nossos avós, bisavós e pais casaram. Hoje a capela está entre os ornamentos bucólicos e os lembretes da tradição. Peço-lhe que se cumpra esse costume por todos os nossos parentes e pelos futuros herdeiros. Fará cumprir?
Suzana:
Conte-me antes a outra parte, para lhe responder.
Deméter:
A segunda consiste em um jantar na noite de véspera da celebração e os parentes mais próximos deverão estar presentes. A nossa bisavó fazia questão de dizer: “Quanto vale o amor que nem vale a pena devorá-lo?” A ceia precisa ser farta como um banquete. Como diria a nossa avó Beatriz: “Deus ama ao sacramento. Deus ama os reis. Ora, não são os reis que se banqueteiam até o limiar da gula? Então se agíssemos como tal, logo por que Deus não nos amaria?” Além disso, como existe um vínculo sanguíneo entre os noivos não haverá problema em convidar Penélope.
Suzana:
Certamente não haverá.
Deméter:
Então fale com Tamiel para preparar amanhã de noite o nosso jantar.
Suzana:
“Nosso jantar?” Por que nosso?
Deméter:
Nós (cinco.)
Suzana:
Ainda conta muito onde deve pouco.
Deméter: (À parte, para Suzana.)
Pode se desejar ignorar o convite a Penélope.
Suzana:
Bem, pensando melhor, essas coisas de costumes e tradições são apenas crendice. E não vejo causas, nem outro motivo senão o da estupidez para essa tradição.
Deméter:
Esqueça o jantar, a igreja no campo e ignorem o que disse. Finjam que a conversa ainda continua. “A igreja clama por nós, não é maravilhoso? Realmente é”. Continuem (Silêncio.) Se assim consentem, mantenham-se assim. Mas pelo menos alguém aqui precisa ser responsável. Alguma biblioteca poderá me acolher. Até. (Sai.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h35
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Penélope:
Pensei que ela nunca nos deixaria em paz. Bendito seja o nunca porque veio.
Suzana:
Bendita foi a idéia dela para eu confirmar as suspeitas que tenho.
Penélope:
Quais?
Suzana:
Nada que a sua paciência não possa esperar. Hoje mesmo falarei com Tamiel, nós quatro jantaremos como princesas e eles como eles. E para mostrar que a benevolência é presa ao sangue pedirei a Tamiel que faça o casamento onde Deméter desejava. Em tempos tempestuosos, qualquer lugar é inseguro.
Penélope:
Sinto um cheiro fétido no ar. Haverá verdades que não são verdades. Também desejo vê-las, mostre-me.
Suzana:
Tenha paciência, minha podre amiga, espere e verá o que aguarda. Mas para o jantar sinta como uma princesa, seja uma princesa, mas pense como meretriz. Verás o que deseja quando também for desejado pelo tempo. Escolha a melhor roupa e terá menos de trinta horas para fazê-lo.
Penélope:
A melhor roupa em um pior tempo é impossível! Só um milagre!
Suzana:
Deus ajuda a quem cedo se cuida. Prepare-se porque o banquete está por vir. (Sai Penélope.) Não direi o que não sei nem levantarei o dedo para quem não merece. Antes, sobretudo será bem-vindo o gosto que muito arde e pouco se cansa, pois homem leal nunca existirá. Que se calem os idealistas que negam a amarga realidade. Céu e terra cairão, porém nada os afetará, nem nos portais mais baixos onde a Fera se encontra. Mas a dúvida não é certeza e divagar sobre o absurdo é insano. Quem terá piedade da minha alma? Que seja a Prudência ou a Justiça, porque sou confusa inatamente.
CENA II
Casa do falecido Hermes.
(Entra Tamiel.)
Tamiel: Não acredito que perdi a minha vontade. Quem deveria controlar quem? Esse jantar não estava nos meus planos, muito menos o casamento nessa medíocre
Escrito por Bernardo Veiga às 17h35
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capela no fim do mundo. Será que deveria cumprir a palavra? Claro, senão Suzana poderá suspeitar da mentira por um desvio de conduta. Mas entre uma mentira pequena e outra rica em detalhes é mais fácil pelejar em prol da primeira. Quanto mais gordo o corpo mais difícil escondê-lo, a menos que não haja corpo para brincar de esconde-esconde. Não sei, realmente não sei, e não há conselheiros que me ajudariam nessa decisão a não ser que seja... A não ser que seja... (Entra Pe. Miguel.) Padre Miguel!
Pe. Miguel:
Diga, meu bom irmão.
Tamiel:
Não me chame de irmão você é muito mais, meu humilde pai. Preciso da sua ajuda, porque a minha consciência me condena. O pouco que há de puro deseja salvar o que a está corrompendo, todavia o que há de podre impede com enorme pejo que eu peça permissão para pedir o que desejo.
Pe. Miguel:
Houve homem algum que nunca foi tentado? Peças, se a minha permissão te inibe eu posso doá-la, e poderás fazer o que desejar, basta dizer para ela. Trate-a como tua.
Tamiel:
Mas é difícil dizer e tão fácil calar-me.
Pe. Miguel:
São demais os perigos desta vida para quem tem fé. Mas se não estás preparado, eu preciso falar com Pátroclo e depois poderei voltar para falar contigo.
Tamiel:
Não, não, fique! Você quer a minha alma ou a minha vontade?
Pe. Miguel:
Eu a vontade. Deus a alma.
Tamiel:
Preciso dizer que meu ato não foi de grande relevância, por isso não quero confessar. Desejo um conselho, apenas um. A situação perverteu o meu ato e a minha vontade. Não digo que o que fiz foi em vão, porque não foi, nem afirmo que a sua utilidade leve alguma alma para as profundezas, o que definitivamente não é verdade. O que fiz foi dizer que é aquilo que não é ou dizer que não é aquilo que é. Uma simples falha nos juízos somente, nada além. O fúnebre vem depois, porque eu não disse só para mim mesmo. Outras pessoas ouviram e viram o que desejaram ver sem questionar o porquê; ora, porque lhes convinham. Agora eu desespero por ação minha diante dos outros.
