ATO QUINTO
Cena I
No apartamento de Antônio, às dez horas, com a porta aberta.
Entram Antônio, Atena e Hermes.
Hermes:
Ele está ali. Espere para fazer o que for devido.
Atena:
Claro, Hera.
Antônio:
Que toda Hera seja era de boa era. Ai, ai, quanto dói acalmar a lasciva e domesticar os instintos! Por que a beleza tão nobre pode rebaixar os peregrinos? Por que o encanto fere com prazer? Ai, que esse prazer seja o meu amigo, e eu, seu sofredor de gozo e choro. (Entra Éris.)
Hermes:
Agora mude as feições e vozes de Antônio para Rodrigo e a de Éris para as minhas. (Atena executa o feitiço.)
Éris:
Já se cumpriram as profecias? Será que você é o verdadeiro amante, ou tenho que esperar por outro? Ai, que a minha mente é tormento, e o real a própria mente. Eu sou o meu desejo, que é vil. Sou a minha desgraça que deseja o mal, sem nunca tê-lo feito. Sou infeliz por ser escravo das paixões e seu eterno devedor. Ai de mim, que o meu egoísmo me mata e me entorpece, me alegra e desespera. Ai de mim, só ai de mim, que quero não ser dessa raça para precisar menos das desgraças do amor. Adorável ente! Venha, então, fazer-me deusa.
Antônio:
Os deuses sabem o que fazem.
Hermes:
Se soubessem não fariam o que não sabem.
Antônio:
Não espere na dor o que o prazer sempre realiza.
Éris:
Então perca na luxúria o que sempre motivou a esperança. (abraçam-se e se beijam.)
Hermes:
Melhor impossível! (Entra Pan.)
Pan:
Rodrigo e Hera! Que estão fazendo?
Antônio:
O que você faz aqui?! Saia daqui!
Pan:
Vim salvar a justiça. Pois Hermes está trapaceando.
Hermes:
Afrodite, faça Pan se calar. (Afrodite faz o feitiço e Pan fica mudo.)
Antônio:
Onde estávamos?
Éris:
Onde começamos. (abraçam-se e se beijam.)
Hermes:
Que assim seja. (Barulho fora.)
Afrodite (De fora.):
Hera, acho que Pan entrou nessa porta.
Hera (De fora.):
Então, vamos entrar. (Entram Hera, Afrodite e Eros.)
Hermes:
Atena, desfaça o feitiço de Éris e Antônio.
Atena:
O que você quiser. (Atena desfaz o feitiço. Éris e Antônio param de se beijar.)
Hermes: (À parte.)
É melhor eu ficar escondido. (Se esconde perto da porta.)
Éris:
Que coisa é essa que estou beijando? Além de humano, é feio.
Antônio:
Hera, o que houve com você?
Hera:
Hera aqui só tem uma, que sou eu.
Antônio:
Mas ela é Hera. (aponta para Éris.)
Atena:
Hera? Onde você está?
Hera:
Eu estou aqui. E o que você está fazendo aqui?
Atena:
Eu? Eu...
Hermes: (À parte.)
Vou ter que voltar a ser Hermes. (Fica com a aparência de Hermes e sai do esconderijo.) Ela achou Pan. Eis a coisa que você procurava. (Aponta para Pan.) Ela o enfeitiçou. É melhor um tolo mudo do que um sábio falante.
Hera:
Justo! Muito justo! Mas mesmo assim, é melhor decidirmos isso no Olimpo, onde tudo é revelado.
Hermes:
Mas e a nossa aposta? E os humanos?
Hera:
Levem todos. Lá decidiremos o vencedor e o que vamos fazer com eles.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h52
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Cena II
No Olimpo.
Entram Todos (Éris, Hera, Afrodite, Atena, Eros, Hermes, Pan, Mariana, Marcus, Rodrigo, Antônio, Emília.)
Hera:
Primeiro devemos dar o brinquedo das crianças. Atena, seja concisa e me conte sobre essa aposta.
Atena:
Eu e Afrodite fizemos poções sobre a nossa natureza. Devíamos fazer os humanos se encantarem com as nossas qualidades. Quem encantasse mais entre dois humanos ganharia o prazer de conduzir toda essa plebe pelo próprio poder. Em meu nome escolheram Marcus e Mariana.
Afrodite:
E em meu nome escolheram Rodrigo e Emília.
Hera:
Mas o que resultou, então?
Hermes:
Hera, permita-me responder. O resultado foi o triunfo da Razão. Marcus e Mariana se apaixonaram. Porém, ninguém amou Rodrigo e Emília, e os que amaram não resistiram à duração. O tempo só gloria os vitoriosos e divinos. E a Razão é mais que um deus, é a própria divindade. Ela nos guia, nos cativa e nos honra. É o que nos liberta e nos seduz ao Destino. Faz-nos felizes pelas nossas inclinações e nos inclina para o fim. Faz do imperfeito a perfeição e refaz o mundo para o sistema. É o que se faz, o que se alegra, o que medita, o que conserva. É como o sêmen de todas as coisas que se desenvolve ao longo dos tempos. Que tudo seja a Razão, e a Razão uma só coisa.
Afrodite:
E assim escreve a História o que condiz com cada natureza. O amor é passivo, se leva, se molda, se submete. Refaz o que pode, até quando não pode se refazer. Pois, desde sempre conhece a derrota, e implora a vitória com desesperadas esperanças. Conhece as feridas, conhece cada dor. É naturalmente infeliz, com olhar cabisbaixo. Não foge da desgraça, nem procura alegria. Só age no seu mundo, quando cria a fantasia de ser Deus e nada mais que a Felicidade. É divino nos sonhos, e humano no real. Diviniza a própria mente, e humaniza o próprio chão. Desnatura os sentimentos, e se excede, em vaidade. Sendo assim, infelizmente, não há nada mais natural do que a submissão do Amor à supremacia da Razão.
Hera:
Mas, preciso ouvir todos de todos os lados. Só falta Eros. Diga, meu jovem, o que você tem a dizer.
Eros:
Eu? Eu... Eu digo... Eu digo a minha derrota. Atena e Hermes foram justos, como é a razão. Ninguém pode fazer nada se for justo agir injustamente. Eu não tenho mais nada p’ra dizer, só p’ra lamentar.
Hera:
Então, realmente a Razão deverá triunfar. O Destino escolheu e os deuses obedecem. A humanidade merece a Razão da forma mais divina. Todos os humanos serão racionais e justos. Perderão todos os seus defeitos e serão absolvidos dos feitiços dos deuses. (Faz esse feitiço.)
Hermes:
Vitória! Vitória! É justo ser vitorioso!
Pan:
Só quando for justa a vitória.
Hermes:
Você está falando? Hera, o que houve?
Hera:
Pan, agora, estava como humano, logo não está sob feitiço.
Hermes:
Deixe-o mudo.
Hera:
Mas ser humano já é uma condenação muito mais grave.
Hermes:
Então eu farei.
Pan:
Não! Eu preciso falar que... (Hermes faz o feitiço.)
Hermes:
Amém.
Hera:
Não se intrometa nos meus assuntos. Deixe que, como esposa de Zeus, posso desfazer esse feitiço. (Pan pode falar.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h52
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Pan:
Hermes trapaceou. Ele fez um encontro entre os amantes dos amantes escolhidos por Eros. Também se disfarçou de Hera para seduzir Antônio. E escondeu Rodrigo por algum tempo. Essas coisas ninguém havia permitido.
Hermes:
Nem proibido.
Hera:
Cale-se, Hermes!
Pan:
Ele foi injusto. A sua vitória é falsa como as suas ações.
Hera:
Mas isso é uma acusação muito grave. Você tem como provar?
Pan:
Aqui estão os humanos também traídos.
Antônio:
Isso é verdade.
Rodrigo:
Ele me fez desaparecer.
Éris:
Ele também me enganou.
Hera:
Então, será necessário reverter o feitiço. Raça vil, além de vil, voltará a ser burra! (Desfaz o feitiço.) Mas se a Razão perde por desonestidade, o Amor vence por nobreza. Não foi possível essa vitória por canalhice de Hermes. Ele foi mais autor da derrota de Eros do que da sua vitória. Por isso que eu declaro o Amor como vencedor.
Afrodite:
Nós ganhamos, filho! Nós ganhamos! O Amor triunfará! (Abraça Eros.)
Hera:
Agora toda humanidade será passível constantemente do poder de Eros. Todos amarão e se perderão nas numerosas belezas, mesmo nas humanas. (Faz esse feitiço.)
Afrodite:
Viva o Amor! Viva o Amor!
Hermes:
O viva é somente para o egoísmo.
Afrodite:
Mentira! Os deuses não vendem quando dão, porque amam quando agem. Fazem o divino e se sacrificam pelos homens. São deuses os deuses e divino o divino. Não há nada mais sublime que agir por martírio amoroso, pois é a razão que visa ao egoísmo. Quem conhece, conhece para si; quem ama, ama para um outro. E assim persiste a descoberta do outro no agir amoroso e desinteressado, pois a luta das virtudes é muito mais voluntária do que racional.
Mariana:
Amor! Amor! Dai-me amor! Só quero isso!
Rodrigo:
Preciso de amor.
Antônio:
Precioso amor... Alguém me ame!
Marcus:
Doce é o amor, como doce é a sua causa!
Emília:
Amar e ser feliz são uma só coisa!
Éris:
O amor é medida e valor das ações!
Pan:
O amor não é amor quando é pecaminoso.
Hera:
Quando ele é pecaminoso?
Pan:
Quando é mais piedoso que a justiça.
Hera:
Como?
Eros:
Hera, acho melhor esses humanos voltarem à terra deles.
Hera:
Talvez seja melhor mesmo.
Hermes:
Claro que não. Deixe-o falar.
Hera:
Fale Pan. Quando o amor é mais piedoso que a justiça?
Pan:
Quando sofre dor para fazer o justo. Eros, o deus que por todos é realmente amado, ou odiado veemente, faltou com a verdade por pena e fraqueza. Ele conhecia a trapaça de Hermes, mas omitiu o que era devido. Foi covarde por amar a virtude e foi corajoso por acobertar o vício. Amou mais a amizade do que a verdade. Não foi vil, porque a própria fraqueza não conduz à vilania. Não foi mau, porque não teve bons motivos. Foi Eros, e o seu erro foi amar demais, até mesmo os inimigos. Deve, logo, ser condenado por evitar de todos a condenação.
Eros:
Mas eu não queria ofender Hermes.
Pan:
Não ofende o pecador, mas ofende o pecado. Pois, ninguém deve cometer idolatria pela pessoa e ser herege pela doutrina.
Hera:
Eros, você sabe que deveria ter me contado a verdade.
Eros:
Mas, mas...
Hera:
Meu caro, eu não posso fazer nada. A sua vitória também não foi digna. Vou ter que desfazer o feitiço. (Desfaz o feitiço.)
Eros: (Chora.)
Eris:
A razão perde por trapaça; o amor por piedade. O primeiro cai por querer ter tudo; o segundo cai por não ser nada. A razão engana quando constrói o próprio enterro; o amor o constrói quando é enganado. O primeiro cai por um agir vil; o segundo por permitir a vilania. Um por ser ativo; o outro por passivo. A razão é lógica, mas acaba fugindo do real; forja uma nova face e se vê soberba para agir e reinar onde quiser. O amor é sentimental, e também foge desta vida; mas se mostra como é, de forma a ser mais escravo por devoção do que egoísta da própria mente. O primeiro vê até onde esconde o que não existe; o segundo é cego por natureza. O primeiro, dos sentidos faz um grande deus; o segundo conhece a sua debilidade e reconhece a fraqueza. A razão peca por orgulho, o amor por vaidade. E, ambos se vêem unidos pela arte do Destino que concede valor e encanto a quem melhor lhe aprouver.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h52
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Hera:
Você ainda é humana. Vou lhe transformar de volta.
Rodrigo:
Não! A sua divindade será a minha humanidade. Era só por encantamento que me amava. Éris, fique como humana!
Éris:
O que um deus ganha com essa natureza?
Rodrigo:
Eu não sei. Pergunte para os cristãos. Só sei o que eu posso lhe dar. É pouco, mas a nossa raça valoriza as pequenas coisas. Posso lhe seduzir todos os dias; cantar as suas canções; e agir como bobo. Posso ser servo; pintar; desenhar. Posso sorrir quando me cansa; sofrer quando sofre; e acompanhá-la quando me pede. Posso escrever poesia; querer somente amar; e desejar os nobres bens. Posso tê-la sempre perto; dar carinho e aconchego; e tratá-la como rainha. Posso ser divino, enquanto humano; ser fiel de idolatria; ou negar amor à Deus. Posso tê-la na velhice com amor que faz história, por dever, nessa alegria de ser velho e benfeitor. Posso ser eu; que a carne corrompe e os anos ferem a alma; posso até eu não ser e tentar lhe dar o céu e devolver o que perderá se ousar me amar.
Éris:
Vocação inquietante! Encontrei o meu caminho que o Destino escolhera. Nobre Destino, serei sempre a sua serva. Eu devo ser humana, como humano é o meu amado. (Beija Rodrigo.) Hera, quero manter a minha maldição.
Pan:
Mas eu quero ser deus novamente
Hera:
Que assim seja. (Pan volta a ser deus.)
Antônio:
Emília, com poção ou sem poção você conhece a minha devoção por você.
Emília:
Conheço melhor que você mesmo. (Beijam-se.)
Marcus:
Mariana, a minha devoção é mais pecaminosa, porque passa da idolatria e se transforma numa ação de nome misterioso.
Mariana:
Ao estar mais próprio da idolatria, é melhor do que ser cético. (Beijam-se.)
Hera:
Vão todos para os seus lares da terra. (Faz um feitiço e saem Éris, Rodrigo, Antônio, Emília, Marcus, Mariana.) Mas ainda não acabou. Pan, você terá que cantar a aquela música por mais um mês.
Pan:
Mas Hera...
Hera:
Sem reclamar. (Sai Pan cantando.)
Afrodite
Irmã, vou me retirar.
Hera:
Fiquem à vontade. O céu é seu. (Sai Afrodite.)
Atena:
Hermes, depois acertaremos sobre o seu disfarce. Afrodite, me espere! (Sai.)
Hera:
Eros, eu gostaria que você parasse de flechar o meu marido.
Eros:
Mas minha senhora, é ele quem pede.
Hera:
Mas... (Olha para Hermes.) Bem, acho melhor conversarmos em outro lugar. (Saem Hera e Eros.)
Hermes:
Bem, eis a peça. Como já disse um autor dessa arte: “uma boa peça não precisa de epílogo”. Bem, como não houve o ganho da razão, a peça foi de mal a pior. Então eu vou tentar consertar e fugir do ditado da emenda e do soneto. Homens de todo o mundo, inclusive vocês que estão me ouvindo, sejam o que a natureza lhes pede, quando manda. Escutai a consciência, juiz mais cruel e silencioso, sempre, mesmo na ignorância. Usem da razão, ponderem as ações e sigam as virtudes, pois a nobreza não nasce, mas se faz. Não tenham medo de amar com a vontade, quando retamente a razão já tivera feito a sua parte. E assim, quanto mais humanos se tornarem, mais divinas serão as suas condutas. (Sai.)
FIM
Escrito por Bernardo Veiga às 17h52
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ATO QUARTO
Cena I
No alto de um arranha-céu.
Entram Afrodite e Eros.
