Pequeno comentário sobre o marxismo (parte 1 de 2)
Bernardo Veiga
As pessoas de boa vontade possuem um nobre sentimento de querer fazer o bem, mas o problema consiste em conhecer os melhores meios para a realização de tal fim.
Como, com a grande ascensão do capitalismo desumanizado, sobretudo a partir dos anos 90, o mundo se tornara mais desigual sócio-economicamente, parece não haver outra solução senão a retomada dos ideais marxistas. Mas, devem ser considerados dois aspectos dessa filosofia: a sua verdade e viabilidade.
Segundo Karl Marx, todo conhecimento seria fruto de uma realidade histórica, isto é, não possuiria um valor em si mesmo, mas somente enquanto realidade do seu tempo. Nenhuma religião seria verdadeira, porque teria um valor somente numa sociedade específica; e, a metafísica clássica e medieval seria restrita ao seu universo positivo de conceitos éticos e morais. Não haveria conhecimento absoluto, mas todos seriam relativos a um tempo, espaço e às relações do modo de produção.
Uma primeira pergunta que poderia ser apresentada – que Marx procurará responder – é de natureza formal. Como é possível compreender o fato de todo conhecimento ser histórico, sem que o marxismo seja entendido como fruto de uma realidade de protesto, frente à exploração dos proletários do século XIX? Se o marxismo for considerado fruto do seu tempo, logo seria destruído por si mesmo, pois não teria valor em outra era, mas somente na própria. Por isso Marx se vê obrigado a afirmar que a sua teoria transcende a História. Não é fruto do seu tempo, porque é atemporal.
A proteção de Marx para um outro plano fortifica cada vez mais a sua filosofia, pois todas as outras seriam falsas – representações das sociedades, que estariam contidas numa auto-alienação pela Ideologia.
Enquanto forma o marxismo possui uma grande defesa. Pois, necessariamente tudo que não é marxista é Ideologia. Quem atacar Marx, estará sempre nesse mundo da Ideologia. A sua guarnição é praticamente perfeita, pois o adversário não poderá nem cogitar uma argumentação, porque estará sempre dentro deste sistema de alienação.
Inicialmente não podemos dizer que o marxismo seja falso, mas tampouco podemos dizer que ele seja verdadeiro. Se ninguém, afora Marx – ou quem o segue – pode dizer o que é a verdade – ou o relativo –, então o seu argumento não é científico. Porque, de acordo com Karl Popper, só há ciência enquanto houver a possibilidade de refutação. Ora, se toda tentativa de refutação é compreendida como Ideologia, não há possibilidade de argumentação. Volta-se ao mito, na tentativa de fugir dele. Se há uma cega crítica sobre a religião, pode-se fazer da crítica uma religião. Um absoluto de que não existe absoluto. Um grande ódio por aqueles que odeiam. Uma vingança sanguinária contra os criminosos.
(Na história, há exemplos conhecidos, como o ataque à catedral de Notre Dame de Paris, durante a Revolução Francesa. Quando destruíram os altares laterais dos santos, ultrajaram as hóstias consagradas, queimaram as imagens, assassinaram os religiosos etc, puseram nua, no altar central, uma prostituta e os iluministas se estenderam de joelhos, em sinal de reverência, para a “adoração” da deusa da Razão. Fugiram da adoração do Deus, para outro ser. Desta forma o racionalismo, enquanto culto à razão, é uma forma de paixão pelo Entendimento.)
Mesmo afirmando que o marxismo seja mito, ainda não é possível afirmar que seja falso, porque há a possibilidade do mito ser verdadeiro. Então, seria necessário analisar a relação da mitificação com a própria estrutura dessa filosofia. Ser qualquer coisa não é um problema da parte da forma, mas poderá ser, se negar a possibilidade da existência da própria coisa. Se existir uma ciência que negue a possibilidade da ciência, aquela será falsa, porque se aniquila. E, o mesmo para o mito. Seria a mesma coisa admitir a existência de um círculo quadrado, isto é, uma contradição em si mesma.
Diferente da afirmação de que não há verdade afora o marxismo, que pode ser defendida pela fuga para uma realidade sem história, a defesa do mito é muito mais estrutural e precede as conseqüências do sistema. Não dá para afirmar que existe um mito histórico e outro atemporal, um inválido e outro verdadeiro se o dito verdadeiro acaba categoricamente com toda a possibilidade da existência do mito.
Não é bom que um mito seja atacado pelo que ele diz – pela parte material –, porque sempre haverá uma forma de salvar o mito ao invés da realidade. Perde-se o mundo para salvar o sistema.