Pe. Miguel:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h34
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Como desejas um conselho verdadeiro se não contas o fato como deve ser ouvido?
Tamiel: (À parte.)
Perdido em um perdido em mil... (Para Pe. Miguel.) Na verdade eu preciso pensar melhor. Melhor desviarmos do assunto. Bem, mas sabe o que Pátroclo me pediu para lhe dizer?
Pe. Miguel:
O quê?
Tamiel:
Amanhã pela manhã ele terminará a análise do testamento e lhe mostrará.
Pe. Miguel:
Ótima notícia!
Tamiel:
Hoje teremos um jantar entre os casais. Além disso, lhe esperamos para celebrar a grande festa amanhã. A igreja será na casa da avó de Suzana, minha noiva, isolada em uma fazenda.
Pe. Miguel:
Não há problemas. Contudo não esqueça do que desejava me dizer. Mesmo assim, agora devo ir. Mas não esqueça.
Tamiel;
Não esquecerei... (Sai Pe. Miguel.) Esquecer o quê? Não há o que esquecer, porque a minha fraqueza já passou. Meu Deus, como me fizeste quase uma boa humilhação? Tenho sorte que fui salvo, ainda há quem vele por mim. Disto eu não devo me esquecer. Primeiro, nesse momento, preciso preparar-me para o jantar, convidar Ertael e pedir-lhe para trazer a sua noiva. Além disso, Pátroclo deve ser relembrado do seu dever, para salvar a nossa herança – ou talvez só minha. Céus! Minha mãe não me reconheceria nesse estado entre a maledicência e a vilania. Certamente diria: “Pobre bebê que foi desvirtuado. Qual seria o meu desejo senão o de Santa Mônica? Que Deus tenha um bom fim para a sua alma, porque a minha natureza já não vê o que era devido a uma mãe. Esteja com ele, meu Deus”. Minha mãe, minha mãezinha não chore, ainda vivo e não será em vida que andarei errante pelo Hades. Tenha esperança somente em Deus, porque se a sua fé está em mim, então se alegre de ter gerado mais uma alma para o inferno. (Sai.)
CENA III
Na mesma casa, na sala de jantar.
(Entra Ertael.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h34
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Ertael:
Por que será que Tamiel não está aqui? Afinal é em um banquete entre casais não é justo haverem pares sem casais. (toca a campainha.) Quem será? Não deve ser ele, porque não saiu de casa. Deixem que eu atenda, a curiosidade move a indolência. (Abre a porta, entra Penélope.) Como vai, Lady Penélope?
Penélope:
Melhor é impossível.
Ertael:
Não tão melhor quanto a mim, embora eu não veja o Éden...
Penélope:
Vês o quê então?
Ertael:
O próprio Deus. Contudo será impróprio ver impuro o que é puro.
Penélope:
Quem poderá confirmar que as suas palavras não mentem quanto à minha pureza? Toque em mim e não perceberá Deus, mas sentirá o que sou por não ser Deus. Ainda deseja mais alguma prova?
Ertael:
Não, porém desejo um desejo.
Penélope:
O que você pede chorando que eu não faça sorrindo?
Ertael:
Vamos comer o mais rápido possível nos cantos escuros do salão. Eu poderia segurar a coxa da sua galinha para divertirmos.
Penélope:
Mas não há problema em começarmos a cear antes do toque exato do relógio?
Ertael:
Não, pois o tempo é movimento e meu estômago deseja esse momento. Venha sentar-se comigo.
Penélope:
Você adora saborear os petiscos antes do principal.
Ertael:
Quem disse que os mais prazerosos não são os petiscos?
Penélope:
Mas o que faremos com a sobremesa?
Ertael:
Que a deixe sobre a mesa, porque até o céu pode esperar, menos isso. (Beija-a, e toca a campainha.)
Penélope:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h34
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Não será melhor você atender?
Ertael:
Não. (Toca a campainha.)
Penélope:
Vai atender.
Ertael:
Irei, mas não toque ainda na comida. (Vai atender a porta, entra Suzana.) Quem vejo e quem me vê, acaso não é a minha futura cunhada (À parte.) inoportuna?
Suzana:
É ela, com todo o prazer de ser premiada com numerosos parentes.
Ertael:
Tenha a bondade de entrar.
Suzana:
Muito agradecida. (Para Penélope.) Você não costuma chegar tão cedo? Desejava antecipar a lua-de-mel?
Penélope:
Claro que não, por isso que a Lua espera o sol para se deitar. Seria tão fácil chamá-la de Sol caramelado, ou de astro-de-doce-fulgor, pois poderíamos nos servir dela sempre. O tempo que dura o dia é de espera para a Lua e para um grande preparo dos astros. Todos vivemos na luz, mas é na sua ausência que perpetuamos a espécie.
Suzana:
Que Sol mais puro!
Penélope:
De Sol puro à Lua infame. Qual a melhor hora para praticar vis ações, pérfidas confissões, demoníacos desígnios e paixões desordenadas? A noite é refém do trágico destino que, solitário, conta as intermináveis horas para o amanhecer de um novo dia. Não há manhã sem Sol, a luz ilumina os caminhos tortuosos e relevantes, desde a maior nuvem que inibe a beleza da luz até a alumiação do minúsculo ponto escuro. Ou não concorda comigo?
Suzana:
Sem nada tirar nem pôr.
Penélope:
Sabe julgar bem. (Entra Tamiel.)
Tamiel:
Perdoem-me pelo atraso; vejo que me esperavam. Uns contratempos roubaram o meu tempo.
Penélope:
Todo tempo é tempo para chegar.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h34
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Suzana:
Embora todo o tempo tende a acabar. Pensas que somos árvores e que nos divertimos com a singela alegria de permanecer-nos em pé? Onde mora a tua razão?
Tamiel:
Acalme-se, meu amorzinho. Espere até o sim do altar e depois regozija nessa tua ironia. Meu pavê cremoso. (Beija-a e abraça-a.)
Suzana:
Quem disse que para ver é preciso tocar? Cremoso é o teu cérebro ou vê tudo cremoso como doce vê o céu e salgado vê o chão.