Afrodite:
Já havia me esquecido o quão bela é esta terra. É pelos poetas que ainda há vida, e não o contrário. Ah! Beleza, minha beleza, beleza desejada. Qual poeta que na sanidade não invejaria ser Zeus e criar, como lhe apetecesse, todo o mundo. Mas não há como imaginar mais belo, porque é a melhor forma de ocorrer. E, poeta algum faria diferente sem torná-lo pior do que é, pois nada pode ser mais belo do que isso. (Entra Atena.) Encontrou Hermes?
Atena:
Não, ele deve estar sob outra forma. Vocês sabem alguma coisa dele?
Afrodite e Eros:
Não.
Atena:
Mas, mesmo assim, ainda tenho esperanças de encontrá-lo.
Afrodite:
Eu posso lhe ajudar se você me fizer um favor (que, na verdade, é sua obrigação).
Atena:
O quê?
Afrodite:
Tirar Pan do feitiço.
Atena:
Não faria isso somente pela sua ajuda.
Afrodite:
Mas só Zeus ou Hera podem desfazer um feitiço de tal porte, ou o próprio criador.
Atena:
Ele será desfeito, porém no tempo devido. Agora, esqueça Pan e me ajude a procurar Hermes.
Afrodite:
Não lhe ajudarei.
Atena:
Fique aí sentada esperando pela natureza dele de volta, porque de mim não terá nada. (Sai.)
Afrodite:
Que mesquinha! Deve ser por isso que a beleza é mais agradável e Helena culpa alguma teve naquela guerra. (Entra Hera.)
Hera:
Onde está aquela criaturinha deplorável?
Afrodite:
Hera! O que você está fazendo aqui?
Hera:
Vim procurar Pan, e você?
Afrodite:
Vim honrar o amor.
Hera:
Para quê? Não deveria ser já honrado?
Afrodite:
Vim salvar a ânsia dos amantes, mostrar o inesgotável do visível e dar sentido à vida. Revelar o objeto de quem procura com um olhar vazio, satisfazer o artista pelo belo e inspirar o poeta pela dor. Pois, é dever sempre amar o amor, ser seu escravo incondicional e se aprazer nas suas delícias, honrando-o sem...
Hera: (Interrompe-a.)
Pare! Não se alongue, pois a beleza esvanece nas suas palavras como a minha paciência para discursos. Onde está Pan?
Afrodite:
Perdido aqui entre os homens, sendo um deles.
Hera:
Como?
Afrodite:
Atena o enfeitiçou nessa forma, contra as suas ordens.
Hera:
Que a razão seja penalizada pela sua soberba.
Afrodite:
Filho, enquanto eu e Hera formos procurar por Pan, vele pela nossa disputa, pois o amor deve triunfar. Vamos Hera, vamos procurá-lo. (Saem Afrodite e Hera por um lado e Eros por outro.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h51
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Cena II
No parque da cidade, com algumas pessoas.
Entra Hermes.
Hermes: (À parte.)
Os homens amam ou pensam? O amor que guia os amantes é servo da razão do bem amado. É a razão de querer o bem que torna o amado louco por segui-la. É louco quem segue a razão e é racional quem cede à loucura. Tudo é loucura e razão, o amor é só uma aplicação dessas coisas. (Entram Rodrigo e Éris.) Ora, Não serão Rodrigo e Éris? Estão de abraços? São amantes? Quando essa tristeza de semideuses acabará? Mas o que eu devo fazer? (Entra Pan.)
Pan:
Senhora, o que eu tenho por humanidade é o suficiente para apreciar a harmonia. Quem no mundo é verdadeiramente bela que não deva receber favores e seduzir as mentes fracas? É dever do amado servir e dever do belo ser feliz e receber dádivas. Quem assim não age é néscio e infeliz, pois até os homens agem desta forma, porque o Belo é somente um. São os deuses ditosos? Muito mais são os homens que naturalmente são corrompidos, pois possuem a natura como escusa das suas desgraças e desordens. Posso ajudá-la?
Hermes:
Quem é você?
Pan:
Hoje, eu sou a própria desgraça. Já fui deus e ditoso, mas, hoje, sou perseguido pelo céu e desprezado pela terra. Acredito que Hera, uma deusa, esteja me perseguindo.
Hermes: (À parte.)
Hum... Pan está aqui e é perseguido por Hera. Nenhum conhecimento é vão.
Pan:
Mas, haveria algo da minha vontade para ser submissa à vossa?
Hermes:
Na verdade, há.
Pan:
O quê? Peça qualquer coisa, porque a minha lei não é igual à tua e, mesmo sendo humano, faria as maiores atrocidades pelo desejo da beleza.
Hermes:
O quê?
Pan:
Peça o que quiser.
Hermes:
Quero que você roube a carteira daquele jovem (Aponta para Rodrigo.), Pan: (À parte.)
Mas é Rodrigo; e ao seu lado, Éris.
Hermes:
Mas eu quero que ele perceba e corra atrás de você.
Pan:
Para quê? Você quer o dinheiro?
Hermes:
Não. Vou fazê-lo sumir por uns tempos, sem que a sua namorada perceba.
Pan:
Fazer sumir?
Hermes: (Pensando alto.)
O homem é dono da verdade? Quem acredita no homem? Nem ele é fiel a si próprio, quanto mais às suas devoções. Quer o homem ser deus, mas age como animal; quer o infinito, mas se contenta com a sujeira dos porcos. É pródigo nos prazeres e volúvel nos desejos. Qual palavra que sai da boa da inconstância pode ser tida como verdadeira? Quanto importa as revelações dos deuses para os humanos?
Pan: (À parte.)
Mas os mexericos dos deuses para os deuses valem muito.
Hermes:
Meu caro humano, eu não sou mortal e farei uma brincadeira com aquele ser. Ele não sentirá nada. Que assim seja agradável à Atena.
Pan: (À parte.)
É Hermes, certamente é ele, mas, por algum motivo, da forma de Hera. (Para Hermes.) Quem sou eu para negar a vontade de um superior? (Corre e rouba a carteira de Rodrigo que o persegue. Rodrigo desaparece no meio da multidão. Pan volta para junto de Hermes sem ser percebido.)
Éris:
Rodrigo! Rodrigo!
Pan:
Você o matou?
Hermes:
Não, ele está onde deve estar. Agora você pode ir embora.
Pan:
Foi um prazer ser fiel à sua vontade.
Hermes:
O prazer foi meu em lhe fazer fiel à minha vontade. Agora, vou escrever onde supostamente estará Rodrigo, planejado pelo próprio como prova de amor. Oh, que lindas são essas coisas ridículas de sedução.
Pan: (À parte.)
E que lindo são os caminhos para a vitória! Trapaça! Trapaça! É melhor ser humano débil por natureza do que um deus e ser vil por opção. (Sai.)
Hermes: (Pega papel e caneta e escreve. Arremessa o papel em Éris.)
Éris:
Que foi isso? (Pega o papel e lê.) “Terá o teu namorado de volta se vier nesse endereço hoje, às dez horas da noite. A porta estará aberta. Tudo para o nosso amor. De mim mesmo, Rodrigo.” Que romântico! Quando a discórdia louvaria um ato tão harmonioso e admirável? Meu caro, esta noite já é tarde para este encontro, porque não às oito ou até às nove. Mas quem é fiel sofre e sabe que o tempo só lapida as disposições. Se sou fiel em poucas horas, o que será na eternidade? (Sai. Mas deixa cair o papel do endereço. Entra Pan, pega o papel, lê, sem Hermes perceber.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h51
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Pan: (À parte)
Por que é sempre justo servir aos deuses? Que a minha disciplina seja recompensada com a minha curiosidade. Também estarei nesse endereço. (Sai.)
Hermes:
O sábio nunca peca por demasiado sábio. (Entra Atena) É Atena? Será que eu me revelo? Bem... não é todo dia que podemos conhecer o pensamento dos outros sobre nós, pois as mesmas coisas nunca são ditas para as mesmas pessoas. E, ainda poderei usar da minha posição... Que os homens me amem e os deuses me perdoem.
Atena:
Hera! O que você faz por aqui?
Hermes:
Eu vim procurar o seu criado para me ajudar. Mas, minha irmã, onde ele está? Eu não o achei no Olimpo. Achei que estivesse na terra. Mas qual o nome dele mesmo? Ele ainda é fiel? É bom? Você o tem por apreço?
Atena:
Hermes? Aquele escravo! Queira Zeus que o seu nome seja esquecido e tido por falso.
Hermes:
Por quê? Que mal ele fez?
Atena:
Ele peca por demasiada virtude. É santo, mas cheira à demônio. É nobre, mas age como plebeu. É escravo de uma razão, pois foge de toda cegueira. Tudo é medido e comedido, usado por um fim. Faz da vida um pensamento e da arte um bom pensar. Fere a angústia e morre de conhecer. É justo no falar; só diz a verdade. É fiel às promessas, porque nunca mente. É discreto, e acolhe humildade. É calmo, na reta virtude. É modesto e de bom espírito. É temperante. É liberal. É magnânimo. E, sobretudo, sempre se mostra feliz.
Hermes:
Mas que mal há nisso?
Atena:
O seu querer me causa inveja e os seus juízos admiração. Se eu tenho o amor de meu pai, não é pela razão. Zeus me ama indignamente, pois muito mais sábio se mostra Hermes. Ele me acolhe por ser pai, enquanto sofro por receber o seu amor e nada ceder. Nada posso dar e nada atraio por contemplação. Sofro porque não amo, e muito mais por ser amada. É duro o meu fado: sou amada não por mim mesma, mas pela caridade. O amor guia a minha desgraça, e o sofrimento a minha tristeza. Hermes é a certeza da minha fraqueza e a negação do meu valor, e Zeus o exemplo da dor que fere mais o amado indigno do que o amante desditoso. (Começa a chorar.)
Hermes:
Minha irmãzinha, não chore. Você pode me servir e se vingar de Zeus, indiretamente, pois ele me traiu novamente com outra mortal. Então, preciso da sua ajuda para me vingar dessa mulher e fazer jus à minha condição de deusa.vida alguma, que acabaria a qualquer momento, mostrando a falta de rijeza e constto, pois no estnos jibilidades futuras. al
Atena:
A dor com a dor se paga. Mas onde a mulher está?
Hermes:
Eu soube que ela estará, hoje, às dez horas da noite em um apartamento aqui perto.
Atena:
Que venha a justiça com a sua vingança e a vingança com a sua justiça.
Hermes: (À parte)
O pensamento é uma fábrica de mistérios. O prazer se mostra choro e o sorriso cai de triste. Quem pensa o que bem vê quando vê o que não deve? (Para Atena.) Vamos, que eu lhe contarei exatamente o que você terá que fazer.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h51
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Cena III
No outro lado do parque, com algumas pessoas.
Entra Eros.
Eros:
É tão fácil amar! Amantes e amantes, tão fracos p’r’os seus amados e tão fortes nos seus desejos. São dóceis, devotos e fiéis. Queira a fraqueza ser o nosso dom e a fortaleza a nossa dor. Não resistamos ao amor. (Entra Pan.) É Pan quem está aqui? Talvez ele saiba onde esteja Rodrigo ou Emília. Mas primeiro, ele precisa me sentir. (Pode ser vista e ouvida.) Pan, você sabe onde está Emília ou Rodrigo?
Pan:
Emília eu não sei, mas com Rodrigo houve um problema.
Eros:
Onde ele está? O que houve?
Pan:
Hermes trapaceou.
Eros:
Como?
Pan:
Ele fez Rodrigo sumir para não sei onde, para fazer não sei o quê.
Eros:
Mas por quê? Não eram justas as regras?
Pan:
Eu não conheço a Justiça, muito menos as regras, mas acredito que você tenha que falar a verdade e denunciar a injustiça.
Eros:
Mas Hermes sofrerá.
Pan:
Ora, ora, não é melhor sofrer uma injustiça do que praticá-la?
Eros:
Mas isso é para os humanos, que são constantes só nas suas inconstâncias. Os deuses não erram, só cometem enganos. É melhor não julgar Hermes e conceder o valor da dúvida.
Pan:
Mas é evidente que ele errou.
Eros:
As evidências enganam.
Pan:
Eu mesmo vi.
Eros:
Às vezes é difícil ser juiz e promotor da mesma ação.
Pan:
E sempre é difícil ser virtuoso. Que seja a compaixão a sua própria pena, pois, na hora devida, é covarde quem não diz a verdade e tolo quando o faz para o próprio azar. Fique onde deseje, pois vou procurar por Hermes. (Sai.)
Eros:
Não vou falar, não vou falar. O meu silêncio esconde a minha falta. Pois, dizer a verdade é desdenhar Hermes e ferir os sentimentos. Qualquer um pode ser meu amigo, mesmo a razão. Ama-se Hermes por denodo, ou por vaidade, por amor, ou por loucura. Tenha Hermes o nobre encanto de ser protegido por quem mais deveria ter ódio ou repulsa. Seja eu fiel à mim mesmo, quando mais sou infiel. (Entra Hera e Afrodite.)
Afrodite:
Filho, você encontrou Pan?
Eros: (À parte.)
Ai de mim, ai de mim. Ou omito ou minto, que tudo cai na mesma pena. Não quero ofender ninguém, nem por justiça. (Para Afrodite.) Não, não o vi. Por quê?
Afrodite:
Porque Hera teve um palpite. Achou que estava com você.
Eros:
Comigo? Claro que não.
Afrodite:
Bem, se não está aqui, onde ele deve estar, Hera?
Hera:
Talvez esteja em um apartamento aqui próximo. Meus palpites geralmente não erram...
Eros:
Geralmente, não sempre. (Saem.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h50
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ATO TERCEIRO
Cena I
Em frente às portas do Olimpo.
Entram Afrodite e Atenas.
Afrodite:
Quanto mais demorará?
Atena:
Não sei.
Afrodite:
Você confia mesmo em Éris?
Atena:
Não, pois desde aquela maçã “para a mais bela” eu nunca mais confiarei na Discórdia e desde aquele dia sinto uma vontade de vingar por todos os gregos mortos.
Afrodite:
Por que não o fazemos? Somos inimigas no amor, não no ódio. Podemos pedir ajuda a Pan. Ele estava envolvindo agora nas desordens divinas, mas podemos pedir para brincar com os humanos e também com uma deusa. Vamos chamá-lo, dessa vez vamos juntas. (Saem. Entra Pan por outra entrada, cantando.)
Pan:
“Se no feito o faz perfeito
É por Zeus na própria presa,
Que o perfeito fora feito
P’r’a do deus dizer: alteza!”
e blá, blá, blá e que coisa chata essa penitência de Hera. Por que deve ser castigado quem roubou as penas de umas galinha lá do submundo? Ah... Essas harpias nojentas! Agora, todo o dia tenho que cantar e adular a Zeus. Essa música idiota! (Entra Atena e Afrodite.)
“Tenha tudo todo extremo
Se Zeus se disser contente,
P’r’o querer do ser supremo
Bem fazer que se consente.”
Droga! O que eu preciso fazer para perder essa música ou ao menos mudar de letra?
Atena e Afrodite:
Temos a solução!
Pan:
Que susto! ... Mas qual é a solução?
Atena:
Desfarei o feitiço de Hera.
Afrodite:
Você não vai mais precisar cantar.
Pan:
Mas todo prêmio tem seu preço e qual o de vocês?