O marxismo, como todo mito, não permitirá que esta argumentação seja válida. Dirá que é fruto da Ideologia, tentativa de outra alienação. Como não é possível argumentar contra um mito, é preciso, ao menos, ter o conhecimento de que ele seja um, e não uma verdade universal infalível.
(...continua...)
Escrito por Bernardo Veiga às 15h59
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(Parte 2 de 2)
Em relação à viabilidade do marxismo seria necessário usar com rigor os princípios maquiavélicos. Pois, enquanto arauto da verdade, todo aquele que discorda ou pensa diferente, deve ser morto. Ora, o marxismo de origem não é sentimentalista, como a Teologia da Libertação, pois usa de todos os meios para alcançar o seu fim. Não há ética, porque ela é um bem imutável, que já foi negado. A defesa do Todo pode superar qualquer parte ignorante.
O autoritarismo acaba como conseqüência da defesa socialista. Pois, com a fuga de uma ética geral, desencadeia a defesa orgulhosa de uma ética particular. Quem ataca a natureza de uma ética, deve erguer uma nova para o poder. E, falsa ou não, na antiga ainda havia um mínimo de “imperativo categórico”, enquanto a nova está nas mãos de um novo ser que já atacou a primeira.
Por isso que o stalinismo é o melhor exemplo da tentativa da construção desse mundo. Uma ditadura que segue os moldes da teoria. Quem acusará Stalin de assassino pela morte de mais de 50 milhões de pessoas, se o assassinato é uma forma de recriminação criada pela Ideologia, para inibir a expressão íntima do indivíduo? E quem irá contra o seu humanismo nos campos de concentração da Sibéria, se era para o bem do Todo, que alguns deviam sofrer? Em outras palavras Stalin é um deus. Nunca pecou contra os seus princípios, nem feriu a sua consciência. Quem somos nós, pobres mortais, que ousamos ferir um seguidor do marxismo?
Mas, hoje, poucos da esquerda defendem Stalin. Eles acreditam que o seu socialismo real foi muito diferente do imaginado por Marx. O que parece razoável, porque, como fora dito, o marxismo tende mais para a religião do que qualquer fundamentalista cristão. Não há ato de fé maior do que a crença nessa sociedade “perfeita”. Esperamos a vinda messiânica do grande libertador, que arrancará os nossos grilhões e nos arrebanhará. Seremos guiados pelo mestre perfeito, que ouvirá as nossas preces e virá em nosso socorro. Ele usará a sua caridade para guiar o nosso povo que viveu anos com o desejo do marxismo. E desta forma se apresenta as três virtudes sobrenaturais do cristianismo: fé, esperança e caridade. Na fé acreditamos no objeto da esperança de um messias que ame tanto o seu povo que possa trazer a Revelação do novo Éden. Mas cansemos desses absurdos, para reconhecer que não poderá existir pessoa tão “boazinha”, se negarmos a possibilidade da ética. E, se tal pessoa existir será tão-somente por não ser marxista, porque acreditará que há uma possibilidade de ética, de um bom governo e do bem comum.
É ingênuo pensar que ao negar qualquer ética, brotará, num passe de mágica, um modo de viver perfeito pós-revolução. E, seria pouco inteligente, acreditar que a pessoa que tenha negado uma ética deva agir pelo bem comum. Se não há ética, não deve haver mesmo. É um princípio da Lógica: “quando se afirma um universal positivo, não deve ser admitido nenhum particular negativo”. Mas, para quem, antes, já negara a ética, não precisa agir ou mostrar os elementos evidentes que irão contra a sua vã filosofia.
O marxismo não possui viabilidade, porque não há nele autoridade para recriar uma “verdadeira ética”; tanto por incompetência, quanto pela desonestidade humana.
Portanto, é impossível realmente ajudar as pessoas sem acreditar em alguns mínimos princípios éticos. Devemos reconhecer a dignidade do homem e uma espécie de imperativo para fazer o bem (que pode até ser deturpado). E, além disso, deve ser reconhecido o objeto da ação deliberada: o bem. Sem um bem objetivo não há sentido em ajudar, pois é visando a um bem que se socorre outra pessoa. Ao começar por esses princípios e desenvolvê-los, percebe-se que o marxismo se torna tão descartável, quanto ele mesmo afirma ser todas as éticas. Pois o problema não consiste na crítica na ética, como algo ruim em si, mas, exatamente ruim, enquanto os homens não seguem os seus princípios.
Escrito por Bernardo Veiga às 15h54
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