Tamiel:
Não deseja meus elogios, que não passam nem um pouco da verdade?
Suzana:
Não tanto quanto a sua boca fechada.
Ertael: (À parte, para Tamiel.)
Não se culpe pela raiva de uma mulher sem antes se lembrar das fases da lua.
Tamiel: (À parte, para Ertael.)
Não acredito que seja a lua, mas ela sempre é cúmplice. (Para todos.) Se não desejam conversar, então poderemos nos servir. (Entram criados pondo a mesa.)
Penélope:
O meu estômago diz que sim.
Ertael:
Que dirá a minha gula?
Suzana:
Mas o que dirão do meu jejum?
Ertael:
Está jejuando, minha Lady, por mortificação da quaresma?
Suzana:
Não. Somente hoje farei por necessidade.
Ertael:
Faça o que desejar, porém vos imploro que nos acompanhe.
Suzana:
Farei como deseja.
Tamiel:
Os criados já estão servindo a mesa. Que tal compartilharmos com o prazer dela?
Suzana:
Que a maioria decida por mim.
Ertael:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h33
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Vamos, já são quase dez e meia e nem nos sentamos à mesa.
Penélope:
Seguirei a vontade do meu noivo.
(Tamiel é o primeiro a sentar, a mesa é grande de quatro lugares. Depois senta Suzana, a ficar na frente de Tamiel e idem para Penélope e Ertael.)
Tamiel:
Desejado é o dia de amanhã. E grandiosos os votos e felicidades para um só dia, seria impossível extraí-los em uma só data a cada quatro estações. Haveria justiça mais sábia do que a divisão entre a agonizante véspera e o momento das bodas? Convidados, hoje será tão gozoso que peço que sejam comedidos para poderem se lembrar da vida que desfrutaram em terra e poderem dizer a São Pedro: “Não me lembro da caridade feita, porém me lembro da temperança desmedida. Todos os dados estão em qualquer remanescente, morarei com os desterrados cuja pátria – o inferno – me acolherá e esquecerá das virtudes que pratiquei, para ter boas lembranças dignas de memória”.
Ertael:
Continue.
Tamiel:
Em meio a tempos melindrosos é fácil guardar o passado próximo. Não há como negar que houve uma morte na nossa família.
Ertael:
Não diga.
Tamiel:
Nosso pai está morto. Tão morto como se diz e como verdadeiramente é. Os vermes apoderam do seu corpo; desejam tão veemente um pedaço que não é capaz de dividir com nenhum dos outros. É impossível um verme sozinho consumir todo o corpo, mas o desejo de ter o que os outros não têm sem mérito algum é maior, e isso gera guerra entre tais criaturas. Como todos possuíam as mesmas forças, nenhum deles conseguirá ganhar o corpo como planejavam. Desiludidos, esquecerão da fome e procurarão outros corpos onde possam conseguir sobreviver nessa teia alimentar. (À parte.) Embora se jaz o corpo, no mínimo um verme deleitar-se-á.
Penélope:
Que nojento!
Ertael:
Estamos ceando.
Suzana: Não vejo problema em colocar no meio da comida de tamanha graça temperos nojentos. Os vermes não são tão verdadeiros como a comida? Aquela massa me parece um apetitoso prato de minhocas, tão suculentas que a tentação me
Escrito por Bernardo Veiga às 17h25
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tirará do jejum (Come.) Bon apetit. Comam, comam ou não é a vontade do anfitrião?
Tamiel:
Claro, claro, por que não seria? Se o banquete não fosse para tal fim poderíamos contemplá-lo como arte.
Penélope:
A arte não causa náusea.
Tamiel:
Logo, podemos comer! (Todos comem.)
Suzana:
Tamiel?
Tamiel:
Diga, minha princesinha.
Suzana:
Posso lhe fazer uma pergunta na frente de todos?
Tamiel:
Pode fazer quantas quiser e durante o tempo que durar.
Suzana:
E se for um segredo?
Tamiel:
Bem, um segredo?
Penélope:
Permita-me responder. Não há nenhuma façanha ou feito heróico que mereça permanecer em segredo. Imagine se Penélope tivesse dito a Homero: “Não conte a todos as gestas do meu marido. Esqueça a sua passagem pela ilha de Calipso. Não conte, por favor. Porque o homem que enfrentou o filho de Posido é o mesmo que não mantém segredos que compartilha no leito com a sua esposa”. Como seria Odisseu se os seus segredos não fossem revelados?
Ertael:
Quais segredos foram? Quem poderá afirmar se o que muitos dizem é segredo se conhecemos? Não há segredo no que já foi revelado. O passado não existe e com ele foram enterrados os seus segredos.
Suzana:
O que você diria daqueles que ainda rondam o presente?
Ertael:
Se realmente são segredos, precisam ser guardados, senão não seriam segredos.
Suzana:
Há problema em investigá-los?
Tamiel:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h24
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Por que haveria problema? Agora pergunte e conduza os meus ouvidos.
Suzana:
Em nome dos anti-marções gostaria de saber exatamente o que houve com a herança do seu pai. Também gostaria de saber quem pagará o nosso casamento se a herança só virá depois dele.
Tamiel:
Ora, minha cara, pensei que desejasse o sexo dos anjos. Contudo não há segredo onde procura, apenas dúvidas. O antigo advogado da família está tratando desses assuntos – junto com um amigo meu da Espanha. Não há o que temer. O advogado nos emprestou dinheiro para a cerimônia e todas as despesas desde os impostos até as regalias dos seus vestidos. Satisfeita?
Suzana:
Até esse momento...
Ertael: (A Suzana.)
Como vai a sua adorável irmã? Quando a vi Deus me dissera: “Vês um anjo” e Ele estava certo. Ai!(Penélope chuta-o por debaixo da mesa.) Mas nada nem ninguém supera a minha Perséfone. (A Penélope.) Deméter não é nada se compararmos a Perséfone, ao elogiar a mãe endeusamos a filha sem fugir da verdade – pois deusa ela é. Penélope, não fique enciumada, não vê o destino de Otelo e Desdêmona; Deseja a nossa morte? Sabe que se falo da beleza de outrem é para lembrar que a sua não merece esses falsos elogios. É como é e é tão formosa que me orgulho de ser seu. Tenho misericórdia das outras pobres mulheres que nunca desfrutarão do que é belo, porque não são como você. É por piedade – e talvez por pena – que não digo o que é real sobre as outras, senão as feriria muito. Minto para confortar a sorte de cada mulher e a desventura das suas aparências.