Atena:
É só obedecer as nossas ordens, nada mais. Tudo deverá ocorrer na terra dos mortais. Lá você encontrará Éris e seguirá tudo o que mandarmos você fazer.
Pan:
Mas, Éris é minha amiga.
Atena:
Essa música também é e quem poderá desfazê-la seremos nós, enquanto refazer uma amizade com a vilania não é mérito de ninguém.
Pan:
Tem razão. Quando devo começar?
Afrodite:
Imediatamente.
Pan:
E se Hera descobrir que eu fugi?
Afrodite:
Reze por Zeus para que não descubra.
Pan:
Mas se rezar, ela descobre.
Afrodite:
Ora, você não quer viver livre dessa música chata e parar de cantá-la?
Pan:
Mais que tudo!
Afrodite:
Então, vamos logo que a diversão espera e pegue logo um arco com as flechas de Eros com Ares, porque precisaremos.
Pan:
Para quê?
Afrodite:
Você verá. Mas agora vamos. (Saem.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h50
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Cena II
Teatro Municipal.
Entram Marcus e Antônio.
Antônio:
Bom dia, Marcus.
Marcus:
Bom dia. Alguma nova?
Antônio:
Escrevi outra peça e se chama: “Nada por nada”. O Nada é o ator principal e ele foi incumbido de julgar as pessoas e sentenciá-las, se irão para o inferno ou qualquer dos outros. Quando alguém vai para o inferno duas novas almas são criadas, mas caso alguma vá para o paraíso cem não mais serão criadas e cinqüenta para o purgatório. O problema ocorre quando um anjinho lhe diz que o nada será o último a ser julgado, então ele precisa condenar mais almas para adiar o julgamento e surgir novas almas. Ele procura a poeira dos maiores santos e os condena para se salvar do julgamento próprio. Gostou?
Marcus:
Como é o final?
Antônio:
É justamente o quinto ato que falta, porém já está no fim. Você ficaria com o papel principal?
Marcus:
Com todo o prazer.
Antônio:
Muito obrigado.
Marcus:
Não agradeça tanto a um amigo.
Antônio:
Tentei ser gentil...
Marcus:
Mudando de assunto, já faz duas semanas que estou com Mariana e está da melhor forma possível.
Antônio:
Mas comigo está diferente. Desde alguns dias atrás, Emília de repente parece que ficou muito mais sentimental do que já era. Isso ocorreu de um segundo para o outro, quando ela tossiu, sem haver a mudança das luas. Estamos quase acabando o namoro e por qualquer motivo ela faz o maior escândalo, sem saber o porquê e para quê. Às vezes parece que faz pelo simples gozo de fazer, como se naquilo visse o único fim de todas as coisas.
Marcus:
Muito estranho, porque desde quando nós estamos juntos eu percebo em Mariana uns indícios de maior racionalidade. Algo como uma espécie de pragmatismo beirando para o lado da intemperança. É bom porque algum tempo atrás descobri que as nossas personalidades são semelhantes. Mas o que poderá ter acontecido?
Escrito por Bernardo Veiga às 17h50
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Antônio:
Isso se chama sensatez passional. Pois se não é amor, seria o reto juízo harmônico de todas as faculdades até a proximidade de uma atração sentimental. Tenha paciência ou não, porque é nela que se revive a perspicácia. O que é senão esta coisa que chamamos tal como resiste a flor, desde a primavera ao inverno. Espere com confiança, mas tenha por base o que lhe move como em todas as potências e imperfeições, para um único fim: a felicidade. (Entram Éris, Eros e Hermes.)
Éris:
Agora vocês já gastaram todas as poções e, pelo que vejo, Atena está ganhando de dois para um.
Hermes:
Graças àquela poção que eu dei a Mariana antes dela decidir com quem falaria.
Eros:
Pelo menos eu decidi usar a outra metade em Emília. Mas a desgraça ainda me consome e o Destino ainda me revolta!
Éris:
Pare de resmungar. Você usou sua última poção em Emília. Agora ela está apaixonada por Antônio. Conforte-se com a sua desgraça, e espere mais o tempo para completar o previsto. E até lá, Rodrigo precisa manter um relacionamento, para igualar a competição.
Eros:
Eu sei, eu sei... Então vamos procurá-lo imediatamente. Quem mais trabalha, pouco se lamenta (embora talvez perca).
Éris:
Vamos, Hermes, é direito dele ir aonde quiser até os quinze dias.
Hermes:
Apesar de não ser meu dever seguir o seu direito.
Éris:
Não quer ir conosco?
Hermes:
Não. Preciso cuidar de Marcus e Mariana, se acontecer algo entre eles eu perco as minhas duas esperanças num só azar. Vão, depois eu encontro com vocês. Que Zeus lhes abençoe.
Éris:
Obrigada. Agora vamos, Eros.
Eros: (À parte para Éris.)
Você vai deixá-lo aqui sem vigiá-lo?
Éris: (À parte para Eros.)
Que mal ele fará? Preocupe-se com a sua vida. Pois quem não confia nos deuses, deverá se calar, ainda sendo ele da terceira geração dos olímpicos. Mas queira ou não queira, meu pequeno Eros, foi você quem decidiu ir e agora vamos. (Saem Éris e Eros.)
Hermes:
Está tudo correndo perfeitamente. Agora vou garantir a vitória. Acaso não fora por Páris comprovado que a beleza fere tanto quanto atrai? Ora, vejamos se a natureza humana mudou em milênios. Ainda bem que minha linhagem não precisa de favor de outros deuses. Que faça-se agora. (Fica visível e possui aparências femininas.) Preciso me aproximar de Antônio e fazer-lhe esquecer de Emília, para tirar de Eros a sua medíocre esperança.
Antônio:
O que você está fazendo no teatro municipal?
Hermes:
O que geralmente fazem as pessoas por aqui?
Marcus:
Atuem, cantam, dançam...
Antônio:
E você o que faz?
Hermes:
Eu sou atriz.
Marcus:
Se você é realmente atriz, por que não faz conosco a nova peça de Antônio?
Hermes:
Diga-me o nome.
Marcus:
“Nada por nada”.
Hermes:
Deixe-me recitar uma parte.
Antônio: (Entrega o roteiro.)
Tome. Veja o início do último ato.
Hermes: (Recitando.)
“Faço tudo em prol de pertencer à vida, se esta desgraça me consome e faz-me desejar ser corrompido a lutar contra ela. Mas se luto sou corrompido, não há caminhos diferentes: ou a dor tão certa quanto incerta ou a dúvida dos novíssimos. Quem será prudente em meio ao pânico? Quem salvará dentro do caos já consumido? Quem e somente quem fará senão eu, na escuridão que me atormenta, por decisões parciais e confusas o que devo fazer? Mas se o Nada se condena é por existir, pois nada age ou sofre sem ser e haver antes de qualquer coisa. E, tudo se resume a condenar e absolver como se Nada houvesse além do próprio nada e o tormento só existisse onde brota os pensamentos, no mais além do não-ser e do não-existir.” Gostaram?
Marcus:
Perfeito! Você poderia fazer até o papel principal no meu lugar.
Hermes:
Se houver a simpatia desse cavalheiro a seu lado... Por que não faria?
Antônio:
É melhor não fazer mesmo, apesar da oratória e da postura impecável, ninguém imaginaria tamanha beleza no ser do nada.
Hermes:
Isso é um elogio para me agradar?
Antônio:
Não. Se lhe agrada, não foi minha intenção.
Marcus:
Deixe-a fazer o papel, porque senão eu não participo da peça. Além disso, não há sacrifício algum receber uma graça, ou não é da graça que vive o homem?
Antônio:
Então, se considere na peça. Porém eu preciso saber uma coisa.
Hermes:
Pergunte o que quiser.
Antônio:
Meu nome é Antônio e o dele é Marcus, mas o seu não sabemos.
Hermes:
Meu nome... bem... (À parte.) Da maneira que estou vestido e da voz que fiquei, estou tão semelhante com as feições de Hera, irmã e esposa de meu Pai, mais que a própria Hera. (À Antônio e Marcus.) Bem, meu nome é Hera. (À parte.) Tomara que Hera me perdoe.
Marcus:
Comemoremos com festividades a preparação para os ensaios. Seja eu, São Pedro, e Hera, o Nada e logo teremos a peça.
Antônio: (Para Marcus.)
Que vão pensar nossas namoradas se formos comemorar com ela?
Marcus: (Para Antônio.)
Que vamos comemorar com ela e nada mais. Vamos. Não seja medroso.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h49
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Cena III
Apartamento de Rodrigo.
Entram Éris e Eros.
Eros:
Ele já deveria estar aqui.
Éris:
Talvez não. Quem espera pontualidade confia muito na memória e na própria ordem. Ainda mais agora que sem namorada o seu sentimentalismo aflora sem nenhum impedimento, como se não houvesse nada além de si e das poucas coisas que ligariam às outras coisas que fogem em nada do que pertence. (Barulho de porta abrindo.) Deve ser ele. Façamos silêncio para ouví-lo. (Entra Rodrigo.)
Rodrigo:
Céus! Céus! Chagas do Nosso Senhor! Apiedai-vos de mim. Que fiz que nem ao vício posso ceder? Nem força para gritar me foi dada. Ó fraqueza que consome o que meu corpo e se lembra por alma. Mas quem me livrará desse estado doentio de sofreguidão e melancolia? Quanto vale o amor se o próprio ato de amar não ultrapassa a minha indolência? É nem por ser vil que me ouso ser chamado, por que da vilania nada teria por mérito; muito menos haveria de ser virtuoso, quando nem mundano consigo ser. Que deveria fazer meu corpo quando seduzido pela humana beleza – que de humana não tem nada, pois muito de divino se conserva nos homens? E quando transpassa o coração, a carne é levada a quem pouco pensa, sem ver, afora o uso do deleite pela razão. Assim, sou levado pelo prazer de contemplar a divindade, como no reflexo da beatífica visão que em parte se revela nessa beleza. Porém, na Terra, isso é mais desditoso do que padecer pela dor do orgulho fracassado e da vitória sobre as baixas de todos. Quanto maior o ímpeto de ter para mim o objeto do belo, maior ainda aquela, e segue que a causa de tanto sofrimento esteja tanto lá como cá, sem mensurar precisamente, porque medir o espírito é tolice. E, nada, absolutamente nada, é mais horrendo do que as desordens das paixões; Cria-se inquietude, deforma a vontade, ignora-se a razão. Mas quem sabe o quanto vale cada dor e quanto não vale cada alegria? Será eu? Será quem? Quem ousar, pois, responder não será o mesmo que um dia padeceu?
Éris:
A sina dos mortais é tão desgraçada!
Eros:
Quem se importa com eles? Ou você se importa?
Éris:
Eu, me importar com esse lixo? Antes tornar-me flagelo ou ser expulsa do Olimpo. Que a plebe humana sofra entre si. E se for por nossa causa, eles deveriam agradecer por termos escolhido como meio de tormento.
Eros:
Belas palavras. (Entram no fundo Afrodite, Atena e Pan.)
Atena: (Fala baixo.)
Agora mesmo farei com que os mortais não nos vejam, nem nos ouçam. (Não são vistos, nem ouvidos por eles.) Mas onde está Hermes? Que será que Éris fez com ele? Deve ser outro plano seu contra mim. Quem já pediu perdão não terá vergonha de implorar novamente.
Afrodite:
Acalme-se, Atena.
Atena:
Você fala isso, porque Eros está ali. Mas deusa alguma merece ser judiada, muito menos da minha estirpe. Ela verá o quanto vale essas paixões humanas, estando ela no lado de Afrodite. Pois, os humanos por si não amam se não sentem, logo a deusa não vista será como toda humana. (Éris se torna humana.)
Rodrigo:
O que está fazendo na minha casa?
Éris:
Você pode me ouvir?
Rodrigo:
Acaso não deveria?
Éris:
Não, pois você é humano.
Rodrigo:
Não é essa a nossa condição? Mas você invadiu o meu apartamento, saia daqui!
Éris:
Não seja tolo. Por que me dá ordens? Eu sou deusa e você é uma alma junta a um corpo temporal e fétido.
Atena:
Pan, dispare a melhor flecha de amor em Éris. (Pan dispara a flecha e acerta Éris.)
Éris:
Porém, quem disse que nada vale o tempo. Ora, a matéria é bela como são os seus acidentes. É mortal, e por uma vã razão já não possuo razão, não sou o que sou por amor a um humano. Quem salvará este espírito de morte? Quem ferirá o que sou?
Rodrigo:
Então é verdade que me ama?
Éris:
Amo-lhe por justamente não compreender o porquê, caso fosse outra paixão eu poderia ver até onde se perderia, mas é o amor e, como amor, não vejo mais porquês de negar-me. Amo e será sua toda a minha divindade. Que tal marcarmos o meu casamento, que eu concedo a sua lua-de-mel?
Atena:
Agora, Pan, dispare a melhor flecha do ódio em Rodrigo. (Pan dispara e fere Rodrigo.)
Rodrigo:
Saia daqui! Acaso você mora aqui? E só pela beleza pensa que o mundo é seu, como se todos abanassem o rabinho, como ratinhos pela flauta? Ninguém ama o que é desgraçado por opção, e, embora minhas faculdades possam estar em desavença, eu deixarei que o meu espírito conduza pela paixão a sua ida para fora daqui, longe de qualquer lugar que ele possa lhe encontrar.
Éris:
Se nem apreço tem por mim, queira o meu querer pelos dois; como conduz a música, e os ouvintes a contemplam passivamente, sem interferir na própria arte.
Atena:
Pan, dispare a melhor flecha do ódio em Éris. (Éris é ferida.)
Éris:
Mas, um cão danado ignora a arte e a sua natureza não capacita para amar, com esses maus cheiros asquerosos que exalam tudo quanto lhes competem.
Rodrigo:
Se fedo é pelo seu narizinho de cristal, amoedável, fresco até às cutículas do seu corpo.
Éris:
Não é frescura ser higiênico.
Rodrigo:
Não há higiene em ser fresco.
Éris:
Fresco é quem mais reclama das frescuras dos outros.
Rodrigo:
Então, admite que é fresca?
Éris:
Ah! Vai procurar os teus humaninhos para se divertir.
Rodrigo:
Mas, agora mesmo me chamavas de cão danado.
Éris:
Cães e homens tudo são a mesma coisa, do mesmo pó; embora os homens fedam mais.
Rodrigo:
E você? O que é senão humana?
Éris:
Já disse que sou deusa, seu humano surdo.
Rodrigo:
Qual deusa discutiria com os homens? Você é humana.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h49
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Éris:
Se falo com humanos é para exercitar a humildade.
Rodrigo:
Use a sua humildade e me obedeça. Queira ir embora.
Atena:
Pan, dispare as melhores flechas de amor para acabar essa idiotice. (Rodrigo e Éris são feridos.)
Rodrigo:
Mas se quiser ficar, não há problemas.
Éris:
Oh! Como não respeitar um pedido como este?
Afrodite:
Oh! Adoro finais felizes.
Atena:
Quem disse que é possível uma deusa ser feliz ao lado de um mortal? E o final não é o fim senão nas histórias.
Eros:
Vocês não deveriam estar no Olimpo?
Afrodite:
Sim. Mas queremos resolver uns problemas do passado com Éris.
Eros:
Mas isso foi muito bom para nós.
Atena:
Por quê?
Eros:
Com Rodrigo estava uma das poções que eu havia lhe dado, o que nos dá um ponto.
Afrodite:
De bem a melhor corre a paixão, minha cara Atena.