Penélope:
Até o final do dia eu te amo.
Ertael:
Por que não até a eternidade?
Penélope:
Até lá não viverei. Embora, como disse Tamiel, não há como negar a amplidão deste dia. Que seja eterna essa noite! Sei que viverei para vê-la no seu final.
Tamiel:
Oh! O amor é o melhor tempero. Comam! Comam! A sobremesa ainda está por vir. (Todos comem.)
Tamiel:
É inquestionável o prazer da gula!
Suzana:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h23
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Não, não acho, e como é meu achismo tenha como verdadeiro.
Tamiel:
A verdade não pode ser questionada? Não gostou do jantar?
Suzana:
Não.
Tamiel: (Fala para um criado de fora.)
Traga-nos a sobremesa, logo. (Para Suzana.) Está mais feliz?
Suzana:
Como posso estar feliz com um prato de comido? Talvez se eu fosse um mendigo estaria aos pulos e abanando o rabinho, esperando a caridade pesar na consciência de um outro andarilho. Se a comida me desse felicidade não jantaria aqui. (Entram dois criados e servem a sobremesa.) Não vim para comer, nem para empanturrar o dito estômago e fazê-lo deus. E mesmo se estivesse aqui para tal, não existe bom fruto sem bom paladar e não existe bom paladar se não há sentidos. Quem tem coração ferido come podre. (Saem os criados.)
Ertael:
E se a ferida for feita por Eros, somente por ele? Toda comida não seria boa? Bom apetite para bons pratos, o coração fere não a comida, mas aos sentidos. Não fale mal daquilo que é bom, nem fale mal daquilo que é mal, veja bem o mal e quando falará mal?
Suzana:
Essa ferida não foi feita por nenhum Cupido idiota. Nêmesis é testemunha dela e sua fiel criadora. Não há deusa que, usando seu ímpeto odioso, destrua o mais lindo topo do Parnaso. Se Zeus tudo dá e tudo tira, faz vilania certamente por Nêmesis que arranca até os ossos de suas vítimas. Pavor eu tenho de acordar amanhã e não mais desejar casar.
Tamiel:
Mas por que essa deusa é tão má com você?
Suzana:
Por erro dos mortais. Tamanho foi o erro que em favor da cega justiça ela me instiga a vingar a pérfida ação que me fizeram.
Tamiel:
Quem seria tão ímpio a ponto de causar mal a mais linda flor do Parnaso? Ser cruel e desalmado! Que seja impressa definitivamente a vontade dos deuses!
Suzana:
Seu desejo é exatamente este. O que eu devo fazer?
Tamiel:
Obedecer.
Suzana:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h23
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Não antes de provar que ela está certa. Ela não deseja, porém eu sim. Uma resposta é o que eu desejo.
Penélope:
Se lhe aflige tanto, pergunte.
Ertael:
Faça-a, sem hesitar.
Suzana:
Duas verdades contraditórias podem ser como retas paralelas distintas. Ou concorre e somente uma vencerá, ou ainda nunca encontrarão a verdade no fim. É com triste pesar que introduzo esta pergunta conhecendo a resposta, que não será dita. Reluto em perguntar, mas quem permitiu foram vocês, ainda que quem permite o que quer viola o que não quer. Ertael me disse algo que não pareceria ter lógica. Lógica faz, se estivesse sozinho, isolado dos fatos reais e da verdade. Contudo há dois dias, à noite, quando as orgias acordam, ouvi da boca cuja carne de bom vinho, dizia uma terceira vertente para a verdade, uma diferente da que tinha escutado por Ertael e da que supunha. Essa dizia pela boca de Tamiel – no leito capcioso – que não estava com Tamiel toda a herança...
Penélope:
Isso era segredo. A herança irá para Ertael, todinha.
Suzana:
E se eu dissesse que ela não está nem com Tamiel e nem com Ertael?
Penélope:
Eu diria que é uma mentira, para eu não casar com o meu amorzinho e desfrutar a herança com ele.
Suzana:
Você está se iludindo. O casamento será amanhã e você verá de onde vem essa ilusão.
Tamiel:
Acalmem-se, para tudo há explicações – verdadeiras ou falsas – mas há. Se vocês têm alguma dúvida eu chamarei um hóspede meu que está cuidando da burocracia do testamento. Só o chamarei pessoalmente para que se transcorra normalmente esse jantar. Com licença. (Sai.)
Ertael:
Confiem no que o seu amigo diz. Ele é advogado e provará se são reais esses boatos ou frutos de uma imaginação doentia.
Suzana:
Somente espero a verdade.
Penélope:
Eu também. (Entra Tamiel com Pátroclo.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h23
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Tamiel:
Este é um velho amigo, Pátroclo. Ele está cuidando da parte burocrática.
Pátroclo: (Bocejando.)
Boa noite senhores. Pelo que no decorrer do caminho Tamiel falou para eu dizer... (Tamiel dá um chute nele discreto.) Ai!... Perguntou para eu dizer sobre o destino do testamento. Bem, primeiramente eu digo que o assunto não cabe às noivas, porque não receberão nada... (Tamiel dá um chute nele discreto.) Ai!... Elas receberão tudo, tudo e mais um pouco. E será dividido para alguém que vocês não conhecem... (Tamiel dá um chute nele discreto.) Ai!... Será dividido ao meio para os dois casais.
Tamiel:
Agora que tudo está resolvido não vejo mais motivos para Pátroclo permanecer aqui.
Ertael:
Nem eu.
Pátroclo:
Nem eu. (Bocejando.)
Tamiel:
Então, vá acabar o seu trabalho, porque o casamento é amanhã.
Pátroclo:
Tenham um bom jantar e lembrem-se quando estiverem nas suas confortáveis camas que eu estarei trabalhando como escravo por capricho de Tamiel. Boa noite, senhores. (Sai bocejando.)
Tamiel: (Senta.)
Agora podemos continuar as comemorações, porque não há nada a esconder e tudo para falar. Falemos sobre as nossas festas antigas para alegrarmos a nossa.
Suzana:
Bem, se Penélope desejar comemorar mais, que fique. Amanhã tenho uma festa e um sacramento a cumprir. Como já foi dito e confirmado, será na capela na fazenda da minha avó Beatriz. No melhor lugar que a natureza pode comprar. Boa noite, agora preciso ir.
Penélope:
Espere-me, também irei. Não há bom casamento se não há boa noiva e só há boa noiva se ela estiver sã, lúcida e, sobretudo acordada. Preciso dormir. Até amanhã de manhã. (Saem Penélope e Suzana.)
Ertael:
Foi por pouco.
Tamiel:
Tudo já estava planejado. Melhor turbulências na terra do que nos céus. Amanhã iremos ao campo para casar, como ao velho Éden.
Ertael:
Mas por que você resistiu à vontade de Suzana?
Tamiel:
Pela minha fraca vontade, pois exceto nos incompreendidos demônios todo mal carrega bondade, pois há mal que por maldade diz-se bom para contrariar ao mal. Agora vamos também dormir que amanhã precisaremos de nossas forças para lembrar que ainda podemos mentir. (Saem.)
FIM DO QUARTO ATO
Escrito por Bernardo Veiga às 17h23
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QUINTO ATO
CENA I
Capela na fazenda de Beatriz.
(Entra Tamiel, Ertael, Pe. Miguel, Cláudio, Deméter, Beatriz, Velho, dois violinistas [homens] e um celista [homem].)
Beatriz:
Quem é o padre, minha neta?
Deméter:
Padre Miguel.
Beatriz:
Não o conheço. Ele deve ser novo na vocação.
Deméter:
Ele veio de Portugal, para celebrar o casamento dos noivos, seus irmãos. Já os vejo chegando.
Cláudio: (Para os músicos.)
Preparem-se para a beleza e a harmonia. A música é mais esperada que o casamento. Toquem, toquem. (Música. Entram Suzana e Penélope.)
Deméter:
Não é verdade que o amor é belo! É tão lindo! Doce fissura da minha alma, ainda mora um lar acolhedor? Não é por quem amo não desejo o amado, só ver-me amando e vê-lo idolatrado. Espírito que me conduz, dei-me a oportunidade de amar, ao menos a infelicidade de sentir a dor da traição, causada por infortúnios do presente, mas edificada pela sorte na boa origem do passado. Apenas uma chance, meu pequeno Eros, somente uma. Não há nada a perder. Se for o seu trabalho, faça-o. Eu vos imploro em nome da sua mãe que tanto mal lhe deseja quanto a mim. Lembre-se das poesias que fiz ao relento somente para contemplar a própria beleza das suas flechas e da graça do seu nome. Venha doce Eros, dispare logo a flecha e faça-me esquecer dessa inveja pecaminosa. (Pára a música. Suzana e Penélope estão diante do altar, ao lado de Tamiel e Ertael.)
Pe. Miguel: É pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo que nos reunimos. Que toda a Trindade esteja nos olhando sobre olhos misericordiosos e complacentes. Dignai-vos agora a escutar com atenção estas palavras. Há entre o céu e a terra força maior para acabar com um casamento senão a divina? O que Deus uniu o homem não separa. Quem poderá separar é a morte outorgada por Deus na
Escrito por Bernardo Veiga às 17h22
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sua perfeita sapiência. Quem não viverá em uma selva escura longe da bonança, nem de fortuna? Enlouquecei, meus caríssimos, pelo infindo amor divino. Não vês nem a gota do Oceano. Diz o cego que de longe ainda parece uma vasta miragem muito bonita, porém irreal. Contudo o que o cego nega ter visto não quer dizer que seja fantasioso, porque a visão de um cego não é digna de crédito. Bem-vindo à celebração deste sacramento. Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher e já não são mais que uma só carne. Alegrai-vos e vede a beleza da forma sacramental, a perfeita harmonia da diversidade no uno que concebe em si o espelho da Beleza perfeita, o paraíso está vazio e os anjos estão todos aqui conosco. Ademais, aqueles que amam se tornam escravos do amado e muito mais devotos são do amor. O que ao vulgo dizem escravidão, na verdade é grande liberdade. Pois, se amam quando são livres, de fato são livres porque amam. Assim, quem não veria um brado contra a modernidade amoral e um sustentáculo digníssimo do matrimônio? E tudo não tão-só pelas próprias forças, mas pela graça do sacramento, que a cada dia manterá no amor o que sem ele seria impossível... Tamiel e Suzana, sobre todos os vícios e pecados, sobre toda desarmonia, em verdade haveria motivo para continuar o casamento?
Suzana:
Sim.
Tamiel:
Bem, se já começou; idem.
Pe. Miguel:
Que a guarda de Deus desça sobre vós e permaneça para sempre. Suzana, em nome de todo sofrimento, da paixão desvirtuada, da tentação insuportável, é seu desejo sobre tudo se casar com Tamiel?
Suzana:
Sim, sobre tudo.
Pe. Miguel:
Tamiel, em nome de toda tortura, da razão desvirtuada, da dor insuportável é de seu agrado sobre tudo se casar com Suzana?
Tamiel: Bem, depois de dias vivendo os desencontros como se fossem encontros, apalpando o pecado na mais atraente forma, é agora digno da minha palavra consolidar o sangue perdido em vida pela alma ganha. Não posso dizer que digo não, porque negar me parece tão cruel que em silêncio tudo permaneceria estável. Então, sobre este aspecto não vejo motivos que me obriguem a dizer não, a não ser o próprio penoso sacramento. Como o silêncio é a voz dos inocentes, então a minha será marcada por ruídos desenfreados com a interseção de outras vozes que façam jus ao juízo conclamado. O sim parece
Escrito por Bernardo Veiga às 17h19
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mais sonoro, embora não seja com o som o meu casamento – muita pena, pois ele muito me agrada. Entre o sim e o não, não haveria algo entre o talvez e o silêncio?