Atena:
Desgraça! Preciso reverter isso. Pan, dispare outra flecha de ódio contra Éris.
Afrodite:
Não faça isso, Pan!
Atena:
Dispare, agora!
Pan:
Mas Afrodite não deixa.
Atena:
Seu inútil! Talvez seja mais útil como mortal. (Transforma-o em humano.)
Pan:
Não! Atena! Desfaça o feitiço.
Atena:
Não. E também não preciso mais dessas flechas infantis. A razão não é mais fraca que os sentimentos de Afrodite. Vou procurar Hermes e depois eu me acerto com Éris. (Sai.)
Pan:
Afrodite, me salve dessa natureza.
Afrodite:
Não sou tão poderosa em reverter feitiços. Falarei com Atena e você voltará ao que era.
Pan:
Fale, por favor. Apiedai-vos de mim, porque não há dignidade na tez humana e toda desonra cai sobre essa carne, como o pó de todo o Hades. Se não tem por mim misericórdia, tenha como de um outro semi-deus qualquer, pois maior que essa vergonha não há.
Afrodite:
Farei o possível, mas é necessário as graças de Atena. E, antes de tudo, eu preciso perguntar a Eros sobre o que houve com a outra poção. Vamos, Eros, diga tudo o que houve nesses dias enquanto visito novamente essa terra.
Eros:
Como quiser, minha mãe. A poção foi dada a Emília, uma namorada de um tal de Antônio e ...(Saem Eros e Afrodite.)
Rodrigo: (Dirigindo-se à Pan.)
Ei, o que você faz aqui na minha casa. Era antes um Éden, agora é uma clínica veterinária.
Pan: (À parte.)
Se eu ainda tivesse as minhas flechas... Desculpe senhor. Estou indo. (Sai.)
Rodrigo:
Saia rápido, pouco importa.
Éris:
Fala de mim?
Rodrigo:
Não, mas de um vermezinho que estava aqui.
Éris:
Deixe-o em paz. Vamos conhecer as proximidades da cidade.
Rodrigo:
Por quê?
Éris:
Por que não é assim que se comportam os amantes? Ora, os lugares são perfeitos se perfeita é a companhia. Qualquer lugar é lindo e curioso o suficiente se ao lado possui o amante o seu o amado.
Rodrigo:
Vamos, logo, mas nada de mudanças temperamentais.
Éris:
Que a recíproca seja verdadeira. (Saem.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h49
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Cena IV
No Olimpo.
Entra Hera.
Hera:
Que silêncio! Não escuto mais as cantigas de Pan. Que será que houve? Aquele serzinho não cumpre nem a sua condenação. Ínfimo, não sabe o que o espera. Só pode estar na terra dos mortais, onde deus algum volta da forma que parte. Mas, quem fará mais pérfido o que já nascera vil? Por que se comportam como humanos estes deuses? Estamos mais perto deles do que eles de nós? Meu bom Zeus, aumentarei a antiga sentença, para ser mais justa, dentro do que mais se aproxima à fidelidade da lei. Fugir da condenação é mais vergonhoso que qualquer força que movera a tal estado. Ele não ousará desafiar Hera novamente. Pois, Que seja justificado o seu futuro dano com os meus esforços de visitar a Terra. (Sai.)
Cena V
Em um restaurante.
Entram Marcos, Antônio e Hermes (como humana).
Hermes:
Conte-me, Antônio, de suas outras peças.
Antônio:
Essa é a minha terceira.
Hermes:
Por que tão poucas? Suas outras devem ser ótimas, se forem parecidas com a última.
Antônio:
Na verdade porque Emília, minha namorada, não gosta que eu fique nessa ociosidade, escrevendo peças. Eu escrevo quando é possível, nas mudanças de atividades que não nos afete diretamente, como os poucos amigos que possuo e outros detalhes mais íntimos.
Hermes:
Tenho uma solução perfeita para isso tudo.
Antônio:
Qual?
Hermes:
Em vez de trocar as atividades pela namorada, faça o contrário e sinta-se feliz com quem aprecie também a arte por quem faz e pelo que faz.
Antônio:
Mas isso faria pensar que as minhas peças são mais importantes do que ela.
Hermes:
Quanto vale o que não vale? Saiba que você precisa amadurecer para um outro estágio em que a escolha do melhor sobreponha qualquer barreira que enfraqueça a escolha.
Antônio:
Como não pensei nisso antes? Mas quem seria a substituta de Emília? Estaria aqui?
Hermes:
Por que não estaria?
Marcos:
Cof! Cof! Bem, talvez devamos ir.
Antônio:
Por quê?
Marcus:
Estou vendo Mariana e Emília na porta do restaurante, e Mariana pode não gostar. Até onde for possível mensurar os sentimentos, torna-se impossível compreendê-la. Talvez por ser demais apegada a idéia de fidelidade como um repouso dos sentidos em quem não for ela própria. Pois meus olhares são seus como os meus são os dela. E olhar para mulheres é desrespeitar a sua visão e honra, assim como estaria desgraçando com adultério em pensamento, sendo a mente ainda minha, o corpo só é dela.
Hermes:
Marcos, vá agora por favor! Eu imploro. Agora, ela não poderá vê-lo aqui.
Marcus:
E você, Antônio?
Antônio:
Ninguém perde o que nunca desejou ganhar. Ficarei aqui.
Marcus:
Cada um com o seu juízo. (Sai. Entram Emília e Mariana por outra porta.)
Emília: (Para Mariana.)
Olhe, Mariana! Que seus olhos me contem o que está havendo porque os meus se negam. Que mentiroso, ele deveria estar ensaiando. Infiel! Infiel! Será que há algum “vingador de sangue” ou poderá ser eu mesma?
Mariana: (Para Emília.)
Espere ele ir embora e depois fale com ele.
Emília:
Não falo com quem usa de falácias em juramentos. Que fique com aquela ali sentada que engrandece mais a sua vaidade que a minha natural beleza.
Mariana:
Mas fale agora, ele está saindo.
Emília:
Não! E ai dele se ousar falar comigo. Quanto mais rápido o fracasso, menor a dor da confiança, porém naquele que mais se espera, a queda fere mais.
Mariana:
Vamos comer como havíamos decidido.
Emília:
Só se for a carne dele, porque meu estômago não está mais preparado para almoçar bem. Por mim já deveríamos ter saído, pois ele já foi e vamos nós para um outro caminho. (Saem Emília e Mariana.)
Antônio:
Hera, perdoe-me, mas nesta hora eu já deveria estar no teatro. Mil perdões.
Hermes:
Terá o meu perdão, se nos encontrarmos novamente. Por que não, hoje, às dez horas da noite no seu apartamento?
Antônio:
Encontro? Hoje? Mas, e a minha namorada?
Hermes:
Não deseje o castigo, quando merece um grande presente. A mulher é mutável porque o homem nem sempre deseja as mesmas coisas. É humano, débil, frágil e fraco. Condiz ao seu espírito a queda e a traição. É seu dever ser tolo e abusar dos seus defeitos. É o único que pode agir desta forma, pois, o seu pecado é nascer como fruto de seus pais. E, da barriga vem a gula, da cabeça a ignorância e de baixo a concupiscência; mas se o céu lhe fez assim, não perca no divino o dever de ser humano. Saiba que o mais divino dos homens ou não existe ou nunca passou por homem.
Antônio:
Que me perdoe quem puder e precisar! Hoje eu serei seu se você for minha. Esteja lá, às dez horas (Entrega um cartão com o endereço.). A porta estará aberta. (Sai.)
Hermes:
A loucura é lógica ou é lógica a loucura? Louco é quem julga os atos sem conhecer os seus fins. A ventura do néscio pode ser a maior das desgraças, como a tristeza educa quando fere. Se Odisseu só pensasse na queima do cavalo, Helena ainda estaria em Tróia e Menelau ainda seria corno. Minha doce Atena, se todos fossem cegos, não haveria Sol? Para os sábios, o escárnio dos tolos é a sua vanglória. (Como se fosse eu quem estará lá. Um deus amar um homem é desditoso, agora, se fossem eles do mesmo sexo seria hediondo. Logo ele verá quem irá e, ainda assim, perderá de vez o seu namoro.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h48
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SEGUNDO ATO
Cena I
Na casa de Antônio.
Entram Antônio e Emília.
Antônio:
Minha Emília, até quando perdurará a beleza?
Emília:
Até quando houver admiradores.
Antônio:
Então eu serei o motor de todo o belo, limitando o poder do artista e tomando o poder do que lhe criou?
Emília:
Não seja orgulhoso. Quem detém o belo não é digno de soberba, mas lhe é devido infindáveis agradecimentos por um fado muito obscuro como o destino das belezas.
Antônio:
Se o artista chora pela arte, não serei eu o seu lenço de papel. Mas gostaria de saber onde está Marcus. Preciso falar-lhe sobre a nova peça de teatro. Tenho um papel perfeito para ele. Parece que haverá um bom público dessa vez.
Emília:
Tomara! Porque pelas últimas vezes, não poria tantas esperanças.
Antônio:
Não tenha esperança sem antes ter fé; e nela nada se torna indiferente.
Emília:
Queira ou não queira ter fé. O fato é que as suas peças são um fracasso e nada além. Não há o que perdure se for ruim. O tempo é cruel com a arte, ou cruel com isso que você escreve.
Antônio:
Pense como quiser. A peça não é sua e o tempo é meu. Gasto a minha paciência comigo mesmo e a sorte é fruto da minha própria sorte. Fico onde estou e como estou, na medida que sou onde e como estou.
Emília:
Mas meu querido...
Antônio:
Não me chame de querido, porque nessas horas essas palavras não fazem mais do que piorar o humor e descer o nível da conversa.
Emília:
Então, será melhor eu voltar para casa e aprender a maneira de falar.
Antônio:
Faça e conclua o que quiser, pois amanhã será um outro dia e pouco nos lembraremos deste.
Emília:
Boa noite.
Antônio:
Mas e o meu beijo?
Emília:
Deixe-o para amanhã. (Sai.)
Antônio:
Essa sua sensibilidade me irrita tanto que nem sei mais o que faço. Acho que vou dormir. Já é noite e não serei mais refém do que é comum dizer só, quando se cai naturalmente na furtividade e na escuridão. (Sai.) (Entram Éris, Eros e Hermes.)
Éris:
Terra fétida! Cheia de humanos!
Eros:
Ela é linda. Foi criação divina.
Hermes:
Não elogie essa terra de orgias e sofrimentos que a Razão não tolera. Busque o que viemos procurar e dê uma solução ao problema para voltarmos o quanto antes.
Éris:
Vocês que precisam escolher, eu só supervisiono.
Eros:
Já estou pensando em um.
Éris:
Quem? Quem?
Eros:
Um tal de Antônio e a sua namorada.
Éris:
Temos alguém rápido aqui. E você Hermes, já pensou em alguém?
Hermes:
Não. Essa decisão precisa de um longo juízo.
Antônio: (De fora.)
Quem está aí?
Éris:
Ops! Quase que esqueço de deixar-nos invisíveis e abafar o som perante os mortais. Que Hera nos abençoe. (Ficam invisíveis e mudos perante os mortais.) (Entra Antônio.)
Antônio:
De onde veio este barulho? Que estranho. E depois dizem que não existem fantasmas. (Sai.)
Éris:
Voltemos ao assunto. Eros e Hermes, os humanos poderão estar nos seus estados de amor ou não. O que importa é o tempo de duas semanas. Não há problema da razão amar a razão, nem do amor desejar o amor, pois a conversão ocorre em um instante, mas a ascese é para toda a vida?
Eros:
Então, deixo a namorada dele para Hermes.
Hermes:
Pode ser uma boa oferta, mas ainda há muito a procurar.
Éris:
Pense como quiser, mas Atena está esperando a sua resposta.
Hermes:
A paciência é amiga da prudência.
Éris:
E o adiamento é inimigo da valentia.
Hermes:
Valentia ou prudência, só quero tempo e nada mais. Onde podemos encontrar mais humanos?
Eros:
Pelo que ouvi na conversa o Antônio tem um amigo. Nós podemos vê-lo agora.
Éris:
Por que não imediatamente? Procurá-lo-emos e veremos quem é. Se tiver amigos ou namorada – o que parece comum para os mortais – teremos mais chance na escolha. Vamos. (Saem.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h48
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Cena II
De frente para o palco do teatro municipal.
Entram Éris, Eros e Hermes
Hermes:
Onde estamos?
Éris:
Deveríamos estar perto de Marcus, ou não deveríamos?
Eros:
Certamente estamos, embora eu ainda não o tenha visto.
Éris:
Qual era a sua profissão?
Eros:
Pelo que me parece ele deveria ser ator.
Hermes:
Então estamos no lugar certo.
Éris:
Por que? (Entra Marcus e Mariana.) Acho que estamos no meio de uma peça.
Hermes:
Só pode ser, com toda essa multidão.
Marcus:
Não ouse, pois, negar o que eu vi. Ou quer ter-me por imbecil e enganar-me duas vezes? Quantas vezes o demônio fere e toma posse da alma que não lhe pertence? Mentir é ferir o fardo da verdade por meios vis.
Mariana:
Como é possível julgar e ser o próprio réu sem ser injusto?
Marcus:
Não use da sua oratória que os artifícios da verdade não precisam dela. Não é na beleza que mora a minha credulidade, mas naquela que por si mesma é bela como quem não finge ser. Ódio! Ódio! Por que caíram sobre mim os chifres da vergonha e da derrota? Meu Deus! Essa é a vocação dos demônios: serem traídos por quem tanto deposita fidelidade e devoção? Minha amada, que dos céus apenas restou-lhe a beleza, diga sobre todos os juramentos e sobre as conseqüências da mentira, o que lhe fez pecar.
Mariana:
Como posso jurar ter pecado se nem o ato fiz. Meu marido, nunca seria infiel.
Marcus: (À parte.)
Mas ainda mente.
Mariana:
Por que deveríamos acreditar nos sentidos se eles falham? Ou não deveríamos dar mérito a quem falha e corrige seus erros?
Marcus: (À parte.)
Agora coloca a culpa em mim!
Mariana:
Não crie chifres onde só há preocupações vãs. Meu amor, hoje me terá como sua e lhe devolverei a confiança nunca perdida.
Marcus:
Nunca perderá o que perdeu? Quem ousa negar a sanidade e levantar sobre si a devassidão? Poupe-me desses argumentos que a plebe infernal nem mais suporta. Se não há mais inferno para os mortais, que seja bela enquanto dure a sua morte. (Pega uma arma.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h48
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Mariana:
A bela morte só vem na glória.
Marcus:
A glória tem clamor de vingança.
Mariana:
Como pode, então, ser bela e danosa a própria sorte?
Marcus:
Porque a danação da morte é de pura beleza. E será você a artista desse espetáculo.
Mariana:
Não, não faça isso.