Pe. Miguel:
Não.
Tamiel:
Vejo muito pouco para julgar o que penso dessa forma. Acredito que o tempo me ajudará a pensar. Então no corrido tempo meditado não vejo solução senão dizer um breve não, para depois pensar. O que você acha, Suzana?
Suzana:
Diga sim, depois pense!
Tamiel:
Perfeito, pois, se não há quem eu confie, preciso de uma esposa confiante. Logo, sobre todas as peripécias do destino jogo tudo à sorte e também à alma dos meus futuros filhos. Sobre tal julgo não há bem-aventurança para o sim, mas como os meios mais tortuosos estão para a educação da vontade, não vejo mais “nãos” para dizer sim. Digo sim, aceito casar acima de tudo falado e de tudo não falado por incompreensão dos próximos funestos sentimentos. Meu sim está só de baixo de tudo o que é mais sagrado. Meu irmão, minha resposta é certamente sim.
Pe. Miguel:
De conúbio acordo, não vejo mais motivos para permanecerem ainda noivos. Agora se houver alguma alma que não se salvará com esse casamento, que se pronuncie em sua defesa. Mas caso haja outro impedimento que se manifeste agora ou que seja enterrado sob os sete metros do chão. (Silêncio.) Não me parecem haver problemas, logo eu vos declaro... (Entra Pátroclo, segurando papéis.)
Pátroclo:
Pare essa desgraça, em nome de Deus!
Pe. Miguel:
Meu filho, qual é o seu problema?
Pátroclo:
Se o fosse meu o problema, eu não estaria aqui. E vendo dessa altura, o problema está bem mais próximo de você do que de mim.
Pe. Miguel:
Não pode ser dito depois do casamento?
Pátroclo:
Poderá, se for mutável a vontade divina.
Pe. Miguel:
Diga, o que há?
Escrito por Bernardo Veiga às 17h18
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Tamiel:
Diga e seja breve.
Pátroclo:
Mas meu amigo, não há tempo curto quando falamos de riquezas e amores. Vejam-me somente como arauto desta nova, porque só da notícia sou portador, não da sua concepção. Como Jeremias me coloco defendendo os judeus desgraçados que não possuíram méritos para receberem a pena celeste, todavia sem o profeta não há conversão, mas sem Deus não há nada. É óbvio que é pelo testamento que eu falo, nada além dele. Quando foi lido pela primeira vez, – pelo que me disse Miguel – tudo era para o padre, porém nada para o resto. Sinto lhes informar, mas o testamento foi alterado por Cláudio da forma exata que foi lida, para depois ele ficar com o dinheiro devido a Miguel, o qual não teve sucesso. Posteriormente, pediu a Tamiel que me mandasse alterar o testamento, só não fiz por devoção a uma antiga amizade. Agora que li e reli, vendo de todos os ângulos e fórmulas, espreitando até a mais fina camada de sujeira e procurando até onde a lente não observa. Após toda a investigação eu não consegui encontrar mais lógica na sanidade do seu pai falecido. Não cabe a mim julgar a sorte dos mortos, mas ver dos mortos a sua sorte. (Olha para o seu relógio.) Vejo que já é quase meio dia, o que me pede para dizer logo para quem será a herança. Deixe-me ler o testamento, o verdadeiro: (Lê.)
“No meu leito entrego a Deus o meu espírito, que seja feita a sua justiça, porém que seja a humana defendida pelos homens justos. Serei o mais lacônico possível em defesa do término desse testamento.
Não há outros sangues vivos da minha prole. Somente três deles restaram. Nada mais justo do que um terço seja distribuído a cada terça parte. Mas Tamiel e Ertael travaram uma batalha comigo e combateram um mau combate. Visto assim deverá haver penitência para esses, porém ao outro – Miguel – glória sem esforço, mas com méritos. Decido que um terço exato dos meus bens serão para Miguel, meu filho caçula. Os outros dois terços precisam de duas condições para que os recebam. Primeiro: eles não poderão se casar com aquelas meretrizes Suzana e Penélope – nenhum deles. Segundo: antes do Sol passar exatamente sobre as suas cabeças, em sete dias vocês deverão estar casados na igreja, pois vadia alguma terá o meu dinheiro, afora se estiver casada e que não seja essas duas. Caso não seja comprida qualquer uma dessas partes os dois terços serão para o meu fiel advogado, Cláudio. Se um de vós se casar e o outro não, quem se casou receberá os dois terços para serem compartilhados entre ele e a sua mulher. Meus caríssimos, não cuidem tanto da fortuna que não vos pertence. O que vos pertence não é possível ao toque. Rezem pela minha alma contingente
Escrito por Bernardo Veiga às 17h18
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que rezarei ao Incontingente para lhes guiarem até Ele – caso meu espírito não esteja pervertido. Minha sinceras lástimas.
Adeus, Hermes”
Sete dias se completaram e a justiça será feita, porque não há outro senão o modo do testamento. Falta não muito tempo para o meio-dia.
Tamiel: (Joga Suzana no chão.)
Saia daqui! Não quero vender a riqueza pelo sacramento.
Ertael:
Não há riqueza que pague a beleza. Acaso não é de Deus essa beleza extrínseca ao seu poder? Como comprarei do rei o seu reinado se as minhas terras são suas? Em nome da conversão e da humildade digo ao povo que me caso.
Penélope:
Vais casar com o teu amor? Não vejo amor que seja teu. Com quem vais casar meu Dirceu? Marília bela da utopia já morreu. Ela não sou nem você será meu.
Tamiel:
Preciso de uma esposa!
Velho:
Estamos pertos da criação do nada. Não há distância próxima que não seja distante, nem distante que seja alcançável. Talvez a uns trinta quilômetros possa haver alguma cidade habitada.
Suzana:
Quer dizer que vocês não conseguirão nada. Morrerão sob o entulho e as fezes de quem os cercam.