Marcus:
Deus não manda pro inferno os inocentes. Deixe o seu juízo julgar as suas palavras. (Dispara dois tiros.) Quando a plena vingança desaparece, surge a dor da culpa. Ínfima solidão que leva a perder a própria lucidez. Até a hora em que tudo retorna, tudo volta à memória e atinge o ápice, e a consciência condena por respirar indignamente perante quem nunca será visto, mas é julgado como culpado sobre todos os crimes hediondos. Não lamento a sua morte, mas o meu fardo. Tanto como é triste percorrer caminhos desconhecidos, é difícil esquecer da escolha que fez escolher tal caminho. Foram as paixões que me levaram, somente elas, e até o íntimo de cada uma me conduzo às suas indigências, para não me chamar de humano. Porém, rele criatura que viverá o quanto já sofreu, por padecer ainda mais que as imensuráveis sombras que esse destino pode trazer, faz do sim de outrora o lamento do eterno não, pois nele o sim se confirma e confronta até nunca mais ficar em paz. Meus dias estão contados e se a própria morte a deixou livre da justiça mundana, não será por ela que padecerei ainda mais por descumprir a lei divina. O dano que causei nada vale se não tivermos fé na justiça dos céus. (Dispara contra o peito.)
Éris:
Essa me parece uma peça antiga de um mouro do Chipre... ou de Veneza?
Eros:
Quão admirável o teatro dos mortais!
Hermes:
Como pode ser bela a mentira de uma arte? Quem defenderá os poetas na sua morte? Os poetas mentem e dizem as maiores falsidades em nome da beleza que eles chamam de arte. A arte não pertence ao artista, pois o despertar do belo não pertence à arte, mas à própria Beleza em si, que nunca tornar-se-ia tão feia quanto isso que os meus olhos viram. Como poderia Zeus abençoar os assassinatos contra outrem e contra si, ou pensa o homem ser tal como Zeus é ou tal como pensa dever ser?
Eros:
Mas é na arte que afloram as paixões, e assim, todo o fim é absolvido na vontade do seu criador.
Hermes:
Não venha defender um erro, pois assim realmente é. Contudo, antes de qualquer desavença, eu já escolhi quem irá ser o homem que verá nos céus a própria imagem pela glória, que terá a sua natureza com a poção. Quem desonrar o seu nome ferirá um deus – humanizado – e sentirá uma culpa infinita pela perfeição da criatura. O vai e vem da própria sorte cuidará para resguardá-lo de todo mal indigno a si, tal como o despertar da manhã impede a cegueira da noite. Terá a razão nunca antes almejada e receberá dos deuses a acolhida não injusta: “Sois como nós”.
Éris:
Quem pode ser tal sortudo?
Eros:
Ou azarado...
Hermes:
Eros, não interfira em ações fora da sua estirpe. O homem se chama Marcus e foi quem apresentou essa peça.
Éris:
Ora, por que escolher um ator de cena tão passional?
Hermes:
Quem ilude o público com mentiras, pode convencer a si mesmo sem esforço algum por qualquer um dos meios. Ademais, a verdade preserva a benignidade da ação, porque jamais a razão plena concordaria com o falso ou com o mal.
Éris:
Concordo plenamente. Porém devemos usar logo as poções e fazê-las bom uso.
Eros:
Por que não usa a sua agora, Hermes? Ele está ali no chão.
Hermes:
Éris, peço permissão para usar a metade da poção que me é devida.
Éris:
Terá toda. Esperem, acho que não acabou a peça. (Entra Rodrigo.) Esperemos o seu fim.
Rodrigo:
Oh! Miserável! Covarde! Por que arruinou a sua vida? Ela era tão inocente que a mais pura mocidade lhe teria inveja. Seu pecado foi amar demais e quanto mais amava, mais o destino lhe mostrava desamor e repugnância. Agora a sua beleza terá outro fim e não defenderá a honra de ser bela, pois a harmonia será agora espelho de abominações, que se escondem na medida em que criam disparidades na unidade. Só me resta viver e contar o que a natureza perdeu e o quanto deve se lamentar. Porque ninguém chora pelo desconhecido nem se apaixona por nada. Levarei a sua imagem nos meus olhos, que serão os mais valiosos objetos dignos de furto. Minha doce e suave prima, que os seus anos vindouros sejam mais felizes, pois como poderia ser a morte um mal se seria um alívio aos males desta vida? Que sejam os anjos quem conduza a sua alma; sua beleza é acompanhada de bondade como testemunham as suas virtudes. Agora, deixo o corpo às desgraças. Levarei a imagem da beleza imortal presa a um velho corpo e a terei na excelsa imagem de todas as criações. (Sai, fecham as cortinas, abrem e aparecem Mariana, Marcus, Rodrigo cumprimentando e depois saem.)
Eros:
Ainda penso da mesma forma quanto ao teatro.
Hermes:
Pode, talvez, ser muito belo quando diz a verdade.
Eros:
Bem, talvez eu queira mudar a minha escolha e deixar a metade da poção com esse novo ator, parece ser mais conveniente.
Éris:
Então devemos ir imediatamente para trás do palco para mostrar-lhes as nossas poções e vermos o que virá. (Saem)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h47
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Cena III
Atrás do palco.
Entram Mariana, Marcus e Rodrigo.
Marcus:
A platéia estava segurando o choro.
Rodrigo:
Isso é um bom sinal.
Marcus:
Só nas tragédias, embora fosse melhor esperar um revolta contra o vilão.
Mariana:
Todos somos vilões, quando roubamos do palco a serenidade e devolvemos a própria desgraça que nem Sófocles pensaria. Somos maus pela arte da tristeza e roubamos tudo quanto é digno da realidade, deixando o real com as suas perdas e não com um toque de imitação. Ou devanear não é o meio para qualquer arte, tanto a fértil quanto a fútil, pelo que nunca vive além do belo?
Rodrigo:
Que inspiração!
Mariana:
A inspiração não existe. Somente há momentos em que uma experiência aflora na memória, aparecem luzes que chamam a atenção, para que sejam expressas artisticamente e tornem então imutáveis, diferente de como e quando perduram na nossa mente.
Marcus:
Então temos aqui quem faz da arte a sua vida.
Mariana:
Ou tem quem faz da vida a sua arte. (Entram Éris, Eros e Hermes.)
Éris:
Eles estão ali conversando. Quem vai querer usar a poção e em quem?
Eros:
Eu desejo jogar naquele ator que entrou depois.
Hermes:
E eu em Marcus, no primeiro ator.
Éris:
Então, eis aqui as regras do uso das poções: como estamos invisíveis perante os mortais, cada um pegará a sua respectiva poção e esperará um momento de exaltação – de um grito – deles e colocará goela abaixo metade da poção. Aquele que tomar a poção se apaixonará pela primeira pessoa do sexo oposto que for vista, mas como os humanos são volúveis, poderá haver eventuais mudanças. Quem convencer a outra a retribuir a paixão somará um ponto para o seu representante. E isso deve durar por uns quinze dias. Menos que isso, fracassará. Entendido?
Eros:
Sim.
Hermes:
Perfeitamente.
Éris:
Então, vão logo. (Hermes e Eros pegam suas poções e aproximam-se de Marcus e Rodrigo.)
Mariana:
E assim sobrevive o teatro, na cabeça que constrói as vicissitudes e condena a solução de cada alma. Sem deixar perder nenhuma gota no que foi visto, porque nada se perde no drama que não fora ganho por quem vira a derrota de outrem. A imitação só existe pela realidade e sem uma cópia incontestável ela revela o objetivo subjetivamente.
Marcus:
Que assim seja toda a arte! (Hermes despeja metade da poção em sua boca.) Cof! Cof!
Rodrigo:
O que houve? (Eros despeja metade da poção em sua boca.) Cof! Cof!
Escrito por Bernardo Veiga às 17h47
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Mariana:
Engasgaram-se com o ar? Ou é o cansaço da peça? Mas isso passa, como decorrem todas as coisas.
Marcus:
Se Decorre assim todas as coisas, não haveria motivo para ficarmos aqui discutindo sobre coisas de constantes mutabilidades.
Rodrigo:
Por que não? Não pensa você que tudo vale se tiver por perto o amado? Não valeria a pena discutir sobre a essência da futilidade para se chegar a lugar nenhum, se estamos com o nosso amor?
Mariana:
Como assim?
Rodrigo:
Ora, não é pelo amor que movemos qualquer ação e qualquer fim? Quero além do necessário para satisfazer até o fim o ímpeto que me consome.
Marcus:
Controle essa vontade e iniba a sua impulsividade. Deixe-me falar a sós com Mariana.
Rodrigo:
Nunca! Acaso não é pecado negar a caça dos lobos para deixá-los a sós com os cordeirinhos? Vou verificar e ouvir até a última gota de veneno dessa boca peçonhenta.
Marcus:
Ele é a prova da sua fatalidade... Mas, Mariana, eu preciso dizer sistematicamente esse meu amor por você. É verdade que é amor, mas não o da juventude que cai com as oscilações da sorte, embora não seja ele o heroísmo de qualquer epopéia ou vago confronto desnecessário. Por alguma sensação percebo que não foi de Afrodite a sua origem, porém da prudência de um outro bom deus. Posso dizer que não remove nenhuma montanha, nem destrói o concreto ou qualquer resistência rígida. É fato que durará a paixão somente quando ele durar e depois disso nunca mais nos veremos nem mais lhe cumprimentarei nas possibilidades futuras. Para ser sincero, eu odeio esse amor e o melhor dia será quando não o vir e sentir nada além que a indiferença. Mas não é fácil decidir racionalmente sobre o confuso efeito passional, pois o fardo mais custa para quem menos já sofreu. Tenho o que tenho e se for alguma desventura – eu comecei a lhe amar – que a cura esteja na criação dessa doença, que ao analisar o agente se possa salvar o paciente. Deixe-me permanecer ao seu lado e descobrir os meios que preciso para não ver e amar, e passar desta linha tênue entre o desprezo e a devoção.
Mariana:
Fico lisonjeada com a declaração...
Rodrigo:
Mas, o fervor que salta nos seus desejos corre para um outro lugar. Correm para o que conduz à indolência, à preguiça e mediocridade. Agora, como defensor da beleza amorosa, da realidade florida e transladada, vejo que o meu discurso é de primeiríssima importância para manter passionalmente o nosso vínculo. Eu lhe amo, porque lhe amo. É uma verdade que tem a causa nela mesma, por preceder a qualquer nível de causalidade. Porém há quem diga que é a vontade que ama e por ela todos se absolvem; mas é inegável o valor dos sentimentos, enquanto sentimentos. Será para sempre, pelo tempo que o destino quiser ou pelo que a vontade persistir, pois não há destino digno de cada um senão o próprio lhe devido.
Mariana:
Fico lisonjeada com a declaração, mas...
Marcus e Rodrigo:
Mas o quê?
Mariana:
Eu preciso pensar melhor sobre o assunto. Parece-me melhor eu conversar com cada um separadamente, para saber qual dos dois eu mais amo. Preciso descobrir, logo preciso falar a sós com vocês.
Marcus e Rodrigo:
Vai falar com quem primeiro?
Mariana:
Bem... (Hermes despeja a poção.) Cof! Cof! Primeiro vou falar com Marcus.
Marcus:
Quem o primeiro deseja, o último esquece. Vai, suma daqui e depois volte com os resquícios da derrota.
Rodrigo:
Vou, somente por ela. (Sai.)
Marcus:
Diga, Mariana, diga que me ama.
Mariana:
Verdade mais pura seria impossível! Amo-lhe, mas tenho piedade de Rodrigo, que é seu amigo desde a infância. Penso se o destino pode tornar-me vilã da minha vontade, pois a felicidade de um é a eterna solidão do outro, visto que há um forte vínculo entre vocês. Até outro dia você o chamava de irmão, numerava as desordens, citava os feitos, imaginava a velhice com uma amizade insuperável, com cada um já escravo da responsabilidade, dos filhos e esposas. Tudo na mais perfeita harmonia, até a hora de agora que os dois criam inimizades por um amor tão mutável.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h47
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Marcus:
Na amizade não é necessário a beleza de nenhuma das partes. Apenas algumas afinidades e bens comuns. Ora, o que não falta nessa terra são pessoas e muito menos os bens comuns, que crescem na medida em que há vontades e gostos em cada ser. Como pode a amizade ser tão duradoura se é tão frágil que na distância se corrompe? Porém, o platonismo, como amor é virtude e como fim é paciência. Cair de amor é muito mais difícil entre os amantes, porque o amor constantemente está ligado à beleza e nem todos a possuem, enquanto ser gentil a atencioso é potencialidade de todos. Fugir do amor é escapar da própria razão, da capacidade de fazer um reto juízo puro sem meios que o desviem da conduta. Ademais, o amor conjugal supre qualquer necessidade de outro qualquer relacionamento, pois no estágio da plenitude amorosa já não há mais carência afetiva e é reconfortado pela companhia do amado que também é amante. E caso acabe o nosso coleguismo, isso prova, sem dúvida alguma, que acabaria a qualquer momento, mostrando a falta de rijeza e constância nos sentimentos. Seria como um teste, todavia a sua nota só pode ser vista depois da correção e esta depois, primeiramente, de ser feita. Como pode algo ser uma arma se não fere ninguém? Como pode isso ser uma amizade se não existe o mínimo de compreensão? Ou talvez nem fosse amizade, ou talvez nunca haja sonhos e tudo é farsa, porque, quando o tempo envelhecer a nossa idade, possa ele nem mais estar aqui e nós nem mais lembrarmos dele.
Mariana:
Mas Rodrigo é seu amigo.
Marcus:
Justamente por isso. Quem deveria estar preocupado não deveria ser o amigo desse amigo? Não julgue em vão o que em vão não existe. Deixe que dos meus amigos cuido eu. Ou será que há amor revestido de compaixão?
Mariana:
Toda compaixão não é uma forma de amar? E se me preocupo com a sanidade dele, faço isso somente pela sua. Mas, que assim seja: os vãos motivos me dizem para seguir esse argumento e esperar o futuro.
Marcus:
Então, diga tudo para Rodrigo e deixe-me ouvir até a última lágrima de quem for mais sentimental.
Mariana:
Rodrigo! Rodrigo! (Entra Rodrigo.)
Rodrigo:
Presumo que por eliminação não haveria como me negar, ou seguira outro caminho?
Mariana:
Exatamente o oposto. Meu caro Rodrigo, é difícil dizer a verdade e não magoar, porque naturalmente ela fere, e suportar a dor é a própria constância que conduz à existência. É com triste e amargurado pesar que não será para você os meus afetos, muito menos cairei nessas juras insensatas de força pueril romântica. Além disso, não há amor que sobrepuja sem beleza e a sua fealdade nem é digna de quem vela. Não lamente, pois beleza alguma é devida a quem pertence, tal como a sua ausência. Por favor é por amar o amor que não lhe amo, e por tanto que lhe odeio que odeio o ódio. E assim segue a vida natural em que só há beleza para belos que sacie o desejo de si, pois quanto mais belo, maior é a sede de beleza.
Rodrigo:
E quando murchar a flor dos anos?
Mariana:
Minha fealdade só desejará fealdade e, assim, quem estiver na beleza tornar-se-á feio, acompanhando na variação de cada par. Isso é feito com o único fim de renovar o belo da própria prole.
Rodrigo:
Que sina horrível!
Marcus:
Quem na verdade conhece a desgraça é mais feliz do que na desgraça conhecer a verdade.
Rodrigo:
Que viva assim quem desejar... a fealdade me chama.