Tamiel:
Fezes foram o primeiro trabalho de parto da sua mãe. Mas como a justiça divina é infalível o seu erro foi consertado, para a próxima fecundação a beleza deveria ser abençoada, por razões do primeiro monstro já criado; o segundo seria um anjo humanizado. Foi de Crono e Réia nascido, para deixar a beleza divina marcada com traços de mulher adquiridos. (Para Deméter.) Deméter, minha esperança sem fim. É em vós que esperava e inquieto andava meu coração, perambulando junto às aves de rapina, mas agora, pelicano, é em vós que espero o meu repouso.
Ertael:
Se Penélope repudia o meu amor, há quem não o repudie. Venha, Deméter, fecundar a terra, espero por um milagre, por que não vir de uma deusa? Nos casaremos antes que o sol nos cubra.
Deméter: (À parte.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h17
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Muito obrigado, meu doce Eros. Para quem desejava um esposo vir, dois é uma graça. Ainda que os deuses fossem só mitologia, sem meu Eros eu nada seria. (Para Ertael e Tamiel.) Não sei qual de vocês irei escolher. Não posso cometer bigamia? Se Deus visse a minha mente, teria a mesma decisão?
Pe. Miguel:
Ele vê e tenha certeza de que ele não teria. Agora eu preciso saber quem serão os casais que casarão?
Tamiel e Ertael:
Eu e Deméter!
Deméter:
Não briguem, meus senhores, porque há Deméter para todos, pois não há deusa limitada.
Cláudio:
O que não impede que os deuses desçam para o Hades, se for a vontade de Zeus, que tudo manda e todos obedecem. (Corre atrás de Deméter.)
Tamiel:
Você não tocará na minha herança!
Ertael:
Fique onde está!
Cláudio:
Com noiva e noivos é bem provável haver casamento, mas o tempo urge e não se passaram desde agora trinta dias. Sem padre não há casamento. (Corre em direção ao Pe. Miguel e aponta uma arma para a sua cabeça.) Vocês querem trocar o padre pela noiva?
Ertael:
Nunca!
Tamiel:
Sem padre não há dinheiro. (Segura Deméter e leva até Cláudio.)
Suzana:
Maldito!
Tamiel: (Troca Deméter por Pe. Miguel.)
Cláudio:
Falta um minuto para o meio-dia. Se vocês derem um passo a frente não terão noiva, caso contrário será meio-dia e ela já nada valerá.
Ertael:
Faça alguma coisa, Tamiel!
Tamiel:
Sou tão útil quanto você.
Cláudio:
Meio minuto.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h17
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Pe. Miguel:
Não façam nada! Tenham paciência.
Pátroclo:
Se passar do meio dia já não há nada a fazer.
Cláudio:
Dez! Nove! Oito!
Tamiel:
A vilania sempre tem razão.
Cláudio:
Sete! Seis! Cinco! Quatro!
Beatriz:
Minha netinha!
Cláudio:
Três! Dois! Um! Agora os dois terços da herança serão meus pela lei. (Joga Deméter no chão.) Você já não tem mais proveito. Quem disse que no fim tudo acaba bem? Quando o mercenário faz o seu trabalho, acaso não é uma boa sorte para ele e o benfeitor, porém infeliz para a vítima? Que os ateus culpem o destino, no entanto só vejo as mãos de Deus. Sede justos, meus caros, para serem enganados pelos injustos. E é por eles que eu respondo dizendo que o meu papel já fora feito:
Defendi a minha terra
Onde canta os marajás
E os‘‘trangeiros não me olham
Como vermes lá de trás.
Não vejo mais o que fazer senão dizer aos meus inimigos adeus e rezar pelas suas miseráveis almas, muito apegadas aos bens desse mundo. Adeus. (Sai.)
Tamiel:
Mil desgraças caiam sobre a hora! Perdemos os nossos dias pelos joguinhos do nosso pai.
Ertael:
A pobreza pode impedir de casar-nos? Não é sobre qualquer dano ou desterro que os casais se amam? Casemos, minha cara, a bem-aventurança não te atrai? Deméter:
Mais que tudo.
Tamiel:
Casem com a indigência, que sempre vem acompanhada com a vergonha.
Ertael:
Riqueza dessa vida é mal segura
E a beleza do amor é que perdura.
Tamiel: (À parte, para Pátroclo.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h17
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Deixe-me ler novamente o testamento. (Pátroclo entrega a ele que o lê.) (À parte.) Quem diria que ainda há esperança em meio a sentimentos de fundos luxuriosos? No testamento diz para casarmo-nos antes que o Sol esteja sobre nós, não meio-dia. Estamos nesse inferno que sofre pelo vapor de enxofre e pelo calor de Apolo. Certamente é abençoada por Deus essa estação. Verão, doce verão, deixe-me banhar com o seu suor e sentir as horas do sol vagaroso. Uma hora é o atraso do Sol, nessa bendita terra brasileira que tudo se vê menos rouxinol. O verão merece o seu horário como eu a minha herança. (Para Deméter.) Acabo de rever o testamento e já me acostumo com a miséria. É lindo ser pobre como é podre ser rico. Ademais, não quero que os infernos me tentem com a ganância e esqueçam da voluptuosidade. Deixe o meu irmão, a pouco ele estava para casar com outra e muda de repente. Como é volúvel a vontade humana!
Ertael:
Você também, mesma carne, mesma inquietude.
Tamiel:
Se chama de inquietude amar a beleza e desejar o sacramento, eu chamo de perspicácia. Tolice seria morrer pobre, vítima de um erro erótico. Deméter, até onde pode perder a honra do homem irei para adorá-la. (Ajoelha-se.)
Deméter: (À parte.)
Que romântico! Meus sonhos infantis se tornam reais.
Pátroclo:
Poderíamos dividi-la em duas. As partes seriam depois sorteadas a cada um ou revezadas durante os dias da semana.
Tamiel: (Levanta-se.)
Mas eu olharia para a beleza de cima imaginando o prazer de baixo. Bem, sobre isso não me pareceu tão tola a idéia.
Ertael:
Vocês falam sério?! Até onde irá a fertilidade imaginativa dos pervertidos?
Deméter:
Acho que a minha opinião deveria valer alguma coisa.