Mariana:
Leve-a toda para onde for. (Sai Rodrigo.) Agora quem estará contra nós? Em prol da beleza e do orgulho de acompanhar o belo, fiquemos juntos comemorando até onde diverge a satisfação dos pecados, que por beleza são arquitetados, pela razão são ordenados e nas paixões recolhidos. (Beijam-se. Saem.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h47
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Éris
Autor - Bernardo Veiga de Oliveira Alves
PERSONAGENS DA PEÇA
Éris
Hera
Afrodite
Atena
Eros, filho de Afrodite
Hermes, servo de Atena
Pan
Mariana, atriz de teatro
Marcus, ator de teatro
Rodrigo, ator de teatro
Antônio, namorado de Emília, escritor de teatro
Emília, namorada de Antônio
Escrito por Bernardo Veiga às 17h45
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PRIMEIRO ATO
Cena I
Em frente às portas do Olimpo.
Entra Éris.
Éris:
Qual a sorte que de tão bela não fere, quando inocente? É fato que o amor mede e eleva todas as coisas, desde o mais vil ao pueril, o dócil ao selvagem. Contudo há desavenças, pois no amor é o que não falta. Mas justamente é esse o meu desejo: mostrar até onde mora a fraqueza dos humanos pela beleza. Ah... Meus caros mortais, não me vejam com esses olhos tão volúveis, que deles só tenho pena. Sigo a minha natureza, ou não é natural andar como cão, se for cão, agir e caçar se for necessário? De que valem os deuses senão para guiar os cegos pela terra e para o Hades? Pois não foi sempre este o decorrer dos tempos? Sem isso a alegria não vigora e a espirituosidade enfraquece. É bom ser deus como é mau ser homem, e assim pelos contrastes conhecemos a perfeição de cada coisa, pela desgraça endeusamos o medíocre, e pela nobreza o rebaixamos. Bem, vejo que o tempo urge e os mortais ainda não o perderam. Primeiro, as duas maiores deusas tornar-se-ão adversárias para que eu veja até onde irá o que, por ser o que sou, conheço. Segundo, até onde habita a desgraça humana ali mora o riso divino. Terceiro e por fim, não há vontade humana que impeça a divina. Agora parece natural pôr em ato a minha quimera. Atena! Atena! Atena! (Sai.) (Entra Atena.)
Atena:
Será que ouvi o meu nome? Será? Alguém está aí? Sou eu, Atena. Há Alguém? (Entra Afrodite.)
Afrodite:
Está me procurando?
Atena:
Só se for você quem me procura? Fora?
Afrodite:
Não. Mas ouvi alguém chamá-la. Não consegui reconhecer a voz.
Atena:
Então, vou procurá-la.
Afrodite:
Quer alguma ajuda?
Atena:
Sim.
Afrodite:
Cada uma vai para um lado, procuraremos e nos encontraremos por aqui em dez minutos. Algum problema?
Atena:
Por mim está perfeito.
Afrodite:
Então vamos. (Saem.) (Entra Éris.)
Éris:
Atena! Atena! Atena! Onde ela se meteu? Onde? Preciso falar logo, essa sede de delírio move o que precede o desejo de calúnia. Mas parece que ela está vindo. Não, quem vejo é Afrodite, mas não mudará o plano se a ordem for alterada. (Entra Afrodite.)
Afrodite:
Era, você, Éris, quem chamava por Atena?
Éris:
Sim. Mas antes de falar com ela, eu preciso lhe dizer uma coisa muito importante.
Afrodite:
Então espere por Atena e escutaremos as duas.
Éris:
Afrodite, é justamente isto que me move?
Afrodite:
O quê?
Éris:
A sua amizade por Atena, o seu amor pela amizade e o natural dever de fazer o bem, na mesma medida por evitar o mal, como aqui me afigura.
Afrodite:
O que no seu coração lhe aflige e a deixa assim? Sabe que posso lhe ajudar.
Éris:
Mas os deuses não podem desfazer o tapete do Destino, nem parar a tecelagem, por pura incapacidade. Quem do amor vive não conhece o que avilta pela própria natureza. É triste, por inveja, quem não vê no amor nada mais que um meio para um fim egoísta. Procura-o para desprezar e despreza para rir; da galhofa propaga a desgraça, esperando que seja tido por todos como desvarios dos amantes e cobiça dos concupiscentes.
Afrodite:
Sobre todos os insultos, esse foi o pior! Quem ousa, pois, negar a ordem natural de causalidade nega a própria lei da natureza, que rege o objeto de cada desejo.
Eros:
O que disse é verdadeiro e falso, que usurpa da razão o que dela na criação não teve nada. É verdadeiro pelo que há em si, tanto quanto na adequação com a realidade. E falso, porém, pela excelência de tudo o que é podre e humano.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h44
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Afrodite:
Por Zeus! O que seria tão contraditório e pavoroso?
Éris:
A triste verdade. Quem sabe você acredite em mim... Já há tempos que me encontro com Atena e ela não fala de nada além dos filósofos e da sabedoria respectiva a cada um. Uma vez disse que Aristóteles era um gênio da razão e da arte política, outra, defendeu a objetividade da filosofia, da vitória da razão sobre a paixão e a vontade. Ela criou até uma poção que retira todo o potencial do amor e transforma tudo em ato de racionalidade, até o limite natural da espécie de quem o toma. O cúmulo do desprezo já foi lançado e desse seu amor cor-de-rosa somente restou o pragmatismo ou a sabedoria viciada em algo que verdadeiramente não é prudente, muito menos sábio. O que tenho para dizer é tão verdade que só digo por amor ao que desejo: a justiça. Que cada um receba o seu quinhão como lhe é devido e que de todos seja retirado o que não é do interesse do seu ser, em última escala. Faça o que quiser, me chame dos mais pérfidos nomes que a beleza das suas palavras permitirem, mas não me chame de mentirosa.
Afrodite:
Por que chamaria de mentirosa uma amiga? Não são os amigos aqueles que dizem a verdade independente se for boa ou má recebia pela vaidade? Não chamo de inimiga quem diz que desconhece a própria verdade, embora chamo de repugnante quem ousa mentir pelas costas e sujar o meu nome e minhas obras. Compreendo o seu medo da rejeição e nele me baseio para confiar nas suas palavras, pois a honestidade sempre vem acompanhada do medo.
Éris:
O que você vai fazer?
Afrodite:
O necessário, carregado do inexorável desejo de advogar por causa própria. Atena é falsa e desleal pela sua objetividade naquela mente embriagada de razão. Saberá que não há nada tão forte que não fira os movimentos do amor, mesmo na fortuna ingrata que despeja golpes em quem deseja o ato em si pela felicidade. Com o ódio, com amor se paga e a razão com paixão sobrepuja; será de grande agrado revidar o ataque de Atena. Se fez uma poção com a sua majestosa racionalidade, farei eu o completo oposto para defender o que é meu e mostrar que mesmo a sapiência é seduzida pelo que chama de desgraça. Será tão cruel, de extrema subjetividade, no ápice das vontades se encontrará e nada mais moverá o seu intento do que o sentimentalismo não comedido nem aprisionado.
Éris:
Quanto tempo você demoraria para fazê-la?
Afrodite:
Uns quinze minutos se meu filho ajudar.
Éris:
Então lhe aconselho a chamá-lo logo, porque vejo Atena vindo e será melhor conter a sua ira para, quando já estiver pronta as suas armas, travar uma disputa digna da sua excelência.
Afrodita:
Estou indo. Mas você viu Eros por algum lugar?
Éris:
Na última vez que eu o encontrei no arsenal de flechas, estava discutindo com Ares sobre o seu novo engenho.
Afrodite:
Estou indo para lá e depois voltarei com a poção para resolver essa desavença com ela. E se você escutar alguma outra coisa a meu respeito, me conte, por favor.
Éris:
Eis aqui a sua fiel serva. Direi tudo o que descobrir.
Afrodite:
Eis aí uma deusa que homem algum negaria veneração. Mas agora vou. (Sai.)
Éris:
Quem alterar a sorte é mau por desviar a ordem natural das desavenças, ou é de extrema bondade por participar da própria sorte que é maleável? Vejo Atena chegar. (Entra Atena.)
Atena:
Éris, era você quem me chamava?
Éris:
Sim, era eu.
Atena:
O que deseja?
Éris:
Somente o seu perdão.
Atena:
Só há perdão se houver ofensa, mas não vejo alguma. Ou, há algo que não vejo?
Éris:
Sim, minha senhora, e é por isso que a minha humildade se exprime.
Atena:
Por qual motivo?
Éris:
Eu neguei a mais sábia de todas as deusas a quem Odisseu tanto ama quanto venera. Foi contra você, me perdoe.
Atena:
Qual ofensa?
Éris:
Não lhe disse sobre as ações de uma outra deusa.
Atena:
Qual tipo de ações e de quem?
Éris:
Se eu disser, tal deusa arrancará o meu amor por Zeus. Ela conhece todas essas façanhas. Mas não lhe direi quem é.
Atena:
Por Zeus, quem arrancaria todo esse amor?
Escrito por Bernardo Veiga às 17h44
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Éris:
A mesma que me contou o seu desejo de revolucionar o mundo e quebrar o que separa as virtudes dos vícios. Produzirá um caos entre os homens, despertando-os unicamente pelas paixões. Antes, parecia somente idéias de um pensamento ocioso sem meios de pô-las em prática, mas agora ela escarneia de tudo o que é bom e compreensível, de tudo que possui causa e efeito, do princípio ao fim da própria construção silogística. Ergue sua bandeira com as chamas que divergem o nome conhecido como amor. Solta grito sem sentido, desejando confusamente todas as paixões sem uma ordem. Pensa que tudo é seu e não olha a realidade, não faz o que deseja, pois desconhece o querer. Vive das falsas felicidades e se esmaece nos bens efêmeros e deleitáveis. Oscila entre uma alucinação e outra com a mente em devaneio contínuo; sem a esperança de volta, na febre da doença, ela procura contagiar os outros na tentativa de mudar a normalidade do mundo ao invés de alterar a ferida do corpo. E, da sua mente uma poção criou. Quem beber será objeto das próprias paixões e vítima dos seus gostos sem qualquer luz de razão. Fará da contingência dos mortais um perigo para a nossa imortalidade e assim, sobre os campos dos deuses, ela passará zombando e tirando deles toda a honra devida à Titanomaquia e da própria excelsa natureza.
Atena:
Por Zeus! Quem, segundo o seu dito, faria tal atrocidade?
Éris:
Afrodite, sua irmã paterna.
Atena:
Impossível! Conheço Afrodite e o seu devaneio não seria tamanho. Saiba que isso não é razoável.
Éris:
Quem acha o que não quer, não quer o que acha.
Atena:
Isso é uma afronta?
Éris:
Não, de maneira alguma, minha senhora. Mas tudo o que digo posso provar.
Atena:
Como?
Éris:
Mostro-lhe se me prometer algo.
Atena:
O quê?
Éris:
Que irá fazer uma poção completamente contrária à feita por ela.
Atena:
E caso tudo seja mentira?
Éris:
Permitirei que faça o que quiser com o meu espírito.
Atena:
Um bom preço a pagar pela verdade... Aceito.
Éris:
Agora fiquemos escondidas que em pouco tempo ela chegará com o seu filho e a poção. (Escondem-se. Entra Afrodite, segurando uma poção, e Eros.).
Afrodite:
Muito obrigada pela ajuda.
Eros:
De nada, minha mãe.
Atena: (Á parte.)
É uma poção mesmo!
Escrito por Bernardo Veiga às 17h43
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Afrodite:
Agora poderei pôr mais paixão e menos compreensão no coração dos humanos; recriar uma nova sabedoria sem reflexão própria de outros artifícios da mente.
Atena: (Á parte.)
Isso é o bastante! (Para Éris.) Chamarei Hermes para fazer a poção imediatamente e então veremos o que guiará a vontade dos homens. (Sai. Aparece Éris.)
Éris:
Vejo que já está aqui e não a vejo sozinha.
Afrodite:
Estou com meu filho Eros, um bom menino, que conhece muito os feitiços da sua natureza.
Eros:
Minha mãe me ensinou tudo o que sei.
Éris:
Tomara que nesta poção tenha o resultado da sua educação...
Afrodite:
Mas, onde está Atena? Você conseguiu alguma coisa nova? Há outra ação tão pérfida quanto a primeira?
Éris:
Ela está vindo para cá para lhe propor uma disputa e quem ganhar destruirá a poção da outra, deixando o perdedor a observar o efeito dessa poção em toda a humanidade.
Afrodite:
Uma bela disputa. (Entra Atena, segurando uma poção, e Hermes.)
Afrodite: (Á parte.)
Era mesmo verdade, lá está a poção.
Atena:
Em quem você usará essa poção?
Afrodite:
Em todos os homens.
Atena:
Como ousa criar um pandemônio generalizado, para as paixões torpes guiar a racionalidade?
Afrodite:
E você deseja mecanizar o espírito e transladar o que faz o homem ser o que é. Isso é estar além dos próprios deuses.
Atena:
Será que é devido a eles conhecer ou definir a natureza de outrem? Ora, que receba os homens o que lhe pertence e aos deuses o que são deles. A razão também cabe aos homens como é natural aos deuses, sem impedir que apenas um destes fiquem com o que lhes convém. Não os trate como animais. Não vês a ciência e a arte?
Afrodite:
Vejo o que são e são eles os amores dos deuses e nada mais. Por nós foram criados e chamados de animais, como o fizeram com os seus inferiores. Se nossos conceitos sobre as baixas criaturas são deles, então devemos compreender e criá-los como devem ser na medida em que são. Porque não há neles uma alma como a nossa, nem muito menos com os seus animais. Os humanos não são o que desejam, mas o que queremos que se tornem. Ora, devemos privá-los da ciência pois, como fora feito em Tróia, um dia nos ferirão novamente. Nem eu escapei do grego Diomedes... É dever serem como cães e medíocres como peões no xadrez.
Atena:
Mas os peões têm a realeza como potência.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h43
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Éris:
Por favor, parem! Não foi para discutir que vocês estão aqui. Estão unicamente para provar diante de todos a superioridade entre a paixão e a razão. Precisamos medir as forças de cada uma em quem é o próprio objeto dessa discórdia: a humanidade. Proponho a disputa nas seguintes situações: nenhuma de vocês poderá ir para o mundo dos mortais, mas alguém irá realizar o trabalho, representando-as. Cada uma de vocês terá que escolher um humano de cada sexo e dar a poção a deles. Depois devem esperar as novas pelos mensageiros sobre o ocorrido...
Eros: (interrompendo-a.)
Mas como conheceremos a ganhadora?
Éris:
Se você tivesse paciência já teria sabido. Aquele humano que conseguir convencer o outro – do sexo oposto – para a paixão ou à razão que possui, ganhará. Alguém tem alguma pergunta?
Hermes:
Qual o prêmio de quem ganhar?
Éris:
O prazer de conduzir a humanidade pela sua poção. Mais alguma pergunta? ... Logo, acredito que podemos começar a disputa. Primeiro: Afrodite. Quem será o seu mensageiro?
Afrodite:
Meu filho, Eros.
Éris:
E você, Atena?
Atena:
Hermes.
Éris:
Agora é necessário que eles partam com as poções. E lembrem-se: a moral dos humanos não permite que se apaixonem por parentes, o que é uma desvantagem para Afrodite, pois o afeto está menos para razão do que do amor. Portanto, não devem ser da mesma família, contudo devem ser conhecidos e devem possuir uma proximidade, porque a distância enfraquece o objeto da memória. A idade deles não deve oscilar muito, pois as suas paixões e razões começam a se desenvolver depois dos quinze, logo a escolha dos muito novos não é válida. O contrário também não é permitido, pois as suas faculdades mentais se deterioram com a longevidade, o que seria uma desvantagem para Atena. Que eles não passem a idade dos trinta e cinco anos. Quanto às posses, não poderão ostentar muito dinheiro porque a ganância é uma espécie de paixão, e muito menos deverão ser pobres sem condições de manter os bens necessários para um relacionamento entre os mortais. Quanto à beleza do corpo, deverão possuir não somente o passível de união, porém aquela que enfeitiça os sentidos, com as devidas restrições do belo humano. O modo como a alma inicialmente se comporta não interferirá no seu futuro modo relativo a cada poção, o que mostrará qual das poções surtirá maior efeito, pois quem conseguir manter por duas semanas o relacionamento terá sucesso e possuirá mérito nessa disputa. Podem agora partir, Eros e Hermes. Irei também para supervisionar qualquer eventual trapaça, porque Homero não estava completamente errado quando cantou o nosso passado. Temos que ir. Esperem por nós.
Atena e Afrodite:
Que Zeus lhes abençoem. (Saem.)
Escrito por Bernardo Veiga às 17h43
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Sobre a matéria
O objeto mais nobre é o Bem. Ora, embora as coisas nobres não precisam ser elogiadas por si mesmas, porque os juízos subjetivos não mudam a sua perfeição, aqueles que emitem esses juízos precisam elogiar essas coisas por necessidades próprias. Da mesma forma ocorre com a arte, o espectador ganha ao elogiar o belo, não propriamente a arte. Por isso que, por necessidade do artista e pelo nobreza do objeto, convém elogiar o
Sobre a matéria II
Por defender o Bem, deve-se entender qual o conceito de Bem. Parece que convém o seu entendimento através da filosofia realista.
A filosofia realista afirma categoricamente o Bem como finalidade última do homem. Mas isso propriamente não importa se a filosofia realista for falsa. Deve-se tentar provar a verdade da filosofia realista.
Hegel dizia que "se houve gênios na humanidade, certamente Aristóteles foi um deles", apesar de Hegel ter sido forte opositor de Aristóteles. Mas isso não prova nada ainda, pois juízos de autoridades, humanamente, podem ser falsos.
A filosofia realista verdadeiramente procura defender a natureza do homem na sua integridade, começando em Platão (de forma exagerada), continuando em Aristóteles (na forma moderada) e chegando no seu auge em Tomás de Aquino. Mas deve-se explicar a soberania de suas partes:
A ética é soberana como demonstrou Sócrates e os seguidores de um bem objetivo.
A lógica Aristotélica é soberana pela construção do mundo ocidental.
E, a metafísica tomista é soberana pela forma de perscrutar o ser.
Embora possuem muitas diferenças em seus autores todas "essas filosofias realistas" se unem pela defesa do bem mais nobre e pela sua contemplação.
(...) tem mais muita coisa, sobre a defesa do neoparnasianismo realista, sobretudo na nesta página do orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=27021891&refresh=1
Escrito por Bernardo Veiga às 17h42
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Sobre a forma II
Santo Agostinho dizia que é possível compreender melhor o todo quando o dividimos pelas suas partes e tentamos compreendê-las. O todo e a parte de uma poesia passam pela teoria hilemórfica aristotélica, pois a formação do número possui uma forte ligação com a matéria que está relacionada (o que não é necessariamente uma numerologia, mas uma relação do acidente da quantidade com o da qualidade)
Em ambas as formas de soneto, a petrarquiana e a inglesa, são 14 os versos. As partes de 14 são: 1, 2 e 7. Deve-se então analisar cada uma dessa partes:
Sobre a unidade
O 1 indica a unidade. Aquilo que é mais nobre porque se mostra absoluto e único. É o limitado pelo que é, mas é o ilimitado pelas infinitas naturezas do limitado. Por isso se diz que o ente é uno e o múltiplo só existe sobre o ente.
A harmonia é a boa tendência para o uno, por isso sempre é necessário haver em uma poesia, pelo menos um verso, o que nega as infrutíferas tentativas pós-modernistas.
A unidade do soneto é essencial à poesia, logo também ao soneto.
Sobre a dualidade
O 2 indica a dualidade. Segundo os pitagóricos o dois é a passagem do ímpar para o par, da perfeição para o imperfeito, da unidade para a divisão.
A divisão foge dos modelos utópicos, o que poderia ser a negação do próprio soneto, porque seria a sua própria divisão. Isto nos forçaria a buscar outra forma de poesia que não tivesse o total dos números de versos como par. Mas deve-se entender que a divisão é a representação mais excelente daquilo que é humano. Ora, a poesia é humana, embora deseje, de alguma forma, ser mais que isso. A natureza da dualidade expressa o que seria tanto a condição da poesia, quanto a de quem a escreve. Assim, quando na unidade é vista a perfeição, na dualiadade é vista a fragmentação. No primeiro o que deve ser a poesia e o seu objeto, no segundo a sua condição. Ambos são contrários, mas sempre desejam se reconciliar, como pessoas que são diferentes no temperamento, mas uma força mais forte os impele para amar.
Por isso, por bem representar o ser e o dever poético, convém à poesia, e, por isso, também ao soneto, ter um número par de versos no total.
Sobre a metade (o número 7)
O 7 indica a perfeição, dentro da compreensão humana. Se o 1 indica a unidade como uma perfeição em absoluto em si, o 7 indica uma perfeição em absoluto para o humano: a tentativa de alcançar o logos pela mente, apesar das suas limitações e debilidades.
Os 7 sábios antigos representam a perfeição do saber humano. A somatória das virtudes cardiais e teologais também são sete, mas a soberana de todas é somente uma: o amor. O 7 é como se fosse uma tentativa imperfeita de compreender o 1. O 7 mostra a relação da dualidade com a unidade, pois ele seria fruto deste vínculo.
Se o 1 expressa a unidade, o 2 a divisão e o 7 a sua relação, então convém à poesia para possibilitar a relação entre o ser e o devir a existência de um número de versos múltiplo de 7.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h41
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Restrição aos filósofos realistas
A restrição aos filósofos realistas é nociva para a busca da verdade, pela função referencial, de apenas um modo: a infinita pluralidade das possibilidades da manifestação do Logos.
Possibilidades da manifestação do Logos: A filosofia não é a verdade, mas propriamente uma humana relação com a verdade. Ora, não há filosofia alguma que tenha TODA a verdade, porque ela é humana e o conhecimento é ilimitado. Deve-se então abrir-se para novas filosofias e negar, pelo menos, a exclusividade da filosofia realista.
Alguém quer acrescentar outra sugestão? Esta parte é somente para criticar o neoparnasianismo realista.
A democracia da arte
Parece, também, que a forma "soneto" é antidemocrática, porque somente algumas pessoas podem criar esta forma de arte por causa da complexidade da técnica. Ora, a arte é livre e não uma manifestação elitista e aristocrática de poucos "escolhidos" e "dotados" pelo destino. A soberania do soneto nega os ganhos ideológicos do modernismo e sobretudo do pós-modernismo. Logo, o soneto é um anacronismo e uma tentativa da dominação de uma forma de arte técnica e específica. 29 jan excluir
Problema da autoridade
A própria arbitrariedade da consideração do soneto como a forma mais nobre deve ter sido determinada por um sonetista. Pois, sempre deve-se ficar com um certo receio quando alguém elogia algo e, de certa forma, participa do objeto do elogio. Então, como o feio pode se chamar de bonito e o mal de bem para enganar, assim também o criador do neoparnasianismo realista está tentando se enaltecer, elogiando uma forma que ele possivelmente deve minimamente ter o domínio. Portanto a defesa do soneto como melhor forma é uma mentira.
Em contrário
O neoparnasianismo Realista é uma boa e nobre arte por dois motivos: pela nobreza da forma e da matéria.
Sobre a forma
Poeticamente, diz-se que uma forma é nobre quando ela é boa pelo seu ritmo. De tal forma que a métrica é um meio para a beleza e não um fim; convém, antes, que o ritmo seja o fim, que gerará a beleza. Ora, naturalmente o soneto é considerado, por mais de 8 séculos de uso, a forma mais nobre da poesia. O que permanece, permanece por um motivo e o motivo é a escolha dos poetas. E quem poderia ser melhor do que os poetas para conhecer e escolher o que é mais nobre para a poesia? Logo, a forma mais nobre é o soneto.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h41
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Parece que não convém o neoparnasianismo realista
Por alguns motivos principais parece que não convém o neoparnasianismo realista: é contrário à liberdade do artista, já existe a prosa filosófica e a restrição aos filósofos realistas...
Liberdade do artista
É contrário à liberdade do artista por dois motivos: a pluralidade da arte e a subjetivade, sobretudo a genialidade, do artista.
Pluralidade da arte: Quanto maior o campo, maior a capacidade de escolhas. Mesmo que a quantidade não implique necessariamente na qualidade, é condição necessária a existência da quantidade, até mesmo para a escolha de uma poesia melhor. Assim sendo, a variedade implica em quantidade, a quantidade em escolha, a escolha em um bem melhor.
Genialidade: Quando um artista cria, a própria delimitação de uma forma pode debilitar a expressão da sua genialidade. De alguma forma, convêm aos gênios quebrar paradigmas em todos os seus respectivos campos. A imposição, a priori, de um mundo limita o gênio em um modelo, o que impede o desenvolvimento tanto da arte, quanto do artista.
Prosa filosófica
A prosa filosófica fere o neoparnasianismo realista por duas formas: a própria existência da prosa filosófica e a sua prisão.
A existência da prosa filosófica: Não convém desenvolver aquilo que já existe de forma perfeita. O que convém a uns deve ser entendido como aquilo que é melhor utilizado por ele. Ora, aos poetas convém a poesia e aos filósofos a prosa.
A prisão da prosa: Da mesma forma que a poesia está para a liberdade, como foi visto, a prosa está para a prisão. A liberdade da poesia consiste em poder não ser; a prisão da prosa consiste em dever ser. Da mesma forma pode-se dizer que a poesia pode está para mentira, como a prosa deve estar para a verdade. Quando Sócrates dizia que "os poetas mentem", de fato, quer dizer que são mentirosos, pois aquele que é mentiroso diz a verdade acidentalmente, não a mentira necessariamente. Contudo, aquele que usa da prosa, o que representaria, de alguma forma, o espírito filosófico, deve sempre obedecer à verdade e ser seu escravo.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h41
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Manifesto neoparnasiano realista
O verso quando fala da verdade,
Despreza o tolo belo mentiroso
E toma por virtude de amizade
O nobre, o bem, o ser e o venturoso.
Seu todo mais excede o seu limite
E a forma se reduz ao seu compasso
Se perde a velha estrofe a luz que emite
E faz do ser medida o novo espaço.
Eleva o seu porque no platonismo,
Retoma e faz razão do pensamento,
Expressa como Verbo em cristianismo
O mundo que se nega o movimento.
Revela cada belo mais pureza
No verso que defende a natureza.
Regras básicas do soneto neoparnasiano realista
1 - Pela forma: deve ser um soneto do estilo tradicional de 14 versos: pode ser petrarquiano ou inglês e deve obedecer as regras de versificação desses sonetos.
2 - Pela matéria: deve ser impessoal, objetivo e filosófico.
2.1 impessoal
Nunca deve aparecer o eu-lírico, nunca!, nem vocábulos como "eu", "minha" etc. Essas expressões só podem existir se o autor estiver comentando-as, como "o 'eu' que faz o mundo ser vaidade".
2.2 Objetivo
Função referencial. Sem emoções e devaneios poéticos românticos.
2.3 Filosófico
Defender as coisas nobres da vida, se possível ontologicamente, seguindo a filosofia de Platão e Aristóteles.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h41
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Se sonho, a natureza faz-me rei;
Acordo desejando a profecia
– Sem ter de recorrer ao que dormia –
De ser em tal futuro o que já sei.
E imploro que outro ser permute a lei,
Que salve o meu destino por magia,
Que faça por meu nome o que eu faria
Se fosse tão valente quanto amei.
Espero no que passa como eterno
E morro sem, contudo, ter a vida,
Mas vivo pelo amor que faz morrer.
Descanso na mentira concebida
De quem se mostra o céu, mas traz inferno
E faz da minha fé um falso crer.
_________________________________________
Quando a sorte do mundo descontenta
E o mudo pensamento implora um guia,
Invoco na memória a fantasia
De nunca no futuro ter tormenta.
Mas, eis, que a Providência me apresenta
Num vale da desgraça ou cada dia
Um doce amor que muito é tirania
E ao pobre coração me violenta.
Ó doce amor, tirano e piedoso,
Macula e causa dor de sepultura
E deixas infeliz o não ditoso;
E assim tudo é movido à formosura
Co’efeito de gemido doloroso
E ao pobre coração lhe nega cura.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h40
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O dizer do mundo
Quem diz ao novo fruto: “Sê maduro!”?
Quem diz à velha flor: “Que perca idade!”?
Quem toma o belo vil e diz: “Que puro!”?
Quem diz à perfeição: “Que fealdade!”?
O mundo nem por si se diz seguro;
O mundo nem por si se diz verdade
E toma como seu o bem futuro
E cria como sua a realidade.
Se ganha o que deseja, o que procura,
Se diz como glutão: “Insatisfeito.”
E busca intensidade ou outro bem.
Se quer o que deseja, ou mesmo, alguém
E perde por acaso, ou próprio feito,
Recai como doença e implora cura.
Ode a Élvio Zullo (professor de História do 2°grau)
O Tempo que de poucos traz memória
Refaz o seu valor no entendimento
E diz o que negar do humano intento
E sede ao grande douto a própria glória.
Pois douto leva o ser de toda História
E traz pela razão contentamento
Se mostra, por virtude, o pensamento
Àqueles que a verdade faz notória.
E assim percorre o mundo o professor,
Deixando às gerações o seu legado
E todos na memória o seu louvor.
E o nome tão querido e bem falado
É Élvio, que recebe o seu fulgor
Daqueles que tiveram seu cuidado.
____________________________________________
O velho que reclama nova idade,
O pobre que deseja só riqueza,
O feio que se queda por beleza,
O sábio que se perde da verdade...
O mundo que recebe outra bondade
Despreza como sua, a Realeza,
E toma como Bem a natureza
E faz da sua ação insanidade.
Afirma outra medida por razão;
Declara a nova “luz” do entendimento
E faz da própria mente a criação;
Se diz senhor do céu e o movimento
Por ter perdido o pobre coração
Nas coisas que se perdem por momento.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h40
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Carta do meu verme
Caro amigo meu, Bernardo,
Eu e a manzinha querida
Queremos um corpo pardo
Mais ou menos como em vida:
Pode a mente ter retardo,
Mas o corpo sem ferida;
Pode, velho, sem medida
Que eu tolero e muito aguardo.
E mamãe está fazendo
Uma festa luxuosa
E está boba de orgulhosa.
E eu, você sabe, um tímido
Vou ficar sempre devendo...
Do verme desconhecido.
Perguntas de um curioso a Eros, na Idade Média
– Que sois vós? – Louvado amor.
– Que sofreis? – De idolatria.
– Que fazeis? – A própria dor.
– Mas de quem? – De quem queria.
– Sois de trato? – Como flor.
– Sois de encanto? – Como dia.
– Sois temido? – Por pudor.
– Mas de quem? – De quem queria.
– Quem vos quer? – Alguns medrosos.
– Mas se negam? – Por pureza.
– De outro amor? – De outro querer.
– São felizes? – Bem ditosos.
– Por amor? – Que eleva ao Ser.