Tamiel:
(Para Ertael.) O que você acha de cortá-la?
Ertael:
Antes do teu lado do que esquartejada.
Deméter:
Ao menos há alguém são por aqui.
Tamiel:
Ótimo, tomemos como onipotentes as suas palavras e comecemos o casamento.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h16
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Pe. Miguel:
Retomemos o casamento.
Ertael: (À parte.)
Não queira Deus o mal de Deméter, mas sim a ruína desse casamento. Veja que não há mal em fugir de Tamiel, um verme asqueroso que tudo fala e tudo mente. É virtude fugir dos vícios, como é vil fugir da bonança. Deus, julgue melhor, evite esta desgraça, faça orgulho ao teu servo. Vinde, espírito celeste e dai-me a sorte do amor, e quando vier, antes bata nos portais de Dite para chamar um anjo e peça para ele lhe ajudar a combater Tamiel pela causa sacramental. Não o deixe fazer nenhum mal ao padre (porque eu mesmo faria), porém ainda preciso dele.
Pe. Miguel:
Deméter e Tamiel, sobre tudo já ocorrido é do desejo de vocês continuarem o casamento?
Tamiel:
Do meu desejo perfeitamente. (À parte.) E dos meus vícios.
Deméter:
Sim.
Pe. Miguel:
Tamiel aceita Deméter como...
Tamiel:
Sim, aceito, claro.
Pe. Miguel:
Deméter, aceita Tamiel como esposo sobre tudo o que já fora dito para a sua irmã?
Deméter:
Sim.
Pe. Miguel:
Já não resta mais nada a fazer. Acaso há algum impedimento para o casamento? (Silêncio.) Então eu vos declaro... (Entra com uma arma.)
Cláudio:
Pare esse casamento, pelas suas vidas!
Pe. Miguel:
Leve a tua vilania para fora, porque nada há para roubar. Tu já não tens os teus bens? Por que voltastes?
Cláudio: Porque ainda falta meia hora para o ápice do Sol. Essa estação desgraçada quase tirou os meus bens. O horário de verão não impedirá que o sorriso dos astros. (Músicos se aproximam de Cláudio.) Vocês verão que sem noiva, nem
Escrito por Bernardo Veiga às 17h16
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padre, não poderá haver casamento. (Dispara e atinge Pe. Miguel.) (Músicos o atacam e ele dá outro tiro sem precisão e acerta Tamiel.)
Deméter:
Que horror!
Suzana e Penélope:
Um socorro para o padre e Tamiel!
Ertael:
Segurem-no bem!
Músicos:
Ele não fugirá, senhor.
Ertael:
Ele não está sangrando. É um milagre! Mas como isso pode ser verdade? A bala o fez cair no chão. (A Pe. Miguel.) Estás vivo?
Pe. Miguel:
Deus me salvou pela medalha de São Vicente. Tão certo como o ar que respiro existe um Deus zelador.
Ertael:
Ou um vilão com péssima mira e muito azar.
Deméter:
Tamiel dorme por sangue meu, e eu choro pelo seu. Não ousarei acreditar que isso seja verdade, porque me tornei viúva antes de me casar. Durma, Tamiel, até onde o tempo perdurar. (Tamiel morre.)
Suzana:
Por mais cruel e fria que seja a alma humana, nenhuma ignora a morte, porque quando um vivo vê um morto chora de inveja por conhecer que a dor da morte não lhe veio, mas virá. Sangue ao chão e o sorriso de Nêmesis nos Olimpos, pois de lá nada quebra a vontade dos deuses, que de tantos e tantos desejos realizados por um, esquecem que são as perdas de um os ganhos dos outros. Ainda há tempo para Nêmesis reinar novamente com sua foice afiada. Que Ertael case com a minha irmã e assim, Cláudio cairá na prisão. A penúria afetará o teu orgulho e a vingança será consumada. Falta pouco tempo para a primeira hora da tarde, aconselho a vocês que se casem logo, pois tempo é dinheiro.
Ertael:
Vamos, Deméter. Agora foi-nos revelada a chance, veremos quão bom foi todo esse mal. C’est la vie.
Deméter:
Mas o meu noivo está morto a minutos.
Ertael:
Escrito por Bernardo Veiga às 17h16
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E em menos que o dobro desse tempo você tornou sua noiva. Esqueça disso, o tempo não pára, ainda mais os astros. O Sol se aproxima, já quase nem vejo sombras. Casemos, e depois cuidaremos dos problemas. Se não casarmos, daremos todo o dinheiro para Cláudio, o que será ruim para a nossa doce vingança.
Deméter:
Casemos o quanto antes!
Ertael:
Seja rápido, Miguel.
Pe. Miguel:
Antes que o tempo urja, é nosso dever dar glória a Deus. Ertael, és do teu desejo casar com Deméter?
Ertael:
Sim.
Pe. Miguel:
És, Deméter, do teu desejo casar com Ertael?
Deméter:
Sim.
Pe. Miguel:
Sem mais interrupções. Eu vos declaro marido e mulher.
Pátroclo: (Vem à frente do palco.)
Se o homem é a medida de todas as coisas, cabe a mim ser Deus. Se chamo o vil de belo e o belo de vil, cabe a cada um tornar-se vil e belo. Pois a justiça não se fez presente, porque não há justiça entre a malvadeza humana. A monstruosidade moveu a morte, pela sede da ganância, que gerou a vingança e depois germinou no choro desses honráveis concidadãos. O mal tende a expandir, porque para cada olho arrancado e para cada vida desvirtuada um demônio se deleita. No deleite pavoroso da criatura se esconde o desejo de mais, mais e mais. Não ponho como paciente dos acontecimentos, porque pouco realmente sofri pela frieza que corrompe a minha alma. Hoje triunfará o reinado de Ertael que manterá vivo até que a fortuna seja dissipada. Por quanto perdurará o que não dura? Quem se lembrará das vãs almas? Meu caro Ertael, eu vos saúdo por vender o amor que pouco vale e pouco importa pelas incertezas do que é bom e agradável. (Saem.)
FIM
Escrito por Bernardo Veiga às 17h15
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