– Que se mostra? – Em natureza.
– Se conhece? – Por ciência.
– E se move? – Certamente.
– De que forma? – Por potência.
– Que revela? – Ativamente.
– Já se fora? – Não, vivente.
– Como vive? – Em transcendência.
– Pensador? – Sim, bem ciente.
– Mas de quê? – Da própria essência.
– É senhor? – De servidão.
– Fez-se servo? – Pela morte.
– Pela morte? – Sim, de cruz.
– Fez-se fraco? – Fez-se forte.
– Mas por quê? – Por salvação.
– Que liberta? – Que conduz.
Poesia para a família Madruga
O mundo que adotou nominalismo
Dissera aos nossos nomes: “Qual poder
Recebe por acaso o conceber
Do nada seu conceito, o próprio abismo?”
E vivem sem sentido, em cataclismo,
E choram – pobres nomes! – seu nascer
Por tudo que tivera o merecer;
Por tudo que fizera o realismo.
Mas um dos já louvados por Espanha
Se mostra tão perfeito no argumento
Que faz neste presente a sorte antanha.
O ente quando ganha o seu conceito
Recebe o seu “Madruga” por direito
E dá à perfeição seu ornamento.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h40
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O choro que lamenta e diz fraqueza;
O choro que liberta o tolo amado;
O choro que consola o desgraçado;
O choro que suplanta a natureza.
Quem nega o choro é vil, conforme lesa
Aquilo que se eleva sem destreza,
Aquilo que se humilha por atado,
Aquilo que se esconde de afamado.
Mas quem louvar o choro, quando forte,
Se apóia na virtude tanto humana
E teme ser levado desta via,
Se mostra tão prudente dessa sorte
Que deve desdizer o que seria
A vida que não chora e não reclama.
Sobre o sacerdócio
Por ouro, por metal ou por madeira
Levada a resguardar o mais sagrado
A casa só retoma o nobre estado
Enquanto for do Verbo hospitaleira.
O ser que da vontade faz primeira
Recebe – igual sacrário – transladado
O Deus no sacramento consagrado
Por ordem; pela fé demais certeira.
E Deus que por bondade ao peregrino
Um anjo lhe concede – um outro bem –
E deixa ao novo estado um guardião.
A graça lhe conduz a ser divino;
Os anjos do pecado lhe defendem
E saúdam por louvor a vocação.
__________________________________________________
Como aprendiz que goza em conhecer,
O doce e puro amor faz seus encantos
E a tudo quer feliz em seu recanto
E pensa cada dor com seu porquê.
O tolo quando diz: “O meu saber?”
Reduz um bom clamor ao feio canto;
E quem amor não quis suporta o pranto
De nunca servidor tornar a ser.
E assim amar, saber: uma só cousa
Que leva o burro amante ser mais triste
E o gênio sem querer negar a lousa...
Que louve e sempre cante o bem que existe
O sábio no dever – que não repousa –
De amar o relevante que se assiste.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h40
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Sobre a temperança
Quem pode elogiar a temperança
E, livre, defender humana cura
Se – dócil – perde, sofre, fere, cansa,
Se – dócil – só padece de fartura?
Seu bem: prazer sentir, prazer amado
– Amado pela vida que se assombra –
É morte, vida, morte que pecado
Afronta toda vida e fá-la sombra.
E o pobre, como servo da fortuna,
Que vive nessa vida bom tempero
Só deve agradecer com grande esmero
E nunca ter a vida por soturna.
Só pode elogiar qualquer virtude
Aquele que tempera o bem que ilude.
Sobre a Justiça
O vero na vontade: amor de justo agir
Procura na razão um guia verdadeiro
E espera – tanto humano – o bem do seu devir;
E espera – tanto humano – o justo derradeiro.
E o justo, bem devido, ação de belo alcance
Recebe nesta vida ou morre na esperança,
O bem que, só, procura, eterno de relance;
O bem que fere o justo e fere de pujança.
Se sofre, ama o bem, se ama o bem que sofre,
Deseja verdadeiro e morre de justiça
Enquanto vivo morre e morto vivo atiça
E fere o sono forte e fraco vivo corre.
O justo no dever se alegra na verdade
E chora por consolo e implora a eternidade.
Sonetos de forma camoniana
Acaso deve o ser seguir natura?
Ou sempre renegar seu fundamento?
Ou deve ser natura de instrumento?
Ou deve ser dotado de textura?
O ser que só procura amada cura?
O ser que não recebe movimento?
O ser que só deseja o complemento?
O ser que só deseja e nada atura?
O bem, que se corrompe, fora antes
Amado, desde sempre, e concedido
Aos seres que defendem nova vista.
O bem, amado ser, sempre querido
Por outro que o fizera como amante
Por outro que o fizera como artista.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h40
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O tolo quando diz “Sou comunista”
Despreza a liberdade “E quem se importa!
O sábio no dever de todo artista
Escolhe o mesmo bem que lhe conforta.”
E o sábio quando diz “Capitalismo”
Eleva à divindade o pobre humano
Se salva da maldade – o grande abismo –
O tolo do barbudo mais insano.
A força, o seu trabalho, o seu sustento;
O mundo que concede a liberdade;
O mundo que defende a propriedade;
O mundo que se salva do tormento.
O mundo que liberta e priva o mal
Defende a produção e o capital.
____________
O tolo que prefere a natureza,
Que pinta, canta, ilustra ou só descreve
Acaba desejando por beleza
A forma mais fugaz, rasteira e breve.
O belo, no dever de todo artista,
Conduz a pena, a tinta, o movimento
Ao ser que faz natura de instrumento
Ao ser que dera ao mundo nova vista.
Que cante o velho mundo as coisas novas!
Que faça da beleza o bem seguro!
Que veja no passado o seu futuro!
Que negue no presente o que reprova!
Que queira nesse instante a eternidade;
Que deixe algum valor na Cristandade.
_______________
Aquele que renega o bom lirismo
Que ri, desfaz a forma o seu passado,
Acaba desejando o modernismo
E chora a condição de libertado:
“Sou livre! Queira o belo novo invento;
Sou livre! Queira o belo novo espaço.”
Renega o bom valor por outro intento
E ufana a condição do seu fracasso:
Se foge da prisão, eleva a pena;
Se muda a cela, sofre de saudade;
Se nega a forma, implora o que condena;
Se “livre”, só deseja a liberdade.
Que busque ser escravo da beleza;
Que tenha a velha forma por riqueza.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h39
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O sábio quando sofre pelo ser
Que pouco deixa à mente o seu conforto,
Por tolo, diz à vida: “O conhecer
À mente não concede o próprio porto.”
O cego quando dorme nada sonha
E, triste, só procura a cor do espaço,
E, cego, diz à vida: “Que medonha!
Acaso o ser reduz a ser um traço?”
O pobre sente fome e – que esperança! –
Espera algum consolo – só comida –
E, pobre, diz à vida: “A comilança
A ti alegra o ser e faz vencida.”
O sábio, o pobre, o cego só reclamam
E a vida lhes responde: “Não me amam.”
______________________
Os olhos da justiça são velados
E o dano na verdade é nosso amigo.
E os mesmos, quando dizem dos amados,
Também se mostram cegos do perigo;
Contudo cada amor que é dito cego
Se mostra de outra via venturoso,
Conforme o seu dizer: “Por ti me nego
E quero o seu viver, seu ser ditoso.”
O amor enxerga o ser e a tudo entende;
O amor contempla o amado por vontade;
O amor se faz escravo e a tudo tende;
O amor conduz o servo à liberdade.
O cego pode amar e ser escravo
E o servo pode olhar sem ser agravo.
______________________________________
Sobre a fala de si mesmo de um ente sem vida
Que dor, que toda noite, só, sustento!
Que fado! Antes sim qualquer açoite!
Que sina! – me enfraquece – toda noite!
Que dano, que torpor, que desalento!
Meu ser, desilusão, altar mundano!
Meu tato, só louvor, concede agrado!
Meu ato, meu sustento, meu pecado:
Meu sonho: meu querer, maldito humano!
E, só, durante o dia, meu conforto;
E, mole, no descanso, dura pena;
E, livre, no porvir, que me condena;
E, preso, pela noite, ao próprio aborto;
Se tudo tem porquê, razão e efeito
Que seja o nome cama o mais eleito.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h39
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Um dia a natureza mais pedante
Pedira sutilmente o seu louvor
Ao mundo que a fizera triunfante
Ao mundo, tão querido, seu senhor.
“Sou deusa, sou senhora, imperatriz,
Sou nobre, inteligência, sou perfeita,
Sou tudo, pleno ser e a tudo fiz,
Sou ato, o que sustenta e a tudo enfeita.”
O orgulho não conhece a natureza
Mas ela (– quem diria? –) é orgulhosa
Se mostra mais valor que a sua riqueza,
Se pede devoção religiosa.
Eleva mais que o ser o pensamento
E afirma como Deus seu julgamento.
______________________
Os anjos, não mortais, que zombam dos meus versos
Reclamam por justiça ao sábio São Tomás
E dizem: “Pelos céus! Que tolos! São inversos!
Retêm qualquer mentira e o Belo vê’’ jamais”.
O santo humanamente o verso não condena,
Abraça o sentimento e louva a poesia,
Afirma tão somente: “a mão que leva a pena
Recebe falsidade ou vero o que seria.”
O belo mais louvado, o Ser, razão celeste
Permite o cego canto: amor da natureza,
Se mostra pelo ser o vero na beleza
E a tudo da verdade aflora e a tudo investe.
Aplaca no dever a luz de ser perfeito
Dizer que o humano verso atrai qualquer direito.
_____________________________
Para o aniversário de 19 anos de Fabíola Bezerra
A jov’’em boa fé que zomba desta forma
Procura liberdade – o ser de todo artista –
E nega na prisão o verso que deforma
E diz: “O belo é livre! O belo é modernista!”.
Pois, hoje, quem defende o verso modelado
Se rende pelo dia e pede outro cenário,
E afirma bem querer, e afirma que o passado
Não tem razão de ser, por ser aniversário.
Por isso falo mal das formas, dos sonetos,
De tudo que se molda em ser pré-concebido,
De tudo que se faz nas formas dos quartetos,
De tudo sem beleza e ser demais batido.
Reduz ao mal soneto a forma que se amola,
Então, por mil razões me calo, enfim, Fabíola.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h39
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A tudo que desfere o mesmo encanto
Revela mais amado e mais querido
Se fora na amizade concebido,
Se fora na vontade o seu recanto;
E eleva mais o que céu o próprio abrigo
E faz desigualdade na justiça
Por ter de dois o um que traz amigo,
Por ter o bem comum como premissa.
Pois basta ter de um bem um bom desejo
Ou mesmo ser do mal bem devotado,
Enquanto tem por vil o mesmo pejo,
O que somente os gostos têm tratado.
O amigo é como Deus que traz a vida
Se bem recebe, em Deus, a sua medida.
___________
O que refaz, desfaz ou mesmo cria
“Se move” sem mover-se por essência
Ou mesmo quando move em fantasia,
Só move por ativa a sua potência.
Mover-se diz que ser sofre fraqueza;
Querer, pensar são atos dessa Vida
Sofrer e amar só movem natureza
Se for só no segundo a sua ferida.
É ser que foge ao tempo: Eternidade;
É ser sempre presente: Incontigente;
É ser de nobre bem: Felicidade.
É Ser que eleva o ser, como presente.
E o Verbo mostra o ser pro amor cedido;
E o Verbo como o Ser são bem queridos.
________
Roma diante dos cristãos
O servo que se rende ao paganismo
Recebe da verdade o seu consolo
E diz à servidão do cristianismo
Que “o louco louva a Cristo, o deus dos tolos!.
Sorriem e do mundo leva choro
E choram pelo mundo, que alegria!;
Exaltam outros tolos, como coro
E tomam como paz a sua porfia;
Se dizem como deuses quando o pão
Ingerem, pela fé que lhes sustenta,
E dizem que a verdade é condição
Que livre deixa o ser de sua tormenta.”
E o Cristo p’ros cristãos revela vida;
E o Cristo para os outros só ferida.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h39
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Do mundo, qual demônio em vilania,
Revela nos seus dons, igual beleza,
Por ser o mesmo corpo: fantasia,
Roubada desta sina – própria presa.
Mas como hei de exaltar a formosura
Se tais versos têm na arte aviltamento
Em mim, pobre poeta, a desventura
Que o nome resta dom também talento?
E passo pela vida a contemplá-la
Qual coro com a mudez enfermidade
Que ao levar clamor, o seu corpo cala
E diz consigo mesmo: “Que Vontade!”.
A beleza obscura assim revela
Que nada vale a arte longe dela.
_______
“Se tudo nesta terra é vaidade
O amor se torna o fardo do infeliz,
É desgraça, é tormento, é o juiz
Da sorte, do destino e da saudade.”
É verdade que amor é o pesar,
Mas dos livres dos bons e dos ditosos
O vil é inconstante no fiar
O bom resiste a dor e aos fins morosos.
Pois, grande tem amor que do destino
Não se fia e da sorte não agrada;
Não se curva aos olhares como um hino
Mas conforme o valor de sua amada.
Jamais será feliz o vaidoso
Se só olhar p’ra si como amoroso.
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Enquanto o belo humano faz divino
O amor, que tão gentil a si fazia,
Se deixa dominar por outro hino
E faz do sentimento apostasia:
Deseja o ser mortal p’r’a divindade
E toda imperfeição da natureza;
Refaz por todo mal a sua bondade
E tem por sensual a sua pureza;
Se anima na desgraça do pecado;
Se orgulha no prazer de uma heresia;
Pois, chora nos milagres consagrados
E sofre toda dor por sua alegria.
O amor que causa encanto e mostra luz
Desfere o coração que lhe conduz.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h38
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O ser que na matéria ganha forma É tudo na potência maculado, Porém obediente à justa norma De ser da mesma forma, o que foi dado. Mas a lei da natura é pouco usada Por todos que se guiam por Cupido, Que vêem, os amantes, suas amadas, Em tudo que por eles é sentido. Alegra a vista e chora o coração; Se humilha no poder d’experiência, Porquanto o seu querer reage em vão E a dor se faz presente pela ausência. Procura todo amante uma beleza E faz da própria mente a realeza.
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A primazia da servidão
Por mais que amor se negue ser primeiro
E grande benfeitor de um próprio fado,
É justo, bem ditoso e verdadeiro;
É nobre, grande guia e meu criado.
Mas quem deseja ser eternamente
Escravo, rebaixado e só movido,
Só mede na vontade o que consente
E pouco do sentir lhe sofre ouvido.
Se o servo reivindica a realeza
E leva ao seu senhor, que lhe temia,
O rei deve baixar a natureza
E dar ao pobre servo a monarquia.
Se amor passar de servo à soberano,
Será mais condizente ser tirano.
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Quando se encontra amor como esperança
Da sorte vê-se o corpo em dura pena;
Sofrer até da morte – nunca alcança –,
Ou amor fazer real, quando lhe ordena:
“Coragem! Sede sábio, mas valente,
Retenhas contra ti qualquer orgulho
E tenhas por desfecho alegremente.
Esqueças dessa mente, tanto entulho,
Por nada ter amor Jamais tocado.”
O corpo, então, renega o próprio intento,
E, cego, desconhece qual do fado
Ardor o levará sem sofrimento.
Assim padecem todos por amor,
Ausente de humildade, mas honor.
Escrito por Bernardo Veiga às 17h38